Centenas de voluntários vão mapear as árvores gigantes dos municípios portugueses

Ao identificar espécimes de grande porte através deste projeto de ciência-cidadã, a Associação Verde espera proteger estes autênticos hotspots de biodiversidade ameaçados pela expansão urbana e agricultura.

Proteger as árvores gigantes do abate e de doenças é o intuito o projeto de ciência-cidadã promovido pela Associação Verde. Foto: Associação Verde
Proteger as árvores gigantes do abate e de doenças é o intuito o projeto de ciência-cidadã promovido pela Associação Verde. Foto: Associação Verde

Quantas árvores de grande porte haverá em Portugal? Contabilizá-las não é uma tarefa fácil, dada a sua dispersão por todo o território nacional. Essa é, no entanto, a missão da iniciativa de ciência-cidadã Grandes Verdes.

O projeto Grandes Verdes conduzido pela Verde – Associação para a Conservação Integrada da Natureza - pretende formar ao longo de 2026 pelo menos 325 voluntários capazes de identificar e monitorizar estes belos monumentos naturais que se encontram localizados nas suas regiões.

O que são Gigantes Verdes? São exemplares com mais de 1,5 metros de perímetro de tronco medido a 1,3 metros do solo. Não importa qual a espécie ou onde estão, uma Gigante Verde é qualquer árvore tão grande que um adulto não consegue abraçá-la sozinho.

O intuito passa essencialmente por capacitar os cidadãos a identificar os espécimes, ajudando a preservar o património natural nos municípios onde estão a viver ou trabalhar. Ao longo deste ano, a Associação Verde conta promover workshops e ações de formação em Amarante, Anadia, Loures, Maia e Ponte de Lima.

Uma árvore para ser considerada gigante tem de ter um tronco com diâmetro superior a um metro e meio. Foto: Associação Verde
Uma árvore para ser considerada gigante tem de ter um tronco com diâmetro superior a um metro e meio. Foto: Associação Verde

O projeto também envolve empresas, organizações e autarquias que poderão se juntar a esta empreitada, contribuindo para aumentar a informação sobre o número e o estado de conservação das árvores de grande porte.

Os dados recolhidos irão ser úteis para construir uma base técnica que permitirá desenvolver programas de valorização do património arbóreo e florestal nacional nos próximos anos.

Estima-se que 2% destas árvores sejam abatidas anualmente, sobretudo devido à expansão urbana, intensificação agrícola, extração de madeira e manutenção de faixas de gestão de combustível. Somente 10% das perdas resultam de causas naturais, o que, para a Associação Verde, evidencia a urgência de implementar medidas de conservação para proteger este património natural.

Uma árvore a pulsar de vida

Graças às suas dimensões impressionantes, as árvores gigantes têm a capacidade de albergar um grande número de organismos vivos, tornando-se hotspots essenciais para a biodiversidade.

O projeto de ciência-cidadã envolve formações administradas por especialistas ao longo de caminhadas por percursos florestais, rurais e urbanos. Foto: Associação Verde
O projeto de ciência-cidadã envolve formações administradas por especialistas ao longo de caminhadas por percursos florestais, rurais e urbanos. Foto: Associação Verde

Uma árvore de grande porte funciona como um ecossistema vertical, sustentando desde musgos, líquenes, fungos e bactérias a proliferar nos seus troncos e cavidades, até aves, insetos e mamíferos que, na sua sombra, encontram um refúgio.

Uma árvore gigante pode, muitas vezes, ultrapassar em diversidade microbiana um pedaço de solo florestal, oferecendo habitat, alimento e proteção para centenas, senão milhares de espécies.

A sua capacidade de sequestrar carbono também pode ser impressionante. Uma árvore de grande porte pode capturar entre dezenas e centenas de quilos de CO2 por ano, variando muito com a espécie, idade e ambiente.

Os workshops do projeto Grandes Verdes ensinam os voluntários a monitorizar e a caracterizar cada árvore, registando informações como espécie, dimensões e microhabitats. Fotos: Associação Verde
Os workshops do projeto Grandes Verdes ensinam os voluntários a monitorizar e a caracterizar cada árvore, registando informações como espécie, dimensões e microhabitats. Fotos: Associação Verde

O carvalho, por exemplo, consegue reter cerca de 22 kg anuais (acumulando mais de 1 tonelada em 40-50 anos). Árvores nativas da Mata Atlântica podem, por outro lado, chegar a 163 kg por ano, e gigantes amazónicos, como o cinzeiro, chegam a armazenar quase 70 toneladas de CO2 por hectare.

Milhares de exemplares já mapeados

Gigantes Verdes é um projeto que arrancou já em 2025, tendo entre janeiro e outubro formado cerca de 250 embaixadores. Ao longo do ano passado foram realizadas formações presenciais, caminhadas, debates e encontros em conselhos de todo o país.

A recolha de dados por parte dos voluntários permitiu mapear mais de 17 mil árvores, ultrapassando largamente a meta inicial de 7500 espécimes.

O levantamento possibilitou o registo de informações detalhadas sobre dimensões, estado de conservação, identificação taxonómica, presença de micro-habitats e riscos associados.

O levantamento realizado em 2025 permitiu identificar 17 mil árvores de grande porte em todo o território. Foto: Associação Verde
O levantamento realizado em 2025 permitiu identificar 17 mil árvores de grande porte em todo o território. Foto: Associação Verde

Com o mapeamento foi ainda possível identificar 1190 espécimes com características que permitem a sua classificação como como Árvores de Interesse Público (AIP).

Com esta nova vaga de voluntários recrutados e formações previstas para este ano, a Associação Verde espera poder vir a aumentar o número de árvores mapeadas e monitorizadas, diminuindo, essencialmente o seu risco de abate.

Referências da notícia

Projeto Gigantes Verdes - Verde – Associação para a Conservação Integrada da Natureza

Embaixador de Gigantes Verdes – Candidaturas e sessões de formação