Cientistas do Porto criam tinta ecológica que imita a natureza contra cracas nos cascos dos navios

Uma nova geração de tintas biológicas para embarcações promete eliminar a libertação de metais pesados que contaminam o ecossistema oceânico.

A rápida colonização de cracas e algas nos cascos dos navios gera avultados prejuízos ambientais e económicos. Foto: Picryl/domínio público
A rápida colonização de cracas e algas nos cascos dos navios gera avultados prejuízos ambientais e económicos. Foto: Picryl/domínio público

Nas profundezas dos oceanos, uma batalha silenciosa trava-se contra o metal das embarcações. Mal entram na água, os cascos dos navios sofrem a colonização imediata de algas, mexilhões e cracas. Conhecido no meio científico como bioincrustação marinha, este fenómeno natural asfixia a frota global.

O peso e o atrito destes pequenos hóspedes aumentam o consumo de combustível, elevam as emissões poluentes e aceleram a dispersão de espécies invasoras pelos portos mundiais.

Para combater este flagelo, a indústria naval recorre a químicos agressivos que envenenam a fauna marítima. Mas uma equipa da Universidade do Porto lidera agora uma alternativa inovadora, capaz de proteger as embarcações sem destruir a vida oceânica.

O veneno letal das tintas convencionais

As soluções convencionais assentam na lixiviação, um processo de libertação contínua de substâncias tóxicas diretamente no meio aquático. Embora mantenham as superfícies limpas, estes biocidas falham na seleção dos alvos, afetando gravemente espécies inofensivas.

Os químicos prejudicam o fitoplâncton essencial e travam a reprodução do zooplâncton, gerando anomalias no crescimento de bivalves e ouriços-do-mar.

Metais pesados de uso corrente, como o cobre e o zinco, revelam-se incapazes de uma decomposição rápida no ambiente. Ao se acumularem nos sedimentos dos fundos marinhos, envenenam os ecossistemas bentónicos, que têm uma função vital na reciclagem de nutrientes e decomposição de matéria orgânica.

A equipa da U.Porto é liderada pela docente e investigadora Marta Correia da Silva (à esquerda), da FFUP e do CIIMAR. Foto: Universidade do Porto
A equipa da U.Porto é liderada pela docente e investigadora Marta Correia da Silva (à esquerda), da FFUP e do CIIMAR. Foto: Universidade do Porto

A contaminação progride pela cadeia alimentar, depositando-se nos tecidos de peixes pequenos até atingir os predadores de topo e os humanos. Para agravar a situação, diversas macroalgas desenvolveram já imunidade ao cobre, reduzindo drasticamente a eficácia destes revestimentos poluentes.

A resposta tecnológica inspirada nos oceanos

O projeto NanoBioEscudo surge para quebrar este ciclo destrutivo. A iniciativa reúne a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto e o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental.

A coordenação cabe à cientista Marta Correia da Silva, cuja equipa patenteou moléculas inspiradas nos mecanismos de defesa da própria natureza. Estes novos aditivos combinam alta eficácia no combate à fixação de organismos com uma excelente biodegradabilidade.

Os primeiros ensaios laboratoriais revelaram um obstáculo físico importante, associado à dissolução precoce das moléculas na água do mar. A parceria científica resolveu a limitação através da engenharia molecular, imobilizando os componentes em nanomateriais inteligentes criados pela empresa Smallmatek.

O processo conta ainda com o apoio de micromateriais biogénicos produzidos na Universidade de Aveiro. O sistema inovador assegura uma libertação controlada do produto, alargando a durabilidade da proteção e minimizando o impacto ambiental.

Da escala laboratorial para a rota industrial

A transição da bancada do laboratório para os estaleiros navais exige uma capacidade de produção robusta. O financiamento europeu obtido através do programa Compete 2030 viabilizou a compra de um reator avançado de síntese química.

O equipamento permitiu multiplicar por 100 a capacidade de fabrico das substâncias ecológicas, elevando a fasquia das escassas miligramas iniciais para lotes de dez gramas.

Este salto quantitativo representa o marco decisivo para aproximar a descoberta científica da verdadeira escala industrial.

A incrustação de organismos marinhos nos cascos das embarcações, além de aumentar o consumo de combustível, acelera a dispersão de espécies invasoras pelos portos mundiais. Foto: Stefan Brending / Licença: Creative Commons CC-BY-SA-3.0 de
A incrustação de organismos marinhos nos cascos das embarcações, além de aumentar o consumo de combustível, acelera a dispersão de espécies invasoras pelos portos mundiais. Foto: Stefan Brending / Licença: Creative Commons CC-BY-SA-3.0 de

Os testes de validação prosseguem agora em ambiente real, abrindo caminho para uma nova era na sustentabilidade da marinha mercante. O sucesso desta tecnologia nacional demonstra que o futuro do comércio marítimo global depende diretamente do equilíbrio e da preservação do meio biológico.

Referência da notícia

Universidade do Porto. FFUP reforça produção de soluções sustentáveis contra a bioincrustação marinha.