A ciência desafia o mito de que basta o amor e uma cabana para construir uma família

Estudo português agora distinguido mostra que a prosperidade poderá ter ajudado a transformar os sentimentos na base das relações conjugais modernas.

Antes do romantismo ocupar o centro da vida conjugal, a literatura já celebrava a paixão. O estudo mostra que a ternura e o compromisso ganharam importância ao longo dos séculos. Imagem: O Último Beijo de Romeu e Julieta, de Francesco Hayez (1823) / domínio público
Antes do romantismo ocupar o centro da vida conjugal, a literatura já celebrava a paixão. O estudo mostra que a ternura e o compromisso ganharam importância ao longo dos séculos. Imagem: O Último Beijo de Romeu e Julieta, de Francesco Hayez (1823) / domínio público

"Amor e uma cabana" é uma expressão que se tornou uma das imagens mais persistentes do romantismo popular, sugerindo que os sentimentos são suficientes para vencer qualquer dificuldade.

Um estudo português agora distinguido com um prémio científico internacional convida a olhar para essa ideia de uma perspetiva diferente. Não para negar a força do amor, mas para perguntar quando é que passou a ocupar um lugar tão importante na escolha de um companheiro.

A investigação, desenvolvida por Maurício Martins, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, recebeu recentemente um prémio da Society for the Scientific Study of Sexuality. O reconhecimento voltou a destacar um trabalho que desafia uma das ideias mais enraizadas sobre as relações humanas.

Um olhar mais pragmático

O amor romântico, segundo os investigadores, poderá não ser apenas uma construção cultural ou filosófica. As melhorias das condições económicas poderão também ter desempenhado um papel decisivo na forma como orientou a vida familiar na Europa Ocidental.

Jane Austen retratou uma época em que o casamento começava a libertar-se dos interesses familiares. O estudo sugere que a melhoria das condições de vida reforçou o peso do amor na escolha de um companheiro. Ilustração: Richard Bentley (1833) / domínio público
Jane Austen retratou uma época em que o casamento começava a libertar-se dos interesses familiares. O estudo sugere que a melhoria das condições de vida reforçou o peso do amor na escolha de um companheiro. Ilustração: Richard Bentley (1833) / domínio público

A proposta não pretende reduzir um sentimento a números ou explicar a intimidade através da economia. O que procura compreender é outra questão. Porque é que o amor romântico se tornou, em determinado momento da história, um critério central para escolher um parceiro e construir uma família?

Nem sempre foi o amor a decidir

Hoje parece natural associar casamento, compromisso e afeto. Durante grande parte da história europeia, porém, as uniões resultavam sobretudo de interesses familiares, património, alianças sociais ou estratégias de sobrevivência. O amor podia existir, mas raramente ocupava o centro da decisão.

Foi precisamente esta transformação que despertou a curiosidade da equipa de investigação. Em vez de procurar explicações apenas na religião, na filosofia ou na evolução dos costumes, os autores colocaram uma hipótese diferente.

O crescimento económico poderá ter criado as condições necessárias para que o amor romântico ganhasse uma importância inédita nas relações conjugais.

O estudo não diz que a prosperidade fez nascer o amor. Sugere, antes, que a melhoria das condições de vida terá permitido aos sentimentos assumir um lugar cada vez mais decisivo na escolha do companheiro.

À procura das palavras

Responder a esta pergunta obrigou os investigadores a seguir um caminho pouco convencional. Em vez de inquirirem casais ou analisarem apenas registos históricos, procuraram pistas na literatura produzida ao longo de vários séculos.

Recorrendo a técnicas de processamento de linguagem natural, a equipa analisou milhares de textos, incluindo peças de teatro, para acompanhar a evolução da importância atribuída ao amor romântico.

Os algoritmos identificaram padrões associados a duas dimensões distintas do sentimento. A paixão, marcada pela intensidade emocional e pelo desejo, e a ternura, relacionada com a intimidade, o cuidado e o compromisso.

O Beijo, de Gustav Klimt, evoca intimidade e estabilidade. A investigação mostra que a intimidade ganhou espaço na forma como o amor passou a ser entendido. Imagem: domínio público
O Beijo, de Gustav Klimt, evoca intimidade e estabilidade. A investigação mostra que a intimidade ganhou espaço na forma como o amor passou a ser entendido. Imagem: domínio público

Esses resultados foram depois comparados com indicadores económicos e demográficos da Europa moderna, permitindo observar se existia alguma relação entre a evolução das condições de vida, a forma como o amor era retratado e as mudanças no comportamento das famílias.

A prosperidade abriu espaço ao amor

A comparação entre as obras literárias e os indicadores históricos revelou um padrão consistente. O aumento do nível de vida precedeu o crescimento da importância atribuída ao amor romântico. Essa valorização foi mais tarde acompanhada por mudanças nos padrões de casamento e de fertilidade.

Esta sequência é compatível com a hipótese de que a prosperidade económica criou condições para que os sentimentos assumissem um papel cada vez mais relevante na formação dos casais.

Ao reduzir a pressão da sobrevivência diária, as sociedades puderam atribuir maior importância à escolha do parceiro, ao compromisso duradouro e ao investimento na educação dos filhos.

A análise identificou, ainda, uma evolução na própria forma como o amor era retratado. Ao longo do tempo, as referências à paixão passaram a coexistir com uma valorização crescente da ternura, entendida como intimidade, cuidado e estabilidade emocional. Essa mudança aproxima-se da ideia contemporânea de amor romântico, assente não apenas na intensidade da atração, mas também na construção de uma relação duradoura.

Muito mais do que uma mudança cultural

Os investigadores sublinham que os resultados não significam que a economia explique, por si só, o surgimento do amor romântico. A religião, a filosofia, a urbanização, as transformações jurídicas e políticas ou a evolução dos costumes também poderão ter contribuído para essa mudança.

O próprio estudo reconhece limitações importantes. As peças de teatro e as restantes obras literárias analisadas não refletem necessariamente o comportamento da população nem permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre prosperidade económica e transformação das relações conjugais.

A convergência entre os diferentes conjuntos de dados oferece, ainda assim, evidências de que a melhoria das condições de vida poderá ter desempenhado um papel relevante numa mudança social de grande alcance. Em vez de contrariar as explicações culturais, a investigação sugere que estas podem ter sido acompanhadas por condições materiais que favoreceram uma nova forma de viver as relações afetivas.

Em Casablanca, o amor cruza-se com o dever e com a liberdade de escolha. O estudo recorda que os sentimentos também refletem as mudanças da sociedade. Imagem: cartaz original do filme Casablanca (1942) / domínio público.
Em Casablanca, o amor cruza-se com o dever e com a liberdade de escolha. O estudo recorda que os sentimentos também refletem as mudanças da sociedade. Imagem: cartaz original do filme Casablanca (1942) / domínio público.

O estudo não procura explicar por que as pessoas se apaixonam. A questão é, de certa forma, mais ambiciosa. Procura compreender quando é que o amor passou a ocupar um lugar central na escolha de um companheiro e na construção de uma família.

Em Os Amantes, René Magritte lembra que o amor conserva sempre uma parte de mistério. A investigação mostra que a ciência ajuda a compreender a sua história, mas não esgota o seu significado. Imagem: domínio público.
Em Os Amantes, René Magritte lembra que o amor conserva sempre uma parte de mistério. A investigação mostra que a ciência ajuda a compreender a sua história, mas não esgota o seu significado. Imagem: domínio público.

É pouco provável que exista uma resposta única para uma experiência profundamente humana. Mas, ao cruzar literatura, psicologia, economia, história e ciência de dados, esta investigação lembra que até os sentimentos mais íntimos têm uma história. Compreender essa história ajuda-nos a perceber melhor não apenas como amamos, mas também a sociedade que fomos construindo ao longo dos séculos.

Referência da notícia

Mauricio de Jesus Dias Martins & Nicolas Baumard. Reproductive Strategies and Romantic Love in Early Modern Europe. Archives of Sexual Behavior.
Universidade do Porto. Maurício Martins premiado por estudo sobre amor romântico.