Escavações em Tomar e Torres Novas vão contar a história de 500 mil anos de evolução humana
Expedição reúne especialistas portugueses e estrangeiros, que irão reconstituir modos de vida de Pré-Neandertais, Neandertais e Humanos Modernos no Centro de Portugal.

Há muitas movimentações a acontecer nas encostas calcárias e nos vales de Tomar e Torres Novas. Investigadores do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ) estão atarefados a explorar grutas e abrigos que podem vir a mudar o nosso conhecimento sobre a evolução humana na Península Ibérica.
Financiado pela Agência para a Investigação e Inovação (entidade que substituiu a Fundação para a Ciência e Tecnologia), o projeto PALAEO.WEST.IBERIA foi lançado em janeiro de 2026 para estudar meio milhão de anos de ocupações humanas nesta região do distrito de Santarém.
O intuito da expedição é investigar os modos de vida desde os pré‑neandertais até às últimas comunidades de caçadoras‑recoletoras. Nos concelhos de Tomar e Torres Novas, estão sítios arqueológicos cruciais dos sistemas cársicos do Almonda e do Nabão, com vestígios de todo o Paleolítico, do Acheulense ao Magdalenense.
Nestas paisagens encontram-se vários pontos importantes para a investigação. É o caso da Gruta da Aroeira, em Torres Novas, onde foi descoberto, em 2014, um crânio pré‑neandertal com cerca de 400 mil anos.

Este foi o achado que revelou uma fase de transição a meio caminho entre o Homo erectus e os Neandertais da Europa. No concelho de Tomar, as grutas de Oliveira e do Caldeirão preservam igualmente longas sequências do Paleolítico Médio e Superior.
É neste município que se encontra também o Abrigo da Senhora das Lapas, descoberto em 2021, com milhares de artefactos líticos e restos faunísticos das ocupações Solutrenses e Magdalenenses.
O recomeço das escavações nestes locais visa agora pormenorizar a cronologia e a continuidade das diferentes populações humanas que estiveram neste território. Os trabalhos estão a decorrer num ritmo diário e o que se espera são novas pistas sobre como viveram estas comunidades, como se alimentaram e como se adaptaram às mudanças climáticas.
Tecnologias de ponta decifram segredos do passado
A investigação envolve trabalho de campo e análises laboratoriais, realizadas em Portugal e no estrangeiro. Os investigadores vão examinar os utensílios de pedra, procurando identificar matérias-primas e técnicas de talhe.
Serão também feitos estudos tafonómicos para identificar vestígios acumulados nos ossos de humanos e de animais e analisado ainda o desgaste dentário de isótopos estáveis, como oxigénio, carbono, azoto e estrôncio. Estes dados vão ajudar a decifrar as dietas e os padrões de mobilidade.

A equipa de paleontólogos irá recorrer ainda à microtomografia computorizada (microCT) não destrutiva para estudar a morfologia, demografia e patologias dos ossos. Os exames serão, por fim, complementados com análises de restos vegetais como carvões, sementes e pólen, recuperados através de técnicas como flutuação e análise de coprólitos.
Investigação multidisciplinar, formação e divulgação
Coordenada pela arqueóloga Mariana Nabais, a expedição junta especialistas portugueses e internacionais, que vão trazer uma abordagem multidisciplinar, cruzando disciplinas, como arqueologia, zooarqueologia, antropologia biológica, geoarqueologia e novas tecnologias –microtomografia 3D, análises isotópicas e morfometria geométrica.
Há também uma forte componente de formação de jovens investigadores, estando ainda previstas ações educativas e de divulgação em colaboração com o Museu de Torres Novas.
A ambição do PALAEO.WEST.IBERIA é reunir todas as peças encontradas – de um osso queimado até às lascas de sílex usadas nas ferramentas afiadas. Cada fragmento irá ajudar a contar na nossa própria história, ligando o presente às raízes mais remotas da Humanidade.
Referência da notícia
Projeto PALAEO.WEST.IBERIA. Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ)