Um buraco gigante na camada de ozono desafia as previsões dos cientistas

A camada de ozono está a recuperar graças aos esforços internacionais, mas o buraco sobre a Antártida voltou a atingir dimensões invulgares, levantando questões sobre as causas deste fenómeno. Saiba mais aqui!

O buraco do ozono sobre a Antártida cresceu entre agosto e setembro de 2026, evidenciando a influência das condições atmosféricas na dimensão deste fenómeno sazonal.
O buraco do ozono sobre a Antártida cresceu entre agosto e setembro de 2026, evidenciando a influência das condições atmosféricas na dimensão deste fenómeno sazonal.


A camada de ozono está a recuperar dos danos causados pela atividade humana, no entanto o tamanho do buraco observado sobre a Antártida em 2026 voltou a levantar questões.

A chamada camada de ozono, situada na estratosfera, desempenha um papel fundamental na proteção da vida terrestre, ao absorver grande parte da radiação ultravioleta nociva proveniente do Sol. O chamado buraco do ozono não corresponde a uma abertura literal na atmosfera, mas a uma região onde a concentração deste gás diminui significativamente.

Todos os anos, durante o inverno e a primavera no hemisfério sul, esta região de menor concentração desenvolve-se sobre a Antártida. O seu tamanho costuma atingir o máximo entre meados de setembro e o início de outubro, antes de diminuir gradualmente, à medida que as condições atmosféricas mudam e o ar, rico em ozono se mistura com o da região afetada.

O que torna 2026 particularmente invulgar é a dimensão alcançada.
Segundo os dados citados pela Live Science, o buraco chegou aos 27,4 milhões de quilómetros quadrados, aproximando-se do máximo observado em outubro de 2015, quando atingiu cerca de 27,9 milhões de quilómetros quadrados. Ainda assim, a área ocupada não conta toda a história sobre a gravidade da perda de ozono.

O papel decisivo do vórtice polar

A principal explicação para a dimensão deste ano está nas condições meteorológicas sobre o continente gelado. Um vórtice polar particularmente forte, formado por ventos que circulam em torno da Antártida, manteve o ar frio confinado sobre a região, contribuindo para temperaturas invulgarmente baixas na estratosfera.

Estas condições favorecem a formação de nuvens estratosféricas polares. Nas superfícies das partículas de gelo que as constituem ocorrem reações químicas que transformam o cloro em formas capazes de destruir o ozono com maior eficácia quando regressa a luz solar após os meses de escuridão.

O buraco do ozono sobre a Antártida atingiu a sua área máxima a 7 de outubro de 2021, tornando-se o 13.º maior desde 1979. Esta imagem, retirada de um vídeo da NASA, mostra a sua extensão com base em dados de satélite. Fonte: Space.com
O buraco do ozono sobre a Antártida atingiu a sua área máxima a 7 de outubro de 2021, tornando-se o 13.º maior desde 1979. Esta imagem, retirada de um vídeo da NASA, mostra a sua extensão com base em dados de satélite. Fonte: Space.com

O resultado é uma redução mais acentuada da concentração de ozono numa área extensa. Os investigadores não identificaram um aumento do cloro reativo que explique o fenómeno, pelo que as condições atmosféricas parecem ter desempenhado um papel determinante.

A dimensão do buraco pode, assim, variar bastante de um ano para o outro, mesmo quando a tendência a longo prazo continua a ser positiva.

Uma recuperação que demora décadas

A origem do problema remonta sobretudo à utilização de clorofluorocarbonetos (CFC'S), substâncias utilizadas durante décadas em equipamentos de refrigeração, aerossóis e outras aplicações industriais. Quando chegam à estratosfera, estes compostos libertam cloro, que participa em reações químicas responsáveis pela destruição das moléculas de ozono.

Estas visualizações mostram a evolução do buraco do ozono sobre a Antártida entre 1 de agosto e 12 de setembro de 2026. Fonte: Smithsonianmag
Estas visualizações mostram a evolução do buraco do ozono sobre a Antártida entre 1 de agosto e 12 de setembro de 2026. Fonte: Smithsonianmag

O Protocolo de Montreal, assinado em 1987, estabeleceu medidas internacionais para eliminar progressivamente muitas destas substâncias. A redução das emissões permitiu iniciar a recuperação da camada de ozono, mas os CFC's podem permanecer na atmosfera durante várias décadas. Por isso, os efeitos da sua utilização passada continuam a fazer-se sentir.

A cientista Susan Solomon, investigadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e uma das pioneiras no estudo do buraco do ozono, sublinha que a avaliação deve centrar-se nas tendências de longo prazo. Um ano com um buraco maior não significa, por si só, que a recuperação tenha sido interrompida.

Há, contudo, motivos para manter a vigilância. Os investigadores admitem que alterações na circulação atmosférica poderão favorecer, em determinados anos, buracos maiores e mais persistentes. Também se estuda a possibilidade de as alterações climáticas influenciarem a intensidade do vórtice polar e as temperaturas da estratosfera, embora ainda sejam necessárias mais investigações para compreender estas relações.

Apesar da dimensão invulgar registada em 2026, os cientistas não consideram que exista motivo para alarme imediato. A evolução do buraco continuará a ser acompanhada, sobretudo para perceber se o comportamento deste ano representa uma variação natural ou se poderá fazer parte de uma tendência mais duradoura.

Referência da notícia

Sascha Pare. (2026). The ozone layer was supposed to be healing. So why is this year's Antarctic ozone hole so big?.