Escavações em Tomar e Torres Novas vão contar a história de 500 mil anos de evolução humana

Expedição reúne especialistas portugueses e estrangeiros, que irão reconstituir modos de vida de Pré-Neandertais, Neandertais e Humanos Modernos no Centro de Portugal.

O projeto PALAEO.WEST.IBERIA conta com equipas de paleontólogos e arqueólogos de universidades portuguesas e estrangeiras. Foto: PALAEO.WEST.IBERIA
O projeto PALAEO.WEST.IBERIA conta com equipas de paleontólogos e arqueólogos de universidades portuguesas e estrangeiras. Foto: PALAEO.WEST.IBERIA

Há muitas movimentações a acontecer nas encostas calcárias e nos vales de Tomar e Torres Novas. Investigadores do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ) estão atarefados a explorar grutas e abrigos que podem vir a mudar o nosso conhecimento sobre a evolução humana na Península Ibérica.

Financiado pela Agência para a Investigação e Inovação (entidade que substituiu a Fundação para a Ciência e Tecnologia), o projeto PALAEO.WEST.IBERIA foi lançado em janeiro de 2026 para estudar meio milhão de anos de ocupações humanas nesta região do distrito de Santarém.

“Há mais de meio milhão de anos, nas escarpas calcárias e nos vales do centro de Portugal, viveram diferentes espécies humanas, que deixaram marcas únicas nas grutas e abrigos da região, revelando histórias sobre quem fomos.”Mariana Nabais, coordenadora do projeto PALAEO.WEST.IBERIA

O intuito da expedição é investigar os modos de vida desde os pré‑neandertais até às últimas comunidades de caçadoras‑recoletoras. Nos concelhos de Tomar e Torres Novas, estão sítios arqueológicos cruciais dos sistemas cársicos do Almonda e do Nabão, com vestígios de todo o Paleolítico, do Acheulense ao Magdalenense.

O sistema cársico de Almonda desenvolve-se ao longo de uma escarpa de 70 metros de altura com uma rede labiríntica de passagens subterrâneas.

Nestas paisagens encontram-se vários pontos importantes para a investigação. É o caso da Gruta da Aroeira, em Torres Novas, onde foi descoberto, em 2014, um crânio pré‑neandertal com cerca de 400 mil anos.

O sistema cársico de Almonda começou a ser explorado a partir de 1989, tendo sido descobertos vários abrigos e grutas do Paleolítico Inferior ao Superior. Imagem: Projeto PALAEO.WEST.IBERIA
O sistema cársico de Almonda começou a ser explorado a partir de 1989, tendo sido descobertos vários abrigos e grutas do Paleolítico Inferior ao Superior. Imagem: Projeto PALAEO.WEST.IBERIA

Este foi o achado que revelou uma fase de transição a meio caminho entre o Homo erectus e os Neandertais da Europa. No concelho de Tomar, as grutas de Oliveira e do Caldeirão preservam igualmente longas sequências do Paleolítico Médio e Superior.

É neste município que se encontra também o Abrigo da Senhora das Lapas, descoberto em 2021, com milhares de artefactos líticos e restos faunísticos das ocupações Solutrenses e Magdalenenses.

O sistema cársico do Nabão expõe uma sequência estratigráfica de seis metros de profundidade, com níveis do Paleolítico Superior, no topo, e níveis basais do Paleolítico Médio.

O recomeço das escavações nestes locais visa agora pormenorizar a cronologia e a continuidade das diferentes populações humanas que estiveram neste território. Os trabalhos estão a decorrer num ritmo diário e o que se espera são novas pistas sobre como viveram estas comunidades, como se alimentaram e como se adaptaram às mudanças climáticas.

Tecnologias de ponta decifram segredos do passado

A investigação envolve trabalho de campo e análises laboratoriais, realizadas em Portugal e no estrangeiro. Os investigadores vão examinar os utensílios de pedra, procurando identificar matérias-primas e técnicas de talhe.

Serão também feitos estudos tafonómicos para identificar vestígios acumulados nos ossos de humanos e de animais e analisado ainda o desgaste dentário de isótopos estáveis, como oxigénio, carbono, azoto e estrôncio. Estes dados vão ajudar a decifrar as dietas e os padrões de mobilidade.

As grutas e abrigos do desfiladeiro calcário do Nabão guardam milhares de fragmentos de lascas, lâminas, lamelas e ferramentas retocadas do Paleolítico Superior. Imagens: Projeto PALAEO.WEST.IBERIA
As grutas e abrigos do desfiladeiro calcário do Nabão guardam milhares de fragmentos de lascas, lâminas, lamelas e ferramentas retocadas do Paleolítico Superior. Imagens: Projeto PALAEO.WEST.IBERIA

A equipa de paleontólogos irá recorrer ainda à microtomografia computorizada (microCT) não destrutiva para estudar a morfologia, demografia e patologias dos ossos. Os exames serão, por fim, complementados com análises de restos vegetais como carvões, sementes e pólen, recuperados através de técnicas como flutuação e análise de coprólitos.

Investigação multidisciplinar, formação e divulgação

Coordenada pela arqueóloga Mariana Nabais, a expedição junta especialistas portugueses e internacionais, que vão trazer uma abordagem multidisciplinar, cruzando disciplinas, como arqueologia, zooarqueologia, antropologia biológica, geoarqueologia e novas tecnologias –microtomografia 3D, análises isotópicas e morfometria geométrica.

Há também uma forte componente de formação de jovens investigadores, estando ainda previstas ações educativas e de divulgação em colaboração com o Museu de Torres Novas.

A ambição do PALAEO.WEST.IBERIA é reunir todas as peças encontradas – de um osso queimado até às lascas de sílex usadas nas ferramentas afiadas. Cada fragmento irá ajudar a contar na nossa própria história, ligando o presente às raízes mais remotas da Humanidade.

Referência da notícia

Projeto PALAEO.WEST.IBERIA. Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ)