Os burros voltaram às aldeias para fazer um trabalho que as máquinas não conseguem

Três burros pastam lentamente ao redor de uma aldeia de Anadia. O intuito não é apenas recuperar tradições, mas reduzir o risco de incêndios junto das habitações.

Madeixas, Azinhaga e Neemias ajudam a limpar a vegetação em redor da aldeia de Amieiro, em Anadia. Foto: Clube das Antas
Madeixas, Azinhaga e Neemias ajudam a limpar a vegetação em redor da aldeia de Amieiro, em Anadia. Foto: Clube das Antas

Desde meados de abril, Madeixas, Azinhaga e o filhote Neemias estão a percorrer as encostas do Amieiro, uma aldeia serrana do concelho de Anadia. Não transportam lenha, alfaias agrícolas ou sacas de cereal, como fizeram milhares de burros ao longo de séculos.

Em vez de se ocuparem de trabalhos pesados, a sua missão é comer as silvas, as giestas e outra vegetação espontânea que cresce ao redor das habitações, reduzindo o combustível disponível para incêndios florestais.

A imagem conduz-nos a um passado que muitos julgavam esquecido e enterrado. Mas esta não é uma história sobre nostalgia. É antes uma tentativa de responder a um dos maiores desafios das paisagens portuguesas - proteger as aldeias rodeadas por terrenos abandonados e mato acumulado.

O regresso dos burros às aldeias serranas recupera uma presença que marcou gerações. Foto: Clube das Antas
O regresso dos burros às aldeias serranas recupera uma presença que marcou gerações. Foto: Clube das Antas

No Amieiro, o projeto-piloto "burros sapadores" começou há cerca de três meses e já apresenta resultados animadores. Promovida pelo Club de Ancas, em parceria com a Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA), a iniciativa pretende criar faixas de vegetação menos densa nas áreas mais próximas das povoações, reduzindo o risco de propagação das chamas.

Um trabalho paciente que começa muito antes do verão

Nas encostas mais inclinadas, onde a passagem de tratores é difícil e a limpeza manual exige um esforço constante, os burros fazem aquilo que lhes é mais natural. Procuram alimento durante grande parte do dia, consumindo uma enorme quantidade de vegetação.

Cada animal ingere o equivalente ao que comeriam dez ovelhas, mantendo os terrenos limpos de forma contínua. Como o pastoreio decorre lentamente e ao longo de vários meses, o efeito acumula-se antes da época de maior perigo de incêndio.

O benefício vai além da redução do combustível vegetal. Ao contrário da maquinaria pesada, os burros exercem uma pressão muito menor sobre o solo, ajudando a limitar a erosão e favorecendo a infiltração da água da chuva. Ao mesmo tempo, fertilizam naturalmente os terrenos, contribuindo para manter os ecossistemas mais equilibrados.

Todo o processo decorre com acompanhamento permanente. Os animais estão em áreas vedadas, têm acesso à água, recebem alimentação complementar e dispõem de abrigos naturais ou construídos para garantir o seu bem-estar.

Uma resposta para paisagens que mudaram

A experiência ganha especial importância num território onde muitos terrenos agrícolas deixaram de ser cultivados. À medida que a população envelheceu e o abandono rural aumentou, multiplicaram-se as parcelas em pousio.

Nessas áreas, arbustos e plantas lenhosas cresceram sem gestão, criando uma continuidade de vegetação que facilita a propagação do fogo. É precisamente junto das aldeias que esta acumulação representa um risco acrescido para pessoas, habitações e infraestruturas.

Os burros não substituem outras formas de gestão da paisagem, mas oferecem uma resposta eficaz em locais onde o acesso é difícil e a manutenção exige intervenções regulares.

Enquanto o verão ainda decorre sem incêndios de grandes dimensões no município de Anadia, Madeixas, Azinhaga e Neemias continuam a fazer aquilo que os burros sempre fizeram melhor. Procurar alimento. Cada ramo que desaparece é menos combustível disponível quando a próxima vaga de calor chegar.

Da experiência local a uma estratégia para toda a paisagem

A ideia que está hoje a ser testada em Anadia nasceu centenas de quilómetros mais a norte, onde os burros nunca deixaram de fazer parte da identidade das comunidades rurais.

Desde o final do inverno de 2025, o projeto ASINIFIRE reúne investigadores portugueses e espanhóis na Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica para responder à mesma pergunta que inspira a experiência do Amieiro: poderão os asininos ajudar a reduzir o risco de incêndios enquanto recuperam o seu papel nas paisagens rurais?

Coordenado pelo Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança, o projeto junta universidades, associações de criadores, autarquias e entidades de conservação de ambos os lados da fronteira.

O objetivo não passa apenas por proteger as raças autóctones, como o burro de Miranda e o Zamorano-Leonês. Pretende também demonstrar que estes animais podem integrar uma estratégia moderna de gestão da vegetação e de adaptação às alterações climáticas.

A ciência por detrás do apetite asinino

Ao contrário de outros herbívoros, os burros alimentam-se lentamente, mas quase de forma contínua. O seu sistema digestivo permite aproveitar vegetação mais pobre e repetir a mesma dieta durante longos períodos. Consomem grandes quantidades de arbustos e plantas lenhosas.

A cria Neemias simboliza uma nova geração de burros que volta a percorrer as paisagens rurais, agora como aliada na prevenção de incêndios. Foto: Clube das Antas
A cria Neemias simboliza uma nova geração de burros que volta a percorrer as paisagens rurais, agora como aliada na prevenção de incêndios. Foto: Clube das Antas

O efeito torna-se ainda mais evidente porque o seu peso e a forma como percorrem o terreno aumentam a eficácia da gestão da vegetação, sobretudo em áreas difíceis de alcançar por máquinas agrícolas.

Recuperar um aliado que nunca deixou de conhecer a paisagem

Durante muito tempo, o desaparecimento dos burros foi encarado como um sinal inevitável de progresso. Hoje, a prevenção passa por recuperar algumas das funções ecológicas que estes animais desempenharam durante séculos, ainda que com um propósito diferente daquele que tiveram no passado.

Os burros não regressam para aliviar o trabalho humano, mas para ajudar a reconstruir paisagens mais resistentes ao fogo.

É uma abordagem que combina ciência, conservação da natureza e saber acumulado pelas comunidades rurais, mostrando que soluções simples podem ter um impacto significativo quando integradas na gestão dos territórios.

Referência da notícia

Clube das Ancas. Ação “Burros Sapadores” no Amieiro, Freguesia da Moita - Anadia.
Asinfire. Projeto ASINIFIRE - Asininos na Prevenção de Incêndios para a Resiliência Ecológica.