Projeto dá aos agricultores até 48 horas para salvar as colheitas do sal que invade o Tejo

Investigadores e produtores unem esforços para antecipar a chegada de água imprópria para rega numa das mais importantes zonas agrícolas do país.

A proximidade ao estuário do Tejo faz da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira uma das zonas agrícolas mais expostas a episódios de intrusão salina em Portugal. Foto: Município de V.F.Xira
A proximidade ao estuário do Tejo faz da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira uma das zonas agrícolas mais expostas a episódios de intrusão salina em Portugal. Foto: Município de V.F.Xira

O rio corre largo junto aos campos da Grande Lezíria de Vila Franca de Xira, alimentando uma das maiores áreas agrícolas de Portugal. Em determinados dias, porém, a água que chega aos canais de rega traz consigo níveis de salinidade que destroem as colheitas e podem comprometer meses de trabalho.

Os agricultores desta vasta planície agrícola passaram, nos últimos anos, a conviver com episódios cada vez mais frequentes de intrusão salina, um fenómeno que ocorre quando a água do mar avança pelo estuário e penetra em zonas habitualmente dominadas por água doce.

Níveis elevados de salinidade podem forçar a interrupção da rega, afetando severamente as culturas mais sensíveis.

Um novo projeto pretende agora transformar a antecipação na principal linha de defesa. Chama-se “Tagus for Future – Water + Soil” e visa desenvolver modelos capazes de prever a evolução destes episódios com 24 a 48 horas de antecedência, dando aos agricultores tempo para se prepararem antes de a situação se tornar irreversível.

O sal que sobe o rio

A Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira gere cerca de 13.400 hectares de terrenos agrícolas, num território vulnerável à influência das marés. A proximidade do estuário do Tejo torna a região uma das mais expostas à água salgada.

Os registos da associação mostram que houve episódios severos em 2005 e 2012, mas o que antes surgia de forma esporádica passou a repetir-se com maior frequência. De dois em dois anos ou de três em três anos, os agricultores voltam a enfrentar níveis de salinidade que condicionam fortemente a rega.

A mudança tem implicações diretas na produção agrícola. Culturas de elevado valor económico, como o tomate para a indústria, o arroz e o milho, dependem de um fornecimento regular de água. Quando os episódios se prolongam, podem ocorrer quebras drásticas na produtividade e, nos casos mais extremos, a perda total das colheitas.

Prever hoje para decidir amanhã

É justamente para reduzir esse risco que nasceu o projeto “Tagus for Future – Water + Soil”, liderado pela associação agrícola, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e a parceria técnico-científica do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

O intuito passa, fundamentalmente, por prever a chegada de um episódio de elevada salinidade, dando maior margem aos agricultores para proteger as suas explorações.

Se houver um alerta com um ou dois dias de antecedência, poderá ser feita uma rega preventiva antes da interrupção da captação. A associação poderá também reorganizar a distribuição da água disponível, fasear os consumos entre diferentes utilizadores e emitir avisos por SMS.

O projeto “Tagus for Future – Water + Soil” pretende antecipar a evolução da salinidade no estuário, ajudando os agricultores a proteger culturas como o tomate, o arroz e o milho. Foto: Município de V.F.Xira
O projeto “Tagus for Future – Water + Soil” pretende antecipar a evolução da salinidade no estuário, ajudando os agricultores a proteger culturas como o tomate, o arroz e o milho. Foto: Município de V.F.Xira

O objetivo não é travar a intrusão salina, mas ganhar tempo para gerir os seus efeitos. Essa capacidade de antecipação pode representar a diferença entre uma situação controlável e perdas económicas significativas, sobretudo num momento em que estes episódios tendem a tornar-se mais frequentes.

A ciência procura respostas no fundo do estuário

Para prever melhor o comportamento do sal, os investigadores precisam, antes de tudo, compreender melhor o próprio rio. Uma das componentes centrais do projeto consiste em realizar um levantamento batimétrico do leito do Tejo. O trabalho permitirá atualizar o conhecimento sobre a profundidade e a morfologia do estuário, informações essenciais para aperfeiçoar os modelos de simulação desenvolvidos pelo LNEC.

As alterações no fundo do rio influenciam diretamente as correntes, a circulação da água e o avanço da maré. Fenómenos como o assoreamento, eventuais dragagens, a subida do nível do mar ou períodos prolongados de seca podem alterar a forma como a água salgada penetra no estuário. Ao integrar estes fatores nos modelos científicos, a equipa espera produzir previsões mais fiáveis e compreender melhor a evolução futura do fenómeno.

Uma solução com potencial para ir além do Tejo

O projeto tira ainda partido da experiência dos agricultores da região. Um dos períodos mais difíceis ocorreu durante a grande seca de 2012, quando praticamente todo o território continental foi classificado nas categorias mais graves de seca. A elevada salinidade condicionou, nessa altura, a captação de água na Grande Lezíria durante vários dias.

Desde então, a associação reforçou a monitorização do estuário e criou uma captação alternativa para aumentar a resiliência do sistema. Ainda assim, a crescente complexidade do problema exige novas ferramentas de gestão.

Com duração prevista de cerca de um ano e meio e um investimento próximo de 100 mil euros, o “Tagus for Future – Water + Soil” procura transformar dados e conhecimento científico em decisões práticas no terreno.

A ambição, contudo, vai além da Lezíria de Vila Franca de Xira. Os promotores acreditam que os modelos desenvolvidos poderão ser aplicados noutras regiões agrícolas vulneráveis à intrusão salina, como os estuários do Mondego, do Sado ou do Guadiana, e até no vale do Guadalquivir, na comunidade de Andaluzia, em Espanha.

Importante área agrícola, a Lezíria Grande é também um santuário de biodiversidade na Zona de Proteção Especial do Estuário do Tejo. Foto: Município de V.F.Xira
Importante área agrícola, a Lezíria Grande é também um santuário de biodiversidade na Zona de Proteção Especial do Estuário do Tejo. Foto: Município de V.F.Xira

À superfície, o Tejo mantém a aparência de sempre. Mas, sob a influência das marés, o equilíbrio entre a água doce e a salgada está a mudar. Numa região onde a intrusão salina já é encarada como um fenómeno que veio para ficar, ganhar alguns dias de antecedência pode ser a única defesa dos agricultores contra o avanço do mar.

Referências da notícia

Jornal Notícias do Sorraia. Avanço da água salgada no Tejo ameaça produção agrícola na Lezíria de Vila Franca de Xira.
Fundação Calouste Gulbenkian. Gulbenkian Água.
Tridge. Innovative Project Tackles Increasing Saltwater Intrusion Threatening Irrigation in Portugal’s Tagus Estuary.