Cientistas portugueses descobrem nova espécie de fungo em frutos de medronheiro

Uma equipa de investigadores da Universidade do Minho e do Instituto Politécnico de Castelo Branco identificou um microrganismo raro nas matas de Oleiros, batizado como Banningia arbuti.

Uma equipa de investigadores da Universidade do Minho e do Instituto Politécnico de Castelo Branco identificou um microrganismo raro nas matas de Oleiros, batizado como Banningia arbuti.
Uma equipa de investigadores da Universidade do Minho e do Instituto Politécnico de Castelo Branco identificou um microrganismo raro nas matas de Oleiros, batizado como Banningia arbuti.

As florestas ibéricas ainda escondem segredos microscópicos que só agora começam a ser revelados. No interior das bagas vermelhas e agridoce do medronheiro, uma árvore emblemática da bacia mediterrânica, cientistas portugueses detetaram uma nova espécie fúngica.

O microrganismo recebeu o nome científico de Banningia arbuti.

Esta descoberta resulta de uma colaboração entre a Micoteca da Universidade do Minho, sediada em Braga, e a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco.

Os investigadores isolaram o espécime em Oleiros e partilharam os resultados no artigo publicado na revista especializada International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology.

O segredo guardado nas bagas

Até este momento, o género Banningia continha apenas uma única espécie registada a nível global. O achado em território nacional duplica o conhecimento sobre este grupo e ajuda a mapear a árvore da vida microbiana.

Os cientistas João Trovão, Nelson Lima, Joana Domingues, Célia Soares, Carla Santos e Cristina Pintado recorreram a análises morfológicas, moleculares e bioquímicas detalhadas para decifrar as propriedades do organismo.

O fungo Banningia arbuti foi identificado e isolado nas matas do município de Oleiros, no distrito de Castelo Branco. Imagem: UMinho
O fungo Banningia arbuti foi identificado e isolado nas matas do município de Oleiros, no distrito de Castelo Branco. Imagem: UMinho

O esforço conjunto permitiu clarificar a classificação da família Saccotheciaceae, um conjunto de fungos que permanece muito pouco explorado pela comunidade científica internacional.

Aliados escondidos na floresta

Os fungos que habitam no medronheiro desempenham um papel vital na sobrevivência e na regeneração desta árvore nos ecossistemas mediterrânicos.

Muitas destas espécies estabelecem uma relação simbiótica com as raízes da planta. Em troca dos açúcares que a árvore produz, estes parceiros microscópicos expandem a rede subterrânea. Essa cooperação otimiza a captação de água e de minerais, garantindo que o vegetal resista às secas severas e consiga vingar em solos áridos.

Organismos dos géneros Laccaria, Russula, Cortinarius ou Inocybe são também essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas mediterrânicos, transformando ramos mortos e folhas caídas em matéria orgânica. Este processo nutre a terra de forma contínua.

Compreender o microbioma do medronheiro surge, portanto, como um passo estratégico para valorizar a biodiversidade e proteger a economia local, muito assente na produção da tradicional aguardente de medronho.

Um passaporte para a biotecnologia

O trabalho de campo terminou, mas a utilidade desta descoberta científica está apenas a começar. A nova espécie encontra-se preservada na Micoteca da Universidade do Minho, ficando acessível a laboratórios de todos os cantos do mundo.

Os cientistas consideram o arquivo desta cultura viva uma oportunidade para promover a diversidade ecológica destes organismos e evidenciar as suas funções na natureza.

A Micoteca da Universidade do Minho conserva milhares de microrganismos envolvidos em patentes, estabelecendo colaborações com a indústria e instituições académicas. Foto: Tú Nguyễn Thanh via Pixabay
A Micoteca da Universidade do Minho conserva milhares de microrganismos envolvidos em patentes, estabelecendo colaborações com a indústria e instituições académicas. Foto: Tú Nguyễn Thanh via Pixabay

Este acervo académico recebe, conserva e fornece uma coleção de milhares de fungos. A instituição possui certificação máxima, equipamentos de última geração e colaborações intensas com os setores da saúde e do ambiente.

“Esta descoberta demonstra a importância das coleções microbiológicas na preservação da biodiversidade e o nosso papel como infraestrutura de referência internacional na identificação e no estudo de fungos.”
Nelson Lima, diretor da Micoteca da Universidade do Minho e presidente da Federação Mundial de Coleções de Culturas Microbianas.

O prestígio deste centro minhoto além-fronteiras é sustentado pelo estatuto de fiel depositário de microrganismos envolvidos em processos patenteados, uma distinção conferida pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual.

O espaço acolhe ainda a sede nacional da Infraestrutura Europeia de Investigação de Recursos Microbianos, uma plataforma apoiada pela União Europeia que atua como um polo de formação altamente especializado para o desenvolvimento sustentável.

As potencialidades da Banningia arbuti

A comunidade científica internacional assume agora a missão de testar o comportamento do microrganismo em diversas frentes. Os especialistas admitem que os futuros testes bioquímicos poderão revelar capacidades inesperadas ao longo dos próximos anos.

A expectativa é que a Banningia arbuti possa originar enzimas de interesse industrial ou novos compostos antimicrobianos para a medicina. Na esfera da produção regional, os investigadores pretendem avaliar se este ser vivo intervém de modo direto na fermentação natural que transforma o fruto na famosa bebida espirituosa portuguesa.

Referência do artigo

Nova espécie de fungo descoberta em medronheiros portugueses. Universidade do Minho

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