Geoengenharia e crise climática: decisões globais exigem transparência
Perante a emergência climática, as tecnologias para alterar o clima avançam sem debate público suficiente, nem participação global ativa. Fica aqui a saber mais sobre este tema!

À medida que a crise climática se intensifica e ultrapassamos limites críticos relativamente ao aquecimento global, está a ganhar força um debate global complicado: a possível utilização de técnicas de geoengenharia solar para responder a emergências climáticas.
Embora pareça uma resposta tecnológica à ameaça de um planeta cada vez mais quente, há uma questão que se coloca com urgência: quem decide, como se decide e com que transparência?
De acordo com um artigo publicado pelo The Guardian, o termo geoengenharia refere-se a intervenções no sistema climático da Terra com o objetivo de reduzir o aquecimento global.
Um dos métodos mais debatidos é a injeção de aerossóis estratosféricos, dispersar partículas reflexivas a grande altitude para refletir parte da radiação solar de volta ao espaço, imitando o efeito de grandes erupções vulcânicas.
Outra abordagem estudada é o clareamento de nuvens marinhas, que procura aumentar o brilho das nuvens sobre os oceanos para refletir mais luz solar.
Serão estas ideias fantasias científicas?
Estas ideias estão a ser estudadas com maior urgência em vários países, especialmente no “Norte Global”, onde universidades e agências de investigação têm explorado estes temas com financiamento e apoio institucional.
Mas há um facto alarmante, o “Sul Global” onde muitas das consequências mais severas das alterações climáticas já são sentidas, a discussão pública e política sobre geoengenharia praticamente não existe. A população, os governos e mesmo muitos cientistas destas regiões estão quase ausentes do debate.
Isso cria um risco profundo de que decisões que afetam todo o planeta sejam tomadas por poucos, sem participação ampla, equitativa e informada.
O perigo de decisões à porta fechada
A crítica central dos especialistas que pedem maior transparência é clara, não se pode permitir que a geoengenharia seja moldada nos bastidores, longe do escrutínio público e da participação global.

Decisões sobre tecnologias que alteram o clima planetário devem passar por processos abertos, inclusivos e baseados em ética climática, princípios que envolvem justiça, equidade e informação acessível.
O argumento de muitos cientistas e ativistas é que ignorar este debate não faz com que o problema desapareça. Pelo contrário, pode agravar desigualdades existentes, colocando nas mãos de poucos o poder de influenciar o equilíbrio climático, com consequências imprevisíveis e possivelmente desiguais, sobretudo para populações mais vulneráveis.
Mesmo que, tecnicamente, algumas intervenções possam reduzir temporariamente a temperatura média global, isso não resolve as causas profundas do aquecimento: a emissão contínua de gases com efeito de estufa, o uso de combustíveis fósseis, a perda de biodiversidade ou a acidificação dos oceanos.
Justiça climática: um imperativo ético
O debate sobre geoengenharia é também um debate sobre justiça climática.
Países e comunidades que pouco contribuíram para o aquecimento global estão a sofrer alguns dos piores impactos, como ondas de calor extremas, secas severas, subida do nível do mar e fenómenos meteorológicos extremos e, ainda assim, têm pouco ou nenhum poder de decisão sobre tecnologias que podem alterar o clima global.
Incluir vozes do Sul Global num processo de investigação e tomada de decisões não é apenas um gesto de boa vontade, é uma necessidade para garantir que qualquer ação futura seja fundamentada em equidade e conhecimento local.
Isso implica fortalecer capacidades científicas, redes de investigação e financiamento para que estes países possam contribuir com dados, perspetivas e prioridades próprias.
Transparência não significa aprovação
Importa esclarecer que defender transparência não equivale a apoiar a implementação imediata de geoengenharia. Pelo contrário, trata-se de garantir que as discussões, riscos e potenciais benefícios sejam devidamente ponderados, com participação democrática e rigor científico.
Isto permite que decisões críticas, caso cheguem a ser tomadas, o sejam com o máximo de informação e consenso possível.
E se a história recente tem mostrado alguma coisa, é que evitar o debate não impede que a tecnologia avance por detrás de portas fechadas. Sem transparência, corremos o risco de repetir padrões de exclusão que já vimos noutras áreas do clima, desenvolvimento e ciência.