Segundo uma investigação, o calor extremo poderá estar a afetar a comunicação sexual dos insetos

Segundo um grupo de investigação, o calor extremo poderá interferir na comunicação química dos insetos, aumentando assim os erros durante a procura de parceiros para a sua reprodução. Venha descubrir mais aqui!

Investigadores descobriram que o calor extremo pode alterar os sinais químicos usados pelos insetos para reconhecer potenciais parceiros de acasalamento.
Investigadores descobriram que o calor extremo pode alterar os sinais químicos usados pelos insetos para reconhecer potenciais parceiros de acasalamento.

As alterações climáticas poderão estar a provocar efeitos muito mais avassaladores na natureza do que aqueles que habitualmente associamos ao aumento das temperaturas.

Para além da deslocação de espécies, da alteração dos ciclos reprodutivos ou da perda de habitats, novas investigações sugerem que o calor extremo poderá interferir com a própria comunicação química entre os animais.

Foi precisamente esta hipótese que uma equipa da Universidade de St. Andrews apresentou na Conferência Anual da Society for Experimental Biology (SEB), realizada em Florença, onde investigadores de várias áreas da biologia divulgaram os seus trabalhos mais recentes sobre adaptação e resiliência dos organismos perante as mudanças ambientais.

O papel dos sinais químicos na reprodução

O estudo centrou-se essencialmente escaravelho Nicrophorus vespilloides, conhecido como escaravelho-enteerrador, uma espécie que apresenta um comportamento reprodutivo invulgar. Estes insetos utilizam pequenos cadáveres de aves ou roedores como alimento para as suas larvas, sendo que macho e a fêmea cooperam na preparação do ninho e nos cuidados parentais.

O estudo analisou o impacto das ondas de calor na comunicação química e no comportamento reprodutivo dos escaravelhos. Fonte: Lazaron
O estudo analisou o impacto das ondas de calor na comunicação química e no comportamento reprodutivo dos escaravelhos. Fonte: Lazaron

Para coordenar estas tarefas, os escaravelhos dependem de sinais químicos presentes na superfície do corpo. Estes compostos, designados hidrocarbonetos cuticulares, desempenham uma dupla função, reduzem a perda de água através do exoesqueleto e funcionam como uma verdadeira "assinatura química", permitindo desta forma reconhecer os indivíduos da mesma espécie, distinguir os machos de fêmeas e identificar potenciais parceiros reprodutores.

No entanto, os investigadores tinham algumas suspeitas em relação às temperaturas mais elevadas que poderiam alterar esta composição química. Para testar esta hipótese, mantiveram um grupo de escaravelhos à temperatura considerada normal para a espécie (20 ºC) e outro grupo sujeito, durante três dias a uma onda de calor simulada de 26 ºC.

Após esse período, observaram um aumento significativo no número tentativas de acasalamento entre machos nos indivíduos expostos ao calor. Contudo, os cientistas sublinham que este comportamento não deve ser interpretado como uma alteração da orientação sexual dos insetos.

A explicação dos investigadores

A explicação mais provável reside numa perturbação do sistema de reconhecimento químico. À medida que as temperaturas aumentam, os hidrocarbonetos poderão sofrer alterações destinadas a melhorar a proteção contra a desidratação. Como consequência, os sinais utilizados para identificar corretamente o sexo de outro indivíduo tornam-se menos precisos, aumentando a probabilidade de erros durante a procura de parceiros.

A investigadora Solène Morelle, responsável pelo trabalho, admite que um dos aspetos mais surpreendentes foi verificar que este tipo de comportamento já ocorria, ainda que em menor escala, mesmo em condições ambientais normais. Isso sugere que os erros de reconhecimento podem fazer parte da estratégia evolutiva da espécie.

"Fiquei surpreendida ao descobrir a quantidade de tentativas de acasalamento entre indivíduos do mesmo sexo, mas ainda não sabemos o que isso significa." De acordo com Solène Morelle na revista Lazaron

Do ponto de vista da seleção natural, pode ser mais vantajoso aceitar alguns "falsos positivos" do que correr o risco de deixar escapar uma oportunidade real de reprodução. Em termos evolutivos, o custo de uma tentativa de acasalamento mal direcionada poderá ser inferior ao prejuízo de não reconhecer uma fêmea disponível.

A investigação encontra-se ainda em desenvolvimento e pretende agora determinar exatamente quais os compostos químicos que sofrem alterações durante os episódios de calor extremo. Os cientistas acreditam que o aumento de determinadas moléculas de cadeia mais longa poderá reforçar a impermeabilidade do exoesqueleto, embora comprometa a eficácia da comunicação química entre os indivíduos.

Este trabalho reforça a ideia de que os impactos das alterações climáticas vão muito além das mudanças visíveis na distribuição das espécies. Pequenas variações de temperatura poderão modificar mecanismos de comunicação que evoluíram ao longo de milhões de anos e dos quais dependem processos fundamentais como a reprodução, o cuidado parental e a sobrevivência das populações.

À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes e intensas, compreender estas alterações poderá revelar novos efeitos ecológicos das mudanças climáticas, alguns deles praticamente invisíveis à primeira vista, mas potencialmente determinantes para o equilíbrio dos ecossistemas.