Novo mapa digital prevê risco de incêndio florestal na Península Ibérica durante ondas de calor

Solução digital monitoriza o stress hídrico das matas em tempo real, fornecendo alertas cruciais para antecipar a propagação do fogo nos dias com temperaturas elevadas.

Ao contrário dos modelos tradicionais, que apenas avaliavam o risco de incêndio florestal com base na matéria orgânica morta, a nova abordagem analisa também o grau de humidade das plantas vivas. Foto: Seaq68/Pixabay
Ao contrário dos modelos tradicionais, que apenas avaliavam o risco de incêndio florestal com base na matéria orgânica morta, a nova abordagem analisa também o grau de humidade das plantas vivas. Foto: Seaq68/Pixabay

Os parques florestais são os melhores refúgios climáticos que a natureza oferece em dias de calor extremo. À superfície, as árvores parecem resistir bem, mas, na realidade, sob a sua sombra decorre uma autêntica batalha pela sobrevivência hídrica. Embora impercetível aos nossos olhos, esse é o combate que determinará a fronteira entre a segurança e a catástrofe.

Até agora, prever exatamente quais zonas florestais são mais vulneráveis às chamas era uma tarefa complexa. Uma nova tecnologia promete transformar a gestão do risco no território ibérico.

A plataforma ForestDrought atualiza diariamente o estado hídrico das florestas e a quantidade de água no solo através de mapas digitais de acesso livre.

O segredo está na vegetação viva

O sistema foi desenvolvido na Catalunha pelo Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais. A grande inovação científica assenta num estudo publicado na revista New Phytologist.

Pela primeira vez, os modelos de risco incluem a humidade das plantas vivas e não apenas da matéria orgânica morta.

Os dados recolhidos revelam dinâmicas fundamentais para a proteção das matas. As árvores de grande porte utilizam raízes profundas e fecham os poros para conservar a água disponível. Os arbustos do sub-bosque, em contrapartida, secam com enorme rapidez. Esta diferença explica por que duas áreas florestais vizinhas, submetidas ao mesmo clima, têm comportamentos de fogo totalmente distintos.

Com humidade inferior a 80%, o stress hídrico crítico acelera o fogo nas copas. O sistema também avalia o mato para alertar as equipas de bombeiros. Foto: Beeki/Pixabay
Com humidade inferior a 80%, o stress hídrico crítico acelera o fogo nas copas. O sistema também avalia o mato para alertar as equipas de bombeiros. Foto: Beeki/Pixabay

Quando a humidade vegetal desce abaixo dos 80%, a vegetação entra em stress hídrico crítico. Esse estado facilita a inflamação e acelera a propagação das chamas pelas copas das árvores. Além deste indicador, o sistema avalia a probabilidade de ignição do mato, gerando alertas para as equipas de sapadores.

Resposta à severidade meteorológica

A inovação chega num momento vital para Portugal. Basta lembrar, aliás, que 2025 ficou marcado como o quinto período com pior severidade meteorológica do século. O país enfrentou nesse ano 29 dias consecutivos sob perigo máximo ou extremo de incêndio, uma realidade que fustigou com particular violência as regiões Norte e Centro.

O balanço resultou em cerca de 271 mil hectares de área ardida, o dobro da extensão registada no ano anterior e quase a totalidade da meta de proteção planeada pelas autoridades nacionais até ao final da década. Monitorizar o território com ferramentas dinâmicas tornou-se, por isso, uma prioridade estratégica para reverter o ciclo de destruição.

Uma solução partilhada no território nacional

Embora o modelo matemático tenha sido desenhado em Espanha, a sua base científica ajusta-se perfeitamente à realidade portuguesa. Os dois países partilham ecossistemas semelhantes, caracterizados pela forte presença de pinheiros e sobreiros.

Ao introduzir dados geográficos e climáticos específicos de Portugal, a plataforma simula a secura das florestas automaticamente. O algoritmo cruza informações detalhadas sobre a estrutura das matas, o relevo e o tipo de solo.

Sendo mapas digitais de acesso livre e gratuito, qualquer proprietário florestal, associação local, investigador universitário ou cidadão em Portugal pode consultar os dados diariamente para avaliar o risco no seu território.

Árvores de raízes profundas conservam água, mas arbustos secam rapidamente. A dinâmica explica por que florestas vizinhas sob o mesmo clima ardem de formas distintas. Foto: Derguen/Pixabay
Árvores de raízes profundas conservam água, mas arbustos secam rapidamente. A dinâmica explica por que florestas vizinhas sob o mesmo clima ardem de formas distintas. Foto: Derguen/Pixabay

A integração de dados contínuos permite antecipar com elevada fiabilidade onde a vegetação se encontra em rutura. Esta precisão em tempo real reforça a capacidade de resposta operacional, garantindo uma vigilância mais assertiva precisamente nas fases em que as ondas de calor ameaçam o país.

Referência da notícia

CREAF - Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais da Catalunha. A new CREAF tool provides real-time vegetation moisture data across Spain and Portugal to improve wildfire prevention.