Florestas e rios ameaçados: a crise climática está a destruir a flora e a fauna mais rapidamente em climas temperados
Durante décadas, as espécies tropicais foram amplamente consideradas mais vulneráveis do que as espécies temperadas. No entanto, alguns estudos sugerem o contrário. Saiba mais aqui!

Imagine regressar ao seu trilho de caminhada favorito 15 anos após a sua primeira visita e descobrir que muitas das plantas e animais que antes ali viviam desapareceram. Embora estas espécies possam ainda existir noutros locais, estes desaparecimentos (ou extinções locais) estão entre os sinais mais claros de que as alterações climáticas já estão a transformar ecossistemas e a ameaçar espécies em todo o mundo.
Investigadores da Universidade do Arizona compararam as extinções locais causadas pelas recentes alterações climáticas em mais de 5.100 espécies de plantas e animais de todo o mundo, incluindo centenas de espécies de traças e escaravelhos, centenas de peixes e aves, muitos mamíferos, rãs, salamandras e lagartos, e quase 3.000 espécies de plantas.
No estudo publicado na Nature Climate Change, os investigadores descobriram que 49% das espécies temperadas sofreram extinção local nas partes mais quentes das suas áreas de distribuição, em comparação com apenas 33% das espécies tropicais.
A investigação baseou-se em levantamentos de biodiversidade em quase 40.000 locais em todo o mundo, permitindo aos investigadores comparar registos históricos com levantamentos realizados anos ou décadas mais tarde, tornando-se a maior análise de extinções locais impulsionadas pelo clima realizada até à data.
Vários fatores foram tidos em consideração para este estudo
Estes resultados foram consistentes em muitos grupos diferentes de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Para compreender este padrão inesperado, os investigadores analisaram múltiplos fatores relacionados com o clima, incluindo tendências de aquecimento a longo prazo, alterações nas chuvas, condições de seca e ondas de calor em locais globais. Também excluíram locais que podem ter sido afetados por fatores de stress não climáticos, como a desflorestação.
Os investigadores encontraram uma explicação principal para o padrão: as regiões temperadas estão a aquecer mais rapidamente do que as regiões tropicais.
Regiões temperadas aqueceram mais que as regiões tropicais
Os investigadores descobriram que o aumento máximo de temperatura num período de 25 anos foi de aproximadamente cerca de 2 ºC nas regiões tropicais. Nas regiões temperadas, o aumento máximo foi de cerca de 3,3 °C.
A equipa também examinou de que forma as espécies responderam ao aquecimento em cada região. Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies tropicais seriam especialmente vulneráveis às alterações climáticas devido à sua fisiologia. Como as espécies tropicais evoluíram sob temperaturas relativamente estáveis durante todo o ano, acreditava-se que tinham menos tolerância às mudanças de temperatura do que as espécies temperadas, que experimentam uma maior variação sazonal de temperatura.

As extinções locais observadas não significam necessariamente que toda a espécie foi extinta, mas mostram que as populações não conseguem sobreviver às alterações das condições ambientais. Perdas semelhantes em toda a área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção de toda a espécie.
Para algumas espécies, migrar para habitats mais frios pode nem ser possível. Os animais podem não conseguir atravessar autoestradas, cidades ou outras paisagens urbanizadas, enquanto os peixes e outras espécies aquáticas estão frequentemente confinados a lagos e rios específicos. Nas montanhas, as espécies podem continuar a deslocar-se para altitudes mais elevadas à medida que as temperaturas aumentam, mas muitas podem simplesmente ficar sem espaço nas montanhas.
Padrões de extinção entre espécies tropicais e temperadas são distintos
Este estudo revelou ainda diferenças importantes nos padrões de extinção entre espécies tropicais e temperadas. Nas regiões tropicais, as extinções locais relacionadas com o clima concentraram-se nas partes mais quentes da área de distribuição de cada espécie. Nas regiões temperadas, no entanto, as populações desapareceram frequentemente em muitos locais ao longo da área de distribuição das espécies.
Em todas as espécies incluídas no estudo, os investigadores descobriram que 45% tinham sido extintas localmente na parte mais quente da região onde eram encontradas anteriormente. Para muitos grupos, este número ultrapassou os 50%, incluindo insetos, vertebrados terrestres e espécies marinhas.
Estas descobertas podem ter implicações importantes para o planeamento da conservação. Embora este novo estudo não sugira que as espécies tropicais estejam seguras, indica que as espécies temperadas podem estar em maior perigo do que se pensava anteriormente.
Referência da notícia
Murali, G., Karger, D.N. & Wiens, J.J.. Temperate local extinctions from climate change are outpacing tropical extinctions..