O ciclo hidrológico dos jeans

Os efeitos antropogénicos impactuam primeiramente no próprio homem, este assombrosamente mais vulnerável na métrica temporal do que o planeta. Os resíduos da lavagem de roupas representa cerca de 60% das micropartículas poluentes da água potável. Bebemos parte da nossa roupa!

Jeans; sustentabilidade;
A mudança de comportamento em busca da sustentabilidade não é uma escolha, mas uma questão de sobrevivência.

Inventados em finais do séc.XIX, é indubitável a importância dos polímeros sintéticos no quotidiano e na evolução da espécie humana porquanto preponderante são na própria evolução das condições de vida e de saúde. Difícil conjeturar a vida como hoje é vivida sem a existência do plástico. A relevante presença dos polímeros sintéticos, do plástico, estende a valência do seu uso desde como barreira protetora ao impermeabilizar os lençóis freáticos, evitando a contaminação da água com lixos tóxicos, à utilização como matéria-prima, no fabrico dos monitores dos PC's, nas estruturas dos imprescindíveis eletrodomésticos, quer ainda na importância na área medicinal.

O plástico representa 45% da constituição dos materiais e equipamentos médicos, com aplicação desde as descartáveis seringas à constituição de órgãos artificiais e próteses que substituem ossos e articulações em seres humanos. Uma infinidade de produtos, como tubos traqueais, catéteres, materiais coletores, frascos, oxigenadores, bolsas de sangue, entre outros, são produzidos a partir de polímeros sintéticos. Não obstante a eficiência dos processos de esterilização, a utilização de materiais plásticos descartáveis figura um método inegavelmente seguro. É assim praticamente inimaginável o avanço da medicina sem o uso dos polímeros, estes como principais responsáveis pela eliminação da transmissão de doenças e infeções hospitalares.

Os polímeros, sejam orgânicos, como a celulose, um polissacarídeo natural extraído de árvores de longos troncos, ou sejam sintéticos, como nylon ou poliéster, são indissociáveis do nosso quotidiano. De facto, a abrangência da utilidade do plástico é vasta, atingindo o nosso próprio vestuário, destacando-se o politereftalato de etileno, como componente na produção de tecidos e malhas utilizados em camisas, calças, lençóis, cortinas, móveis estofados. Aluda-se às microfibras plásticas dos vulgares jeans, considerando o módico número de 4.5 biliões de jeans vendidos, em média. anualmente.

O transversal impacte dos jeans no planeta

Com uns jovens 135 anos de história, e ignorando fronteiras, etnias, religiões, géneros, idades, os jeans resistem à dinâmica erosiva da própria moda, personificando uma roupa-memória que carrega história e envelhece jovialmente.

Tendo surgido em Nimes, França, em meados do séc. XVII, tinha como composição primária uma mistura de algodão e lã chamada Denim. Mas foi já no séc. XVIII, durante a corrida ao ouro na Califórnia, EUA, que a “febre” dos jeans se disseminou, alavancada por um jovem de 24 anos, oriundo da Alemanha – Loeb Strauss, que, identificando a necessidade dos trabalhadores das minas por roupas mais resistentes, começou a comercializar uma espécie de lona, o denim.

Após a conquista do velho oeste norte-americano, e à boleia da evolução das modas, os jeans passaram a “uniforme”, desde as lavouras às fábricas, pela generalidade do planeta, servindo de dress code dos chamados rebeldes sem causa dos anos 50, encarnados no cinema por figuras como James Dean, por hippies e estudantes dos conturbados anos 60, banalizando-se o seu uso na sociedade contemporânea.

Água;
A sedenta vida de cada jeans consome cerca de 4200 L de água durante a plantação do algodão, 130 L durante a fiação, 325 L durante a tinturaria e confeção e 460 L nas lavagens domésticas.

Dimensionando a história de vida dos jeans, sendo que por ano são produzidos cerca de dois biliões e meio de metros de tecido para jeans, e só na província chinesa de Xintang, são feitos 300 milhões de pares de jeans por ano, à crescente sede consumista do ser humano, facilmente se preconiza o peso da pegada ecológica que a moda e respetivas matérias-primas representam – cerca de 8% das emissões que inferem no efeito estufa. Com efeito, o consumo médio de água no ciclo de vida de umas calças de ganga, desde a plantação do algodão até ao consumidor final é de 5200 Lt, o equivalente, de acordo com a ONU, ao consumo diário para atender as necessidades de 47 seres humanos.

As partículas microplásticas que os tecidos libertam, são filtradas nas estações de tratamento de águas residuais, porém, como acabam como “biossólidos”, são utilizados como fertilizantes, e acabam mixanizados nos solos e de novo nos cursos de água, directamente rumo ao grande oceano, terminando como fonte de alimentação da mais elementar cadeia trófica.

Incontornavelmente, as microscópicas fibras índigo dos jeans, têm impacte no equilíbrio do bioma azul do planeta. Com dimensões inferiores a 5 milímetros de comprimento, estes resíduos acabam acoplados às correntes marítimas e percorrem longas travessias em redor do planeta acabando por afrouxar em zonas sombrias, de águas paradas, adensando ilhas que plastificam o oceano. De cada vez que uma peça de roupa é lavada, pequenos felpos soltam-se e saem com a lavagem, microfibras, orgânicas ou sintéticas, provenientes de um único par de calças de ganga podem libertar, por lavagem, cerca 56.000 nano polímeros, o que personifica um colossal impacte antropogénico no equilíbrio ecossistémico do planeta Terra.

Os ínfimos pedaços de plásticos provenientes do vestuário humano representam um colossal desafio ambiental, considerando a sua intrusão na cadeia alimentar da esfera aquática e por consequência, dos humanos. Repensar costumes e voláteis modas consumistas poderá representar o balancear de profícuas hipóteses de sobrevivência ou ditar uma pesada pena em busca da almejada sobrevivência. Planetariamente, existem projetos em exponencial fase de execução com vista a reciclar e reutilizar o aproveitável.

Cabe a cada indivíduo, inquilino do admirável planeta azul, consciencializar-se para a imiscível responsabilidade de mitigar os efeitos da sua ocupação do planeta no sentido de não alterar, acelerar e agravar as inevitáveis e cíclicas alterações climáticas, emergentes para a saúde do planeta.