Com os cientistas portugueses, o Observatório Europeu no Chile ganhou superpoderes
Técnica inovadora para criar estrelas artificiais vai permitir aos astrónomos ampliar drasticamente o poder de observação dos telescópios principais do Observatório Europeu do Sul.

Quatro lasers projetados nos céus, a partir do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Paranal, Chile, vão criar estrelas artificiais na exosfera. O método é revolucionário e irá permitir medir e corrigir o efeito de desfocagem dos telescópios causado pela turbulência atmosférica.
O seu lançamento será feito a partir de telescópios gigantes com um espelho de oito metros do Very Large Telescope (UTL). A operação já é considerada o maior avanço da última década na instrumentação interferométrica no solo.

Os responsáveis por mais este marco são nada menos que um consórcio internacional onde se destaca uma equipa de cientistas da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Com com este novo modelo, foi possível sincronizar o interferómetro, atribuindo-lhe alta sensibilidade e capacidade de deteção de objetos celestes.
Antoine Mérand, astrónomo do ESO.
Para entender o alcance desta inovação será preciso explicar, antes de tudo, o que é a interferometria. Aplicada frequentemente em astronomia, a técnica permite observar detalhes que até o maior e o mais sofisticado dos telescópios atuais não consegue fazer.
A radiação captada por dois ou mais telescópios é combinada de forma a criar uma imagem de um objeto com muito mais detalhes do que seria possível com um único telescópio.
Sincronia entre telescópios
A coordenação entre vários telescópios atua, na prática, como um único e gigante refletor virtual, ou interferómetro, com um diâmetro maior do que qualquer outro até agora desenvolvido.
O seu uso é particularmente útil para estudar todo o tipo de fenómenos desde nuvens de gás frio, exoplanetas, detalhes na superfície de estrelas e até ambientes em torno de buracos negros.
O ESO trabalha atualmente com três projetos de interferometria: o Interferómetro do Very Large Telescope (VLTI), o GRAVITY+ e o Atacama Large Millimetre/submillimetre Array (ALMA).
A equipa portuguesa trabalhou no âmbito do projeto GRAVITY+, o mesmo que já foi usado para realizar observações minuciosas de objetos ténues a orbitar o buraco negro supermassivo localizado no centro da Via Láctea e que estiveram na base do Prémio Nobel de Física de 2020.
Frank Eisenhauer, Investigador do GRAVITY.
Paulo Garcia, Carlos Correia, Nuno Morujão e Tiago Gomes foram os investigadores portugueses envolvidos no projeto Gravity+.
Esta série de atualizações está a decorrer há alguns anos e inclui tecnologia de ótica adaptativa. O sistema permite corrigir a desfocagem das imagens causada pela turbulência da atmosfera terrestre.

A técnica implicou desenvolver sensores de última geração e espelhos deformáveis, que mudaram substancialmente a forma como se observa o espaço a partir da Terra.
Até agora, as correções de ótica adaptativa do interferómetro eram feitas apontando para estrelas de referência brilhantes que tinham de estar próximas no céu, limitando assim o número de objetos que podiam ser estudados.
Com a instalação de um laser em cada um dos Telescópios Principais, foi possível criar uma estrela artificial brilhante a 90 km acima da superfície da Terra em qualquer ponto do céu. O feito possibilitou corrigir a distorção atmosférica em qualquer zona do céu, aumentando drasticamente o seu poder de observação.
Referência da notícia
Raquel Pires. Investigadores da FEUP inauguram nova era na interferometria. Universidade do Porto