Fungos únicos no planeta estão “esquecidos” e em vias de desaparecer, alerta um estudo da Universidade de Coimbra
Um estudo em parceria com o Comité para a Conservação dos Fungos da União Internacional para a Conservação da Natureza alerta que há espécies de fungos únicas no planeta, sem parentes próximos na árvore da vida, que podem desaparecer para sempre.

A Micologia é a área da biologia que estuda os fungos.
E os fungos estão presentes em todo o planeta, sendo importantes fontes de recursos, desempenhando funções vitais no meio ambiente, nomeadamente como elementos essenciais para a reciclagem de nutrientes em todos os habitats terrestres.
Uma recente investigação liderada pelo Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, em colaboração com o Comité para a Conservação dos Fungos da União Internacional para a Conservação da Natureza, identificou espécies de fungos evolutivamente distintas e globalmente ameaçadas.
O estudo analisou 94 espécies de fungos pertencentes a géneros monotípicos, grupos que incluem apenas uma única espécie conhecida.
Os resultados revelam um “cenário preocupante” que dá conta que “nove espécies já se encontram ameaçadas ou próximas disso”.
"Podemos perder espécies únicas"
Em paralelo, a maioria das espécies, 56, não dispõe de informação suficiente para avaliar o seu estado de conservação. Apenas 28 espécies de fungos foram classificadas como de baixo risco.

Para os investigadores deste estudo, este desconhecimento é, por si só, “um dos maiores sinais de alerta”.
Apesar do seu papel fundamental para a vida na Terra, nomeadamente na decomposição de matéria orgânica e na regulação dos ciclos de nutrientes, os fungos continuam largamente ausentes das prioridades globais de conservação.
Há uma "lacuna urgente a colmatar"
Ao contrário do que acontece com animais e plantas, os autores deste estudo explicam que “ainda não existe uma lista que identifique as espécies de fungos mais distintas evolutivamente e ameaçadas”, o que é considerada “uma lacuna” que é “urgente colmatar”.
O estudo sublinha ainda que “a falta de dados resulta de anos de subinvestimento na investigação micológica” e que, “sem informação básica sobre distribuição, ecologia e diversidade, torna-se difícil integrar os fungos nas políticas de conservação” e garantir a sua proteção efetiva.

Para inverter esta tendência, os autores deste estudo defendem um “reforço do investimento em investigação de base”.
Isto inclui as inventariações de campo e no uso de ferramentas inovadoras como o DNA ambiental, que pode ajudar a revelar a presença de espécies difíceis de detetar.
“Potencial da ciência cidadã”
Ao mesmo tempo, os investigadores destacam o “potencial da ciência cidadã” como forma de acelerar o conhecimento, “envolvendo comunidades locais” na recolha de dados sobre a diversidade fúngica.
Susana Gonçalves, coautora do estudo, sublinha isso mesmo. “Espécies com poucos registos ou registos antigos são candidatas ideais para projetos participativos”.
“O envolvimento dos cidadãos pode ser decisivo para colmatar lacunas de informação e apoiar a conservação,”, refere ainda a investigadora.
Os autores do estudo recomendam, também, que estas espécies únicas sejam alvo de “análises moleculares para confirmar a sua posição isolada na árvore da vida”.
E, sempre que se confirme o seu carácter singular, recomenda-se que passem a ser “prioridade na conservação”, pois, sem uma ação concertada, “o mundo arrisca-se a perder uma parte insubstituível do seu património natural, muitas vezes antes mesmo de a conhecer”.
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