Novo mapa digital prevê risco de incêndio florestal na Península Ibérica durante ondas de calor
Solução digital monitoriza o stress hídrico das matas em tempo real, fornecendo alertas cruciais para antecipar a propagação do fogo nos dias com temperaturas elevadas.

Os parques florestais são os melhores refúgios climáticos que a natureza oferece em dias de calor extremo. À superfície, as árvores parecem resistir bem, mas, na realidade, sob a sua sombra decorre uma autêntica batalha pela sobrevivência hídrica. Embora impercetível aos nossos olhos, esse é o combate que determinará a fronteira entre a segurança e a catástrofe.
A plataforma ForestDrought atualiza diariamente o estado hídrico das florestas e a quantidade de água no solo através de mapas digitais de acesso livre.
O segredo está na vegetação viva
O sistema foi desenvolvido na Catalunha pelo Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais. A grande inovação científica assenta num estudo publicado na revista New Phytologist.
Os dados recolhidos revelam dinâmicas fundamentais para a proteção das matas. As árvores de grande porte utilizam raízes profundas e fecham os poros para conservar a água disponível. Os arbustos do sub-bosque, em contrapartida, secam com enorme rapidez. Esta diferença explica por que duas áreas florestais vizinhas, submetidas ao mesmo clima, têm comportamentos de fogo totalmente distintos.

Quando a humidade vegetal desce abaixo dos 80%, a vegetação entra em stress hídrico crítico. Esse estado facilita a inflamação e acelera a propagação das chamas pelas copas das árvores. Além deste indicador, o sistema avalia a probabilidade de ignição do mato, gerando alertas para as equipas de sapadores.
Resposta à severidade meteorológica
A inovação chega num momento vital para Portugal. Basta lembrar, aliás, que 2025 ficou marcado como o quinto período com pior severidade meteorológica do século. O país enfrentou nesse ano 29 dias consecutivos sob perigo máximo ou extremo de incêndio, uma realidade que fustigou com particular violência as regiões Norte e Centro.
O balanço resultou em cerca de 271 mil hectares de área ardida, o dobro da extensão registada no ano anterior e quase a totalidade da meta de proteção planeada pelas autoridades nacionais até ao final da década. Monitorizar o território com ferramentas dinâmicas tornou-se, por isso, uma prioridade estratégica para reverter o ciclo de destruição.
Uma solução partilhada no território nacional
Embora o modelo matemático tenha sido desenhado em Espanha, a sua base científica ajusta-se perfeitamente à realidade portuguesa. Os dois países partilham ecossistemas semelhantes, caracterizados pela forte presença de pinheiros e sobreiros.
Sendo mapas digitais de acesso livre e gratuito, qualquer proprietário florestal, associação local, investigador universitário ou cidadão em Portugal pode consultar os dados diariamente para avaliar o risco no seu território.

A integração de dados contínuos permite antecipar com elevada fiabilidade onde a vegetação se encontra em rutura. Esta precisão em tempo real reforça a capacidade de resposta operacional, garantindo uma vigilância mais assertiva precisamente nas fases em que as ondas de calor ameaçam o país.
Referência da notícia
CREAF - Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais da Catalunha. A new CREAF tool provides real-time vegetation moisture data across Spain and Portugal to improve wildfire prevention.