Um rio seco continua a ser um rio: ciência explica que a sua proteção é urgente na luta contra as alterações climáticas
Atendendo ao facto dos rios secos serem em grande parte esquecidos pelas Autoridades Hidrográficas e pela população em geral, cientistas da Universidade de Múrcia resolveram investigar a importância dos rios secos para a sociedade.

Desta investigação resultou um artigo científico que veio alertar para a importância dos rios secos para a biodiversidade dessas regiões e não só.
Rios Secos - ecossistemas valiosos
Existem rios que transportam água durante todo o ano, designados por rios permanentes e existem também outros que secam total ou parcialmente durante o verão, conhecidos como rios intermitentes.
No entanto, ainda temos outros tipos de rios que não se enquadram em nenhuma destas definições, os chamados rios secos.
Estes rios são especialmente abundantes nas regiões mais áridas da Terra, mas não são exclusivos destas áreas. Na verdade, os rios secos encontram-se em todas as zonas climáticas da Terra, desde os desertos às regiões polares e das zonas montanhosas até ao litoral.
Um dos objetivos do referido estudo é mostrar que os rios secos são ecossistemas por si só, dadas as suas características estruturais e funcionais distintas em comparação com outros rios não perenes, devido à prevalência de condições terrestres.
O habitat natural nestes rios é predominantemente terrestre e não aquático, pelo que a sua biodiversidade e funcionamento serão mais semelhantes aos de um ecossistema terrestre. No entanto, enquadram-se na categoria de rios porque, paradoxalmente, são formados e energizados pela força das cheias repentinas. Resumindo, os rios secos também fazem parte da rede fluvial de uma bacia hidrográfica e devem ser considerados como tal pelos gestores dos rios.

Os rios secos apresentam tanto os principais impactes que ameaçam os ecossistemas aquáticos (despejo de esgotos, lixo, canalizações etc.) como os típicos dos sistemas terrestres (mineração, aterros sanitários, poluição, impermeabilização dos solos, etc.). Esta situação coloca os rios secos entre os ecossistemas mais maltratados do mundo.
Os autores do estudo chamaram a atenção para o facto dos rios secos fornecerem inúmeros serviços reguladores que são difíceis de serem percebidos pelo público em geral.
As chuvas torrenciais agitam os sedimentos e os depositam novamente na bacia hidrográfica. Portanto, em muitos destes rios, surgem ilhas ou bancos de areia, criando novos habitats para diversos organismos vegetais e animais. Além disso, a areia também pode ser utilizada como material utilizado na construção.

O acumulado de matéria orgânica, originária do ambiente terrestre e transportada pela chuva, é uma característica interessante desses rios. Esse material pode permanecer nos leitos dos rios por um longo período, atuando como reservatório de carbono e nutrientes.
Como os níveis de humidade nos leitos secos dos rios podem ser mais altos do que nas áreas circundantes, é possível encontrar em alguns uma comunidade vegetal abundante e rica de arbustos e até árvores.
A vegetação desempenha um papel fundamental na retenção de sedimentos, na estabilização do substrato e na criação de micro habitats que facilitam a fixação de outras espécies.
Além disso, esta vegetação e as ilhas que se formam nos seus leitos podem atrasar o rápido fluxo das cheias, reduzindo o perigo para os seres humanos, e também auxiliar na infiltração e acumulação de água nos aquíferos.
De acordo com o artigo, os rios secos proporcionam habitats para muitas espécies da fauna diversificada, desde formigas, aranhas, besouros até répteis (como a tartaruga-de-esporas), aves e mamíferos, que utilizam esses cursos de água como corredores ecológicos, para se deslocarem de um lugar para outro, como áreas de descanso ou para construir seus ninhos, desempenhando funções ecológicas importantes, como a dispersão de sementes e a reciclagem de nutrientes.
Além disso, os leitos secos dos rios podem fornecer plantas e animais que servem de alimento ou possuem propriedades medicinais.
Pode considerar-se que os rios secos são definidos como o tipo mais extremo de ecossistemas fluviais não perenes, têm uma biodiversidade única sustentando espécies especializadas, muitas vezes terrestres.
Rios secos – serviços imateriais
Os autores também fazem referência aos serviços imateriais fornecidos pelos rios secos ao homem, tanto a nível subjetivo como psicológico, capazes de sustentar a qualidade de vida das pessoas e o futuro das populações humanas.
Os leitos secos dos rios oferecem uma grande variedade de atividades de lazer e recreação devido à sua acessibilidade, sendo uma fonte de inspiração para escritores, poetas, pintores e outros artistas, transmitem sensações físicas e psicológicas benéficas através da serenidade e da paz que proporcionam e constituem locais particularmente adequados para aprender sobre o ambiente e desfrutar dele.
Desta forma, as populações humanas que vivem à sua volta têm tendência para desenvolverem, cada vez mais, o seu próprio conhecimento ecológico local para gerir de forma sustentável os recursos que estes fornecem.
Este estudo demonstra que os rios secos albergam e suportam fauna e vegetação diversas e abundantes, são muito ativos no processamento biogeoquímico de nutrientes e matéria orgânica e fornecem numerosos e importantes serviços de ecossistema.
Os autores esperam que este conhecimento seja considerado pela sociedade, gestores e cientistas para melhorar a condição dos leitos secos dos rios e garantir os inúmeros serviços de ecossistema que oferecem e alertam para a necessidade de conservação, pois à medida que as mudanças climáticas impactam os ciclos hidrológicos, compreender e proteger os leitos secos de rios é vital, especialmente porque representam uma entidade ecológica única, distinta de outros rios não perenes.
Referência da notícia
María Rosario Vidal-Abarca, Rosa Gómez et al., “Defining Dry Rivers as the Most Extreme Type of Non-Perennial Fluvial Ecosystems”, Sustainability Journal, Published: 3 September 2020
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