Esta é uma das fronteiras mais estranhas da Europa: faixa com 3 quilómetros de comprimento e apenas 50 metros de largura
Uma anomalia geográfica com três quilómetros de comprimento e apenas alguns metros de largura desafia os mapas numa remota região montanhosa, tornando-se a fronteira mais estranha da Europa.
A história ensinou-nos que a geografia é a regra quando se trata de desenhar o mapa político, tirando partido das barreiras físicas para definir onde termina a soberania de um Estado e começa a do outro. No entanto, há cantos esquecidos onde essa lógica se desfaz completamente e dá lugar a linhas administrativas que parecem uma brincadeira.
No coração da Península dos Balcãs, longe das rotas turísticas habituais, sobrevive uma dessas estranhezas, que nos obriga a olhar duas vezes para a nossa aplicação de navegação para acreditar no que estamos a ver. Estamos a falar de uma divisão entre a Croácia e a Bósnia e Herzegovina que faz pouco sentido aparente. Trata-se de uma faixa de terra ridiculamente estreita, mas muito alongada, inserida numa zona selvagem que representa, sem dúvida, uma das delimitações mais singulares e menos conhecidas de toda a geografia europeia.
O mistério do “dedo” de Donji Tiškovac
Se procurarmos a localização exata desta curiosa fronteira, temos de nos dirigir para a fronteira sudoeste da Bósnia, perdida na vastidão dos Alpes Dináricos. Tudo acontece a cerca de um quilómetro da pequena aldeia de Donji Tiškovac. Ali, o território bósnio estende-se de uma forma não natural, perfurando o solo croata como uma agulha fina ou um dedo apontado para o mar, criando uma forma que não corresponde a qualquer padrão topográfico comum nesta parte da Europa.
#GranicaBiH Veoma zanimljiva sekcija granice sa RH na teritoriji općine Bosansko Grahovo u naselju Donji Tiškovac. To je dolina riječnog toka Crni potok, dužine 3,2 km, širine 1,2 km. Zašto je uključen unutar naše granice u ovako neobičnom obliku, nisam uspio pronaći. pic.twitter.com/vqeEG9U5er
— Afan Abazović (@bosnolog) January 13, 2022
São as dimensões deste corredor que tornam o local num caso de estudo fascinante e único. Esta língua de terra estende-se por mais de três quilómetros de comprimento, mas a sua largura é quase cómica: apenas 200 metros no seu ponto mais largo. O mais surpreendente é a sua base, uma secção longa e extremamente estreita que varia entre os 40 e os 70 metros, um corredor que quase se poderia atravessar com a respiração suspensa.
É difícil imaginar como é que a terra é gerida num espaço tão comprimido e isolado. Sem qualquer barreira de água ou de pedra que justifique a separação, a linha é puramente imaginária através do solo rochoso. É um traço invisível que mantém duas nações separadas num espaço onde a coexistência física é quase íntima, desafiando a ideia de que as fronteiras devem ser largas, claras e naturalmente defensáveis através do terreno.
Uma dor de cabeça para o espaço Schengen
Para além da curiosidade visual de o ver num mapa de satélite, este apêndice territorial adquiriu recentemente uma grande importância. O que antes era uma simples linha interna na antiga Jugoslávia representa agora um desafio significativo. Depois de a Croácia ter aderido à União Europeia e, mais tarde, ter entrado no espaço de livre circulação em 2023, este estreito corredor montanhoso tornou-se uma das fronteiras externas mais delicadas e estranhas de controlar em toda a UE.
Garantir a segurança ao longo de um perímetro tão irregular representa um desafio logístico difícil de resolver para as autoridades fronteiriças. Transformar uma faixa de terra com menos de 50 metros de largura, rodeada de montanhas e vegetação, num muro eficaz do Espaço Schengen (uma zona europeia de livre circulação que elimina os controlos nas fronteiras internas entre os países membros) exige recursos e atenção constantes. Qualquer passo em falso nesta fina língua de terra implica entrar ou sair ilegalmente da União Europeia, dando a este canto esquecido uma gravidade legal que contrasta fortemente com a sua aparência quase inofensiva.
Não existe qualquer elemento geográfico, como um rio ou um vale profundo, que marque naturalmente a separação entre os dois países. Isto deixa toda a responsabilidade à vigilância humana e tecnológica para controlar quem entra e quem sai. É o paradoxo perfeito: um lugar que parece ter sido desenhado por uma criança tornou-se uma peça essencial da geopolítica moderna, provando que os mapas ainda guardam segredos capazes de complicar a vida até das burocracias mais sofisticadas.
De Baarle ao Hotel Arbez: outras fronteiras estranhas pelo mundo fora
O caso dos Balcãs não é o único que nos deixa sem palavras no Velho Continente. Há outros lugares onde a política ignorou a funcionalidade urbana, como em Baarle, um município que é um verdadeiro labirinto dividido entre a Bélgica e a Holanda. Aqui não há montanhas, apenas o caos: 22 enclaves belgas e 7 holandeses entrelaçados de tal forma que as fronteiras atravessam salas de estar e lojas, obrigando os habitantes a marcar o chão com azulejos especiais para saberem em que país estão a dormir.

Esta tendência para o absurdo administrativo tem contrapartidas igualmente fascinantes noutros locais. O Hotel Arbez, situado na linha que divide a França e a Suíça, perto de Genebra, é o resultado da astúcia de um empresário que construiu a propriedade antes da assinatura de um tratado. Hoje, é possível jantar num restaurante binacional ou dormir com a cabeça num país e os pés noutro. Algo semelhante aconteceu em tempos em Cooch Behar, entre a Índia e o Bangladesh - um delírio de enclaves dentro de enclaves que, felizmente, foi simplificado há cerca de uma década.
Estes lugares recordam-nos que as fronteiras são construções humanas moldadas pelas reviravoltas da história. Desde a Biblioteca Haskell, que alberga uma casa de ópera no Canadá enquanto a sua entrada é nos Estados Unidos, até à cidade espanhola de Llivia, completamente rodeada por França, estas anomalias provam que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção.