Uma descoberta revolucionária: água superficial do planeta Terra transforma camada externa do núcleo

Ao longo de mais de mil milhões de anos, a água viajou para as profundezas do planeta, desencadeando reações químicas na fronteira núcleo-manto. Estes resultados são apontados por investigação do Arizona State University e Yonsei University.

Investigadores revelam novas evidências sobre os processos internos do planeta Terra.
Investigadores revelam novas evidências sobre os processos internos do planeta Terra.

Investigadores da Arizona State University (Arizona, Estados Unidos) e Yonsei University (Seul, Coreia do Sul) apresentaram num artigo para a Nature Geoscience os resultados de uma investigação que contribui para a compreensão dos processos internos da Terra.

Esta investigação, liderada por cientistas da School of Earth and Space Exploration da Arizona State University, revelou resultados relevantes sobre a interação entre a água à superfície no planeta Terra e o núcleo. O estudo revela que a água, ao longo de mais de mil milhões de anos, viajou para as profundezas do planeta através das placas tectónicas, desencadeando uma reação química que altera a camada externa do núcleo líquido metálico.

Interação Profunda na Fronteira Núcleo-Manto

Os investigadores, com a liderança de Dan Shim, Taehyun Kim e Joseph O'Rourke, conduziram experiências em alta pressão, demonstrando que a água da crosta subduzida reage quimicamente com materiais nucleares quando atinge a fronteira núcleo-manto, a aproximadamente 2896 quilómetros abaixo da superfície terrestre. Esta reação resulta na formação de uma camada rica em hidrogénio, desprovida de silício, que altera a estrutura do núcleo, ao criar uma camada fina e distinta.

A camada líquida modificada é prevista como a menos densa, apresentando velocidades sísmicas reduzidas, alinhando-se com características anómalas mapeadas pelos sismólogos. Estes resultados desafiam a visão anterior de uma troca limitada de material entre o núcleo e o manto, sugerindo um ciclo global da água mais complexo do que se pensava anteriormente.

Dan Shim refere: "Durante anos, acreditou-se que as trocas de materiais entre o núcleo e o manto da Terra era pequena. No entanto, investigações recentes revelaram uma história diferente".

Ciclo global da água e implicações geoquímicas

A investigação avança a compreensão dos processos internos da Terra, indicando um ciclo global da água mais extenso. O "filme" alterado do núcleo não só tem implicações para os ciclos geoquímicos que se conectam à água superficial com o núcleo metálico profundo, mas também aponta para uma interação dinâmica entre o núcleo e o manto, com a substancial troca de materiais.

"Estes resultados, juntamente com nossa observação anterior de diamantes a formarem-se a partir da reação da água com carbono em líquido de ferro sob pressão extrema, aponta para uma interação núcleo-manto muito mais dinâmica, sugerindo uma troca de materiais intensa".

Dan Shim, professor na School of Earth and Space Exploration na Universidade do Estado do Arizona

A investigação foi conduzida por uma equipa internacional de geocientistas ao utilizar técnicas experimentais avançadas na Advanced Photon Source do Argonne National Lab e PETRA III da Deutsches Elektronen-Synchrotron na Alemanha. Estas instalações foram cruciais para replicar as condições extremas na fronteira núcleo-manto, permitindo a observação direta das mudanças químicas e estruturais induzidas pela água.

De agora em diante, sabe-se que estas evidências revolucionárias não apenas alteram a compreensão dos processos geodinâmicos internos da Terra, mas também destaca a importância de investigações avançadas e colaborações internacionais para desvendar os mistérios profundos de nosso planeta.

O ciclo global da água, agora reconhecido como mais complexo do que se pensava, promete inspirar investigações, a médio e longo prazo, sobre a interconexão entre a superfície terrestre e as camadas mais profundas que moldam o nosso planeta.

Referência da notícia
Kim, T., O’Rourke, J.G., Lee, J. et al. A hydrogen-enriched layer in the topmost outer core sourced from deeply subducted water. Nature Geoscience (2023).