Mosca-da-azeitona: a praga que dispara quando as temperaturas descem

Durante o verão o olival esteve calmo e deu a ideia de que o problema tinha passado ao lado. É agora, com as temperaturas a suavizar, que a praga encontra o que esperava.

Marcas visíveis na casca das azeitonas, o sinal que indica que o ataque já começou.
Marcas visíveis na casca das azeitonas, o sinal que indica que o ataque já começou.

Há uma frase que se ouve muito nos olivais em agosto: este ano não há mosca. E costuma ser verdade naquele momento, sobretudo depois de semanas de calor a sério.

O problema é que essa calma não significa ausência. Significa apenas que as condições não estavam do lado da praga. A partir de setembro, deixam de estar do nosso.

O calor do verão foi o melhor aliado do olival

A mosca-da-azeitona é um inseto muito sensível à temperatura, e essa sensibilidade explica praticamente todo o seu comportamento ao longo do ano.

Os adultos vivem pouco tempo com calor extremo e, sobretudo, os ovos e as larvas recém-nascidas morrem dentro da azeitona quando a temperatura sobe demasiado. Num agosto alentejano com máximas acima dos 35 ºC, o calor faz sozinho aquilo que nenhum tratamento consegue fazer. Na tabela abaixo, consegue avaliar o efeito da temperatura no desenvolvimento da praga em questão e época habitual a monitorizar.

Temperatura

Efeito na praga

Época habitual

Acima de 35 ºC

Ovos e larvas jovens morrem dentro do fruto

Julho e agosto

30 a 35 ºC

Reprodução muito reduzida

Agosto

20 a 30 ºC

Condições ideais, ciclo rápido

Setembro e outubro

15 a 20 ºC

Ciclo mais lento, mas contínuo

Outubro e novembro

Abaixo de 10 ºC

Desenvolvimento praticamente parado

Dezembro

Efeito da temperatura no aparecimento da mosca-da-azeitona. Fonte: elaboração própria a partir de valores de referência.

Repare na terceira linha. É exatamente a faixa em que setembro se instala em Mirandela, em Moura ou em Castelo Branco, e é por isso que o mês da viragem climática é também o mês da viragem na praga.

Três coisas mudam ao mesmo tempo

O arrefecimento é o fator principal, mas não anda sozinho.

A humidade sobe, com as primeiras chuvas e com as noites mais frescas, e os adultos sobrevivem bastante mais tempo em ar húmido do que em ar seco. Ao mesmo tempo, a azeitona já engrossou e o caroço endureceu, o que a torna um alvo muito mais apetecível para a postura.

Junte-se a isto o facto de a fêmea pôr centenas de ovos ao longo da vida e percebe-se como um olival aparentemente limpo em agosto pode estar seriamente atacado em meados de outubro.

Em agosto foi o calor que fez o trabalho de controlo. A partir de setembro, deixa de o fazer, e nota-se em poucas semanas.

O que procurar nas azeitonas

O sinal que interessa conhecer é a marca deixada pela fêmea quando põe o ovo.

Picada- Pequena marca deixada na casca da azeitona no momento da postura. Vê-se melhor contra a luz e tem a forma de um triângulo escuro ou de um ponto acastanhado com poucos milímetros. Mais tarde, quando o adulto sai do fruto, fica um orifício redondo de cerca de um milímetro.

A diferença entre as duas marcas é importante na prática. A picada indica que o ataque está a começar e que ainda há margem para agir. O orifício de saída indica que aquela geração já se completou e já andará a atacar os frutos vizinhos.

Para saber onde está, não basta olhar para uma ou outra azeitona. Colha cem azeitonas ao acaso, de várias árvores e de vários lados da copa, e conte quantas têm marcas. Essa percentagem diz-lhe mais do que qualquer impressão geral, e vale a pena repetir a contagem todas as semanas a partir de agora.

O que se pode fazer num olival pequeno

Quem tem meia dúzia de oliveiras em casa tem menos ferramentas do que um produtor, mas não está desarmado.

As armadilhas de captura são a medida mais acessível. Garrafas com um atrativo alimentar, penduradas na copa a meia altura e na parte mais soalheira da árvore, capturam adultos e servem também para perceber quando a população começa a subir. Convém colocá-las cedo, antes do pico, e não depois.

A limpeza do chão é outra medida que se subestima. Azeitona caída e picada é um viveiro. Recolha e retire, sem a deixar amontoada debaixo da árvore.

Adulto de mosca-da-azeitona sobre um fruto verde, no momento em que procura local para a postura.
Adulto de mosca-da-azeitona sobre um fruto verde, no momento em que procura local para a postura.

Se equacionar tratar, duas notas de prudência. Nesta fase do ano, o intervalo de segurança entre a aplicação e a colheita passa a ser o critério que manda em tudo o resto, e vem sempre indicado no rótulo. E vale a pena acompanhar os avisos agrícolas da sua região, que indicam os momentos em que a intervenção tem mesmo efeito.

Antecipar a colheita é quase sempre a melhor decisão

Fica o essencial para o fim, porque é o que muda mais resultado.

Quando a percentagem de frutos picados começa a subir depressa, esperar por mais maturação raramente compensa. Ganha-se algum rendimento em gordura e perde-se muito mais em qualidade, porque cada larva que se desenvolve abre uma porta a fungos e bactérias e faz subir a acidez do azeite.

E há um pormenor de última hora que decide a diferença entre um azeite bom e um azeite defeituoso. Azeitona picada não pode esperar no armazém. Deve ir para o lagar no próprio dia ou, no limite, no dia seguinte, porque a degradação dentro do fruto é rápida e não se corrige depois.

Nas próximas semanas, olhe para dois valores na previsão da sua zona: as máximas e a humidade. Se as máximas se instalarem entre os 20 e os 30 ºC e vierem dias húmidos, é altura de contar azeitonas todas as semanas.