Ilhas Selvagens podem ganhar nova extensão marinha protegida com expedição até 2030
Reserva madeirense será alvo de uma missão científica de grande escala para avaliar ecossistemas, medir efeitos da conservação e recolher dados que apoiem futuras decisões de gestão ambiental.

As Ilhas Selvagens são já a maior área marinha de proteção total da Europa, mas podem vir a ganhar ainda mais dimensão. O Governo Regional da Madeira está a preparar uma grande expedição científica para avaliar as zonas atualmente protegidas e identificar novas áreas que possam vir a integrar esta rede.
Especialistas de diferentes áreas de investigação vão cruzar o seu conhecimento em vertentes disciplinares tão distintas como biologia marinha e ecologia do mar profundo, oceanografia e climatologia, hidrografia e topografia ou ciências jurídicas e governação ambiental.
Uma missão para medir o impacto da proteção
As equipas envolvidas na expedição pretendem monitorizar, de forma detalhada, o impacto das medidas de proteção já em vigor e aprofundar o conhecimento sobre os ecossistemas da região.
A iniciativa reúne o Governo Regional da Madeira, a Fundação Oceano Azul, a Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação e o programa "Pristine Seas", da National Geographic Society.

Já este ano, em outubro, será realizada uma expedição científica nas áreas costeiras da ilha da Madeira, do Porto Santo e das Desertas, num trabalho preparatório de recolha de dados, onde se espera envolver a participação das comunidades locais.
Um laboratório natural no meio do Atlântico
Nestes ambientes remotos revelam-se mundos singulares, cada um com a sua identidade própria. Tal como Charles Darwin descreveu as ilhas Galápagos como “um pequeno mundo dentro do mundo”, também as ilhas Selvagens representam, para os portugueses e para a comunidade científica, um ecossistema complexo e um registo valioso das dinâmicas que se estabelecem entre os organismos e os habitats.
Têm uma história evolutiva própria, uma génese e um ecossistema muito particulares. Para muitas espécies animais e vegetais, as ilhas são territórios de desterro onde a evolução prossegue em isolamento absoluto.
Nelas encontra-se um conjunto de animais e plantas de importância extraordinária, entre os quais figuram espécies que não existem em nenhum outro lugar do mundo — os chamados endemismos insulares —, estando algumas delas seriamente ameaçadas.
É o caso da estreleira (Argyranthemum thalassophilum), uma planta arbustiva adaptada a ambientes de elevada salinidade e também ela em vias de extinção. Ou da Euphorbia anachoreta, exclusiva do Ilhéu de Fora e considerada uma das plantas mais raras da Europa. Na fauna destacam-se ainda répteis únicos, como a osga-das-selvagens (Tarentola bischoffi) e a lagartixa-das-selvagens (Teira dugesii selvagensis).
O valor estratégico de um destino remoto
Mais do que a dimensão das ilhas Selvagens, é muitas vezes o seu potencial estratégico que assume maior relevância. A prospeção, a exploração, a conservação e a gestão de todos os recursos naturais, vivos e não vivos, do fundo do mar, do seu subsolo e das águas subjacentes têm um valor económico de referência, refletido na importância da monitorização da Zona Económica Exclusiva (ZEE).

A forma como todo este espaço é gerido implica o estabelecimento de competências, meios e metodologias concertadas. É por isso que, para além da investigação científica, a expedição, conduzida ao longo de três anos, implicará também um trabalho técnico e jurídico para retirar conclusões que sustentem as decisões políticas e contribuam para avaliar a eficácia dos atuais modelos de gestão das áreas protegidas.
Referência do artigo
A Madeira deu um novo passo para o futuro do nosso oceano. ARDITI - Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação