As aves não estão a adaptar-se às alterações climáticas

Várias espécies de climas temperados adiantaram os seus ciclos de vida, mas não está a ser suficiente, segundo sugere um estudo. Entre elas, as aves são o caso mais evidente. Contamos-lhe tudo aqui.

Alfredo Graça Alfredo Graça 28 Jul. 2019 - 22:45 UTC


A investigação científica centrou-se em pássaros porque são das espécies no reino animal que mais dados possuem.

Os fósseis e as rochas contam-nos que a Terra sofreu cinco extinções massivas, nas quais fenómenos naturais, como erupções vulcânicas ou impactos de asteróides, dizimaram um elevadíssimo número de espécies animais e vegetais num curto espaço de tempo, à escala evolutiva. Entre outros fatores, estes fenómenos transformaram o clima do planeta de uma forma tão repentina, que muitos seres vivos simplesmente não conseguiram adaptar-se e desapareceram. Felizmente, com o passar dos milhões de anos, outras novas espécies ocuparam o espaço e a vida continuou a abrir caminho.

Cada vez mais estudos sugerem que nos últimos séculos, as alterações climáticas e a atividade humana estão a provocar uma extinção massiva; uma que poderá ser muito danosa para a civilização contemporânea. É difícil poder visualizar estes efeitos, porque requer trabalhar durante décadas e quase estudar espécie por espécie. Agora, um estudo acabado de publicar na Nature Communications, que avaliou mais de 10.000 estudos científicos, concluiu que muitas das aves que melhor sobrevivem em climas temperados estão a adiantar os seus ciclos de vida, mas isto não lhes está a permitir melhorar a sua sobrevivência, o que sugere que realmente não se estão a adaptar às alterações climáticas.

Adaptar ou morrer

Os animais adaptam-se de forma natural às variações do clima, independentemente das origens que estas tenham. O mais simples é que alterem o seu comportamento para se sincronizarem com as condições climáticas, simplesmente adiantando ou atrasando os seus ciclos: por exemplo, mudam o momento em que hibernam, reproduzem ou migram. Além disso, noutros casos, pode acontecer que a forma ou o tamanho do corpo também se altere.

Para os cientistas é fundamental compreender em que medida estas mudanças estão a produzir-se e se estão a ser eficazes. Para averiguar isso, uma equipa internacional de 64 cientistas, liderados por Viktoriia Radchuk, Alexandre Courtiol e Stephanie Kramer-Schadt, do Instituto Leibniz-IZW na Alemanha, avaliaram mais de 10.000 estudos científicos sobre aves de climas temperados.

Recorrendo a uma combinação de técnicas de meta-análise e análise permitiu a estes cientistas avaliar se estas mudanças observadas estão vinculadas a uma maior sobrevivência ou a uma maior descendência. Os resultados mostraram que não. De facto, observou-se que as aves estudadas tendem a reproduzir-se precocemente, mas isto não aparenta ser especialmente vantajoso.

Fazê-lo rapidamente

A ideia é que as espécies possam permanecer no habitat que ocupam atualmente, sempre e quando possam adaptar-se suficientemente rápido às alterações climáticas. “Este não parece ser o caso, porque inclusivamente as populações que estão a alterar-se fazem-no a um ritmo que não garante a sua persistência», disse em comunicado Alexandre Courtiol, autor sénior do artigo.

Neste estudo obteve-se outra prova das alterações climáticas: as aves mais comuns dos climas temperados estão a adiantar o momento em que se reproduzem: “Demonstramos que nas regiões temperadas o aumento das temperaturas está associado com o adiantamento de eventos biológicos” afirmou Viktoriia Radchuk, que explicou que a sua investigação centrou-se em pássaros porque estes estão entre os poucos animais cujos dados são tão completos.

Os cientistas avaliaram a situação de espécies de aves abundantes e comuns, como o chapim-real (Parus major), papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) e a pega-rabuda (Pica pica), que se consideram como bem adaptadas às alterações climáticas. Contudo, os seus resultados não suportam esta ideia.

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