Cientistas concluem que as secas mais intensas vão aumentar de frequência no futuro nestas regiões da Europa do Norte

Das secas de 2018, 2022 e 2023 que afetaram grande parte da Escandinávia, a de 2018 foi a mais severa, que resultou em problemas graves, como escassez de água, perdas de colheitas, ondas de calor, incêndios florestais e redução da produção de energia hidroelétrica.

Muitas regiões do Norte da Europa têm sido atingidas por secas severas em anos recentes.
Muitas regiões do Norte da Europa têm sido atingidas por secas severas em anos recentes.

Um estudo recente, utilizando um novo modelo climático regional, analisou padrões futuros de situação de seca na Fenoscândia que engloba a península Escandinava (Noruega, Suécia), a Finlândia, a península de Cola e a Carélia (Rússia).

Modelos climáticos regionais para estudo da frequência e intensidade das secas

Atualmente, as projeções climáticas indicam que, com as alterações climáticas a região da Fenoscândia ou Feno-Escandinávia, como também é conhecida, poderá enfrentar no futuro, paradoxalmente, tanto inundações mais intensas como secas sazonais mais severas.

No entanto, poucas investigações e estudos exploram esta aparente contradição e as suas implicações com a frequência das secas.

A maioria das projeções de seca atuais baseia-se em modelos climáticos globais com uma resolução muito baixa e as tendências futuras da seca nos países nórdicos têm sido incertas.

No entanto, com os modelos climáticos regionais que permitem convecção (CPRCMs-Convection-Permitting Regional Climate Models), já é possível obter simulações melhoradas da precipitação de verão e assim indiretamente das situações de seca.

Os modelos regionais cobrem áreas limitadas, oferecendo maior resolução e mais detalhes topográficos do que os modelos globais
Os modelos regionais cobrem áreas limitadas, oferecendo maior resolução e mais detalhes topográficos do que os modelos globais

Estes modelos são um tipo avançado de modelos climáticos regionais usados para simular o clima local com resolução espacial muito alta, em escalas inferiores a 4 km e resolvem a convecção explicitamente, em vez de depender da parametrização.

Neste estudo foram utilizados dados de uma execução recente do CPRCM sobre a Fenoscândia com uma resolução de aproximadamente 3 km, para avaliar as mudanças nas probabilidades de seca e sua intensidade na região.

Atendendo que a convecção refere-se a movimentos ascendentes da atmosfera associados à precipitação, analisa-se, neste caso, a convecção associada à precipitação de verão, pois o estudo pretende avaliar situações de seca.

Além disso, foi utilizado também o Índice de Precipitação Padronizado (SPI-Standardized Precipitation Index) em diferentes limiares, que é um indicador climático usado para medir e monitorizar secas e períodos anormalmente húmidos com base apenas na quantidade de precipitação (chuva ou neve) registada ao longo do tempo.

O SPI compara a precipitação observada num determinado período numa determinada região com a média histórica de precipitação para aquele mesmo local e período, medindo assim a anomalia de precipitação em relação à média histórica.

Este estudo investigou as mudanças futuras na frequência das secas utilizando um novo método de diferentes limiares de seca. Ao considerar vários níveis de intensidade de seca, surgiu um sinal claro de alterações climáticas.

Prevê-se que as secas moderadas diminuam de frequência na região da Feno-Escandinávia, mas, no entanto, prevê-se que as secas mais intensas (e raras) aumentem de frequência no futuro.

Para as regiões sul e central da Fenoscândia, múltiplas secas sem precedentes com valores do Índice de Precipitação Padronizado (SPI) abaixo de -4 começam a aparecer em quase todas as projeções futuras.

Para comparação, o valor mais baixo do SPI atingido durante a seca mais severa da história recente, em 2018, foi de cerca de -3 ou um pouco abaixo disso durante um a dois meses.

Embora seja difícil comparar os valores do SPI de diferentes conjuntos de dados, os modelos projetam uma alta probabilidade de secas piores do que a de 2018 no futuro.

Neste estudo também foram analisadas respostas de modelos climáticos regionais (RCM-Regional Climate Models), com resolução de 12 km e convecção parametrizada.

Em geral, os RCMs tradicionais com uma resolução de cerca de 12 km mostram uma frequência mais baixa das secas meteorológicas mais intensas em comparação com o CPRCM. Isto mostra que passar de uma escala RCM para uma escala CPRCM altera as projeções de seca, especialmente no que diz respeito ao aumento de secas excecionais e sem precedentes.

Sugestões dos autores do estudo para o futuro

A investigação apresentada, que indica uma tendência para secas mais intensas nas projeções futuras, enfatiza a necessidade de investigação contínua sobre as condições de seca na região da Fenoscândia.

Os autores deste estudo propõem utilizar a metodologia apresentada neste estudo para validar os resultados, utilizando dados de conjuntos de RCMs existentes. Isto permitiria comparar mais modelos e simulações com uma série de dados mais longa e contínua, melhorando assim a precisão dos valores do SPI.

Além disso, os dados meteorológicos apresentados neste estudo poderiam ser utilizados para avaliar melhor como o aumento do défice de precipitação influencia o estado do solo e, consequentemente, a seca agrícola.

Uma vantagem do método utilizado neste estudo é a possibilidade de o utilizar para quaisquer índices estatísticos de seca, como o SPI, o Índice Padronizado de Precipitação, Evapotranspiração (SPEI), o Índice Padronizado de Escoamento (SRI), bem como índices padronizados construídos individualmente.

As secas têm ameaçado a estabilidade agrícola e a segurança alimentar
As secas têm ameaçado a estabilidade agrícola e a segurança alimentar

Assim sendo, os autores deste artigo recomendam a utilização do método de múltiplos limiares para a seca na análise de qualquer índice de seca padronizado, como um método simples, eficaz e mais completo para investigar secas.

Este estudo aproxima os decisores políticos e os cientistas climáticos de uma melhor compreensão de como se prevê que a frequência das secas mude no futuro.

Referência da notícia

“Unprecedented extreme meteorological droughts simulated in Fenno-Scandinavia with high-resolution climate models”, Häberli, R., Christensen, O.B., Thejll, P. et al. Climate Dynamics, vol 64, 127. Published: 02 March 2026