Tempestades destaparam fósseis de baleias com 10 milhões de anos na costa de Grândola

Os esqueletos descobertos na praia da Galé – Fontaínhas estão entre os mais completos da Europa. O temporal expôs ainda uma laje de rocha sedimentar com uma impressionante diversidade de vestígios marinhos pré-históricos.

Vista aérea da jazida fóssil encontrada nas rochas sedimentares do Mioceno de Grândola. Foto: Município de Grândola
Vista aérea da jazida fóssil encontrada nas rochas sedimentares do Mioceno de Grândola. Foto: Município de Grândola

Após o comboio de tempestades que, no início do ano, atingiu o território continental, muita areia desapareceu da praia da Galé – Fontainhas, no município de Grândola. Já era expectável, mas o que aconteceu a seguir foi verdadeiramente surpreendente.

O movimento das areias trouxe à superfície uma jazida fóssil, revelando um tesouro guardado desde tempos pré-históricos. Nas rochas sedimentares do Mioceno, em Grândola, dois imponentes esqueletos despertaram de imediato a curiosidade dos paleontólogos.

Apercebendo-se rapidamente da importância do achado, a autarquia desencadeou, sem demora, diligências para avançar com os trabalhos de escavação. Especialistas do Museu da Lourinhã, com vasta experiência na extração de grandes fósseis, compareceram ao local para realizar as prospeções iniciais.

Paleontólogos fazem a extração de uma vértebra de baleia, utilizando gesso para remover a peça inteira em segurança. Foto: Município de Grândola
Paleontólogos fazem a extração de uma vértebra de baleia, utilizando gesso para remover a peça inteira em segurança. Foto: Município de Grândola

Não demoraram muito tempo a reconhecer a relevância do espólio. Dois esqueletos parciais de baleias com 10 milhões de anos não são, afinal, algo que se encontra todos os dias.

Operação complexa entre areia e subida de marés

Paleontólogos, técnicos da Agência Portuguesa do Ambiente, equipas da Capitania do Porto de Setúbal e autarcas de Grândola reuniram-se de imediato, agilizando todos os procedimentos para desencadear uma operação de grande envergadura.

Diante de tamanha descoberta, a equipa do Museu da Lourinhã, sozinha, não poderia dar conta do recado. Chegaram mais especialistas do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, do Museu Nacional de História Natural e de Ciências e técnicos da câmara municipal.

Começou então uma corrida contra o tempo. Os fósseis encontravam-se numa zona entremarés e a sofrer os efeitos da ondulação. Foi necessário proceder a uma escavação de emergência para preservar a integridade dos esqueletos já parcialmente cobertos com a reposição das areias, após as tempestades.

O acesso ao local, limitado pelas marés, também envolveu um planeamento minucioso, obrigando a uma complexa operação de escavação, conservação, acondicionamento e transporte dos fósseis.

Um mostruário valioso da fauna marítima pré-histórica

O esforço realizado foi muito além da simples retirada dos ossos das baleias. Os temporais destaparam também uma extensa laje de rocha sedimentar, com mais de 100 metros.

Trata-se de parte integrante da Formação de Alcácer do Sal, depositada no Mioceno, entre o Serravaliano superior e o Tortoniano inferior, há cerca de 10 milhões de anos. O achado está inserido na Bacia de Alvalade, uma enseada cenozoica que aflora na região do concelho de Grândola.

Crânio e mandíbulas de baleia, primeiros exemplares a serem removidos durante os trabalhos paleontológicos de emergência. Foto: Município de Grândola
Crânio e mandíbulas de baleia, primeiros exemplares a serem removidos durante os trabalhos paleontológicos de emergência. Foto: Município de Grândola

Nessa placa rochosa foi identificada uma impressionante diversidade de fósseis marinhos, de vários grupos de animais pré-históricos, como baleias, golfinhos, tartarugas, tubarões, peixes ósseos, aves e ainda uma variada fauna de invertebrados, bivalves e balanídeos - ou cracas, como são popularmente conhecidos.

Os dois esqueletos de baleias, no entanto, é que são os verdadeiros protagonistas desta aventura. Após a conclusão das escavações, foi possível concluir que estão entre os fósseis mais completos de baleias do Mioceno da Europa.

Ambos pertencem ao grupo Mysticeti, que inclui as atuais baleias de barbas, abarcando espécies como a baleia-cinzenta e a baleia-azul, o maior animal do planeta.

Um deles é composto por um crânio, duas mandíbulas quase completas e algumas vértebras e costelas. O segundo inclui um crânio quase completo, parte das mandíbulas, várias vértebras e costelas, ossos dos membros anteriores e da cintura escapular.

Desvendar o passado nas ossadas de gigantes marinhos

O estudo dos fósseis poderá agora revelar informações valiosas para compreender a evolução destas baleias primitivas, bem como a sua ecologia e modo de vida.

A laje de rocha sedimentar, por conter uma riquíssima fauna de invertebrados, poderá, ainda, ajudar a reconstruir com maior precisão o ambiente marinho em que estes esqueletos foram depositados há milhões de anos.

Equipa de paleontólogos do Museu da Lourinhã, do Instituto Dom Luiz, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência e da autarquia de Grândola. Foto: Município de Grândola.
Equipa de paleontólogos do Museu da Lourinhã, do Instituto Dom Luiz, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência e da autarquia de Grândola. Foto: Município de Grândola.

Os fósseis estão temporariamente à guarda do município de Grândola e vão, nas semanas que se seguem, ser transportados até ao laboratório do Museu da Lourinhã. Seguir-se-ão meses de intenso estudo, em que os vestígios vão ser esmiuçados, esperando-se que revelem mais histórias sobre os primórdios da vida no nosso planeta.

Referência da notícia

Fósseis descobertos na Praia da Galé pertencem a baleias com 10 milhões de anos. Município de Grândola