IA decifra texto de 3 mil anos escrito em tabuleta da antiga Mesopotâmia

Ferramenta criada por investigadores alemães conseguiu identificar caracteres quase apagados em tabuletas da antiga Mesopotâmia, acelerando estudos arqueológicos e preservando registos históricos raros da humanidade antiga.

Tabuleta cuneiforme. IA está a ser utilizada pela ciência para decifrar antigas mensagens da civilização mesopotâmica - Crédito: Daniel Schwemer/Universidade de Würzburg
Tabuleta cuneiforme. IA está a ser utilizada pela ciência para decifrar antigas mensagens da civilização mesopotâmica - Crédito: Daniel Schwemer/Universidade de Würzburg

Investigadores da Alemanha utilizaram inteligência artificial para identificar um texto de aproximadamente 3 mil anos escrito em cuneiforme, um dos sistemas de escrita mais antigos da humanidade. A tecnologia permitiu que especialistas interpretassem inscrições extremamente desgastadas encontradas numa antiga tabuleta da Mesopotâmia.

O sistema, chamado “Palaeographicum”, foi desenvolvido para analisar imagens digitalizadas de documentos antigos e reconstruir fragmentos dispersos de textos históricos. A plataforma também consegue comparar estilos de escrita cuneiforme e auxiliar na datação de registos produzidos séculos antes da era comum.

Atualmente, a ferramenta opera com um banco de dados formado por mais de 5 milhões de caracteres preservados em cerca de 70 mil imagens de tabuletas. O objetivo é automatizar um trabalho que tradicionalmente depende de análises manuais realizadas por especialistas em paleografia e línguas do Antigo Oriente Próximo.

Tecnologia ajuda arqueólogos

A escrita cuneiforme surgiu há mais de 5 mil anos na antiga Mesopotâmia e era registada em placas de argila através de marcas em formato de cunha. Apesar de décadas de investigações arqueológicas, muitos destes textos continuam difíceis de interpretar devido ao desgaste provocado pela ação do tempo.

Segundo especialistas envolvidos no projeto, o sistema de inteligência artificial foi treinado para reconhecer sinais cuneiformes antigos, incluindo símbolos incompletos ou parcialmente apagados. Em alguns casos, a tecnologia conseguiu identificar caracteres praticamente invisíveis a olho nu.

Para isto, os investigadores utilizaram imagens digitais de alta resolução das tabuletas. O programa analisou padrões presentes na escrita antiga e sugeriu possíveis interpretações para os sinais encontrados nos artefactos arqueológicos.

Detalhes ocultos foram revelados

De acordo com os investigadores, a ferramenta pode acelerar significativamente o trabalho de tradução e interpretação de documentos históricos. Em muitos casos, arqueólogos levam anos a tentar compreender inscrições fragmentadas encontradas durante escavações.

A escrita cuneiforme é considerada um dos primeiros sistemas de linguagem do mundo. Crédito: Divulgação Museu das Civilizações de Anatólia
A escrita cuneiforme é considerada um dos primeiros sistemas de linguagem do mundo. Crédito: Divulgação Museu das Civilizações de Anatólia

O texto identificado pertence a um período importante das civilizações mesopotâmicas, responsáveis pelo desenvolvimento de alguns dos primeiros sistemas de escrita da história. O cuneiforme era utilizado para registar leis, transações comerciais, rituais religiosos e acontecimentos políticos.

Com o passar dos séculos, muitas tabuletas acabaram quebradas ou fragmentadas. Diversos pedaços destes documentos foram espalhados por coleções arqueológicas e museus de diferentes países, dificultando ainda mais o trabalho de reconstrução histórica.

Ferramenta pode transformar pesquisas

Reconstruir estes registos tornou-se um dos maiores desafios dos estudos sobre o Antigo Oriente Próximo. Além das fraturas, muitos sinais sofreram desgaste intenso e podem mudar de aparência dependendo da iluminação utilizada nas fotografias digitais.

Além de ajudar na leitura de inscrições antigas, o Palaeographicum também pode contribuir para a preservação de documentos históricos frágeis. Muitos artefactos arqueológicos apresentam danos severos provocados por erosão, incêndios e deterioração natural ao longo dos séculos.

Segundo Daniel Schwemer, chefe do departamento de estudos do Antigo Oriente Próximo da Universidade de Würzburg e um dos responsáveis pelo projeto, o impacto da ferramenta já é significativo. “O Palaeographicum está a mudar radicalmente o nosso trabalho; ele permite-nos economizar milhares de horas”, afirmou em comunicado divulgado recentemente.

Projeto com IA segue em desenvolvimento

A base tecnológica do Palaeographicum surgiu a partir do projeto CuKa, desenvolvido entre 2018 e 2023 com financiamento da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG). Durante este período, especialistas em filologia anotaram manualmente milhares de exemplos para treinar o modelo de inteligência artificial.

Mesmo já em funcionamento, o sistema continua a ser aprimorado pelos investigadores. Segundo Gerfrid Müller, integrante da equipa, o treino da IA é constantemente atualizado para aumentar a precisão das análises realizadas pela plataforma.

A descoberta demonstra como tecnologias modernas estão a ser utilizadas para investigar civilizações que existiram milhares de anos antes da era digital. Para os investigadores, ferramentas baseadas em inteligência artificial podem abrir novas possibilidades para o estudo das primeiras formas de escrita desenvolvidas pela humanidade.

Referências da notícia

Aventuras na História. IA decifra texto de 3 mil anos escrito em cuneiforme. 2026

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