Saiba se foram as emissões, desde o Acordo de Paris, que agravaram as recentes ondas de calor na Europa

Os cientistas têm estudado a queima de combustíveis fósseis desde a Revolução Industrial, em meados do século XIX, para demonstrar como esta tem contribuído para a subida das temperaturas médias globais e noutros aspetos do clima da Terra.

Está cientificamente provado que as emissões que resultam da atividade do homem têm contribuído para as alterações climáticas.
Está cientificamente provado que as emissões que resultam da atividade do homem têm contribuído para as alterações climáticas.

Nas últimas duas décadas, os investigadores desenvolveram métodos para estudar a forma como as emissões históricas afetaram as ondas de calor, os furacões, as secas, os incêndios florestais e outros eventos climáticos extremos.

As emissões e as ondas de calor extremas na Europa

Quase um quinto de todas as emissões de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis foram emitidas na década que passou desde a adoção do Acordo de Paris. A maior parte destas emissões provém da queima de petróleo, gás natural e carvão.

O Acordo de Paris foi um tratado internacional juridicamente vinculativo sobre as alterações climáticas, adotado por quase 200 países em dezembro de 2015, para limitar o aquecimento global abaixo dos 2 °C acima dos níveis pré-industriais. Estes países concordaram também em envidar esforços para limitar o aquecimento a 1,5 °C.

Atualmente o aquecimento global já está a ultrapassar o limite de 1,5 ºC. Daqui a uma década, com as atuais políticas climáticas, as estimativas otimistas apontam para um pico de 1,8 °C.

A Europa é particularmente vulnerável face ao aquecimento global. O continente está a aquecer a um ritmo mais do dobro da média global.

As ondas de calor de junho e julho de 2025, que mataram milhares de pessoas em toda a Europa, bateram recordes em todo o continente, apenas para serem ultrapassadas pelas ondas de calor de 2026. As temperaturas do ar à superfície ultrapassaram os 40 °C em vários países e chegaram aos 46 °C em Espanha e Portugal.

Uma onda de calor atingiu o oeste e o sul da Europa entre 17 de junho e 2 de julho de 2025. As temperaturas médias do ar durante o evento são comparadas com a temperatura média do mesmo período de 16 dias entre 1979 e 2024 (Fonte: Crédito da imagem: Copernicus, Programa de Observação da Terra da União Europeia)
Uma onda de calor atingiu o oeste e o sul da Europa entre 17 de junho e 2 de julho de 2025. As temperaturas médias do ar durante o evento são comparadas com a temperatura média do mesmo período de 16 dias entre 1979 e 2024 (Fonte: Crédito da imagem: Copernicus, Programa de Observação da Terra da União Europeia)

Um estudo publicado a 22 de setembro na revista Geophysical Research Letters, teve como objetivo analisar se as emissões globais de gases com efeito de estufa libertadas desde o Acordo de Paris de 2015 podem estar associadas aos recentes fenómenos de calor extremo na Europa.

Os investigadores criaram um modelo generativo de IA, conhecido como modelo de difusão, utilizando dados meteorológicos simulados de 10 modelos climáticos globais, abrangendo o período de 1850 a 2100, para prever como as ondas de calor extremas na Europa poderiam ter-se desenvolvido sob diferentes níveis de emissões globais.

O modelo prevê alterações espacialmente explícitas na temperatura diária à superfície em diferentes níveis de emissões acumuladas e foi aplicado a fenómenos de calor observados na Europa, utilizando dados de reanálise ERA5 e resultados de 10 modelos climáticos globais do CMIP6.

Os autores do estudo descobriram uma probabilidade superior a 99% de que as emissões causadas pelo homem na última década tenham intensificado a onda de calor mortal de 2025 na Europa.

O artigo apresenta fortes indícios (probabilidade >95 %) de que as emissões antropogénicas libertadas desde 2015 aumentaram a intensidade dos extremos de temperatura no verão europeu desde 2021.

No estudo conclui-se ainda que existe uma probabilidade >95 % de que as emissões pós-2015 tenham aumentado a intensidade da semana mais quente do ano e o número de dias de calor extremo entre 2022 e 2025.

As conclusões realçam a necessidade de nos prepararmos para eventos climáticos mais extremos, mesmo que as metas políticas para a redução das emissões de gases com efeito de estufa sejam bem-sucedidas.

Importância deste estudo

Esta investigação mostra que se pode, de forma sistemática e objetiva, relacionar subconjuntos de emissões históricas, com ondas de calor específicas.

Um aspeto fundamental do estudo, é que se consegue afirmar com grande confiança que a onda de calor de 2025 na Europa teria sido mais amena se os mesmos padrões climáticos tivessem ocorrido sem este subconjunto de emissões.

Esta investigação serve também como um alerta, atendendo que as emissões já libertadas terão ainda impacto no nosso clima independentemente de quaisquer esforços de mitigação que se tome no futuro.

Mesmo no cenário mais otimista e ambicioso para a redução das emissões, ainda se vai verificar uma intensificação dos eventos extremos.

Os autores consideram o seu trabalho um passo importante para medir como as quantidades de emissões contribuem para os danos causados por um evento extremo. Descrevem-no como fundamental para saber o que a continuidade das emissões significará à medida que o mundo reduz o seu consumo.

As ondas de calor na Europa têm sido mais intensas e frequentes
As ondas de calor na Europa têm sido mais intensas e frequentes

Este trabalho constitui um passo importante para compreender a influência de subconjuntos de emissões históricas em eventos meteorológicos extremos específicos e nos seus impactos.

A estabilização da temperatura global exigirá a redução das emissões a “zero líquido”, o ponto em que os gases com efeito de estufa libertados para a atmosfera são equilibrados por mecanismos naturais ou tecnologias avançadas.

Referência da notícia

Trok, J., Barnes, E. et al.. (2026). Global Emissions Since the Paris Agreement Have Intensified Europe's Recent Heatwaves.