A natureza como laboratório: O lagarto que revelou um dos segredos da medicina moderna

O monstro-de-Gila, um lagarto venenoso dos desertos americanos, esconde uma molécula que ajudou a abrir caminho para uma nova geração de medicamentos contra a obesidade. Venha saber mais aqui!

O monstro-de-Gila (Heloderma suspectum) vive nos desertos do sudoeste dos Estados Unidos e do México e foi fundamental para a descoberta da exendina-4.
O monstro-de-Gila (Heloderma suspectum) vive nos desertos do sudoeste dos Estados Unidos e do México e foi fundamental para a descoberta da exendina-4.

Nos desertos do sudoeste dos Estados Unidos e do México vive um animal de aparência pré-histórica que passa grande parte do tempo escondido. O monstro-de-Gila (Heloderma suspectum) é lento, robusto e venenoso, mas, dentro da sua biologia, os cientistas encontraram uma pista que ajudou a transformar a investigação sobre diabetes e obesidade.

Segundo um estudo avançado pela BBC Mundo, a história começa com uma substância encontrada no veneno deste lagarto, a exendina-4. A molécula chamou a atenção dos investigadores uma vez que apresenta semelhanças com o GLP-1, uma hormona produzida naturalmente pelo organismo humano depois das refeições e envolvida na regulação da glicose e do apetite.

Ao contrário do GLP-1 humano, que é rapidamente degradado, a exendina-4 permanece ativa durante mais tempo. Foi esta característica que abriu caminho a uma nova geração de medicamentos. A versão sintética da exendina-4 deu origem à exenatida, comercializada como Byetta, um dos primeiros medicamentos baseados neste mecanismo.

A investigação sobre o GLP-1 prosseguiu depois por diferentes caminhos, conduzindo ao desenvolvimento de moléculas mais modernas, entre elas a semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy.

Uma descoberta nada ao acaso

O caso do monstro-de-Gila mostra como a natureza pode funcionar como um enorme laboratório de investigação. Ao longo da evolução, os animais desenvolveram moléculas extremamente específicas para sobreviver, capturar presas, defender-se ou regular o próprio organismo.

Algumas dessas moléculas podem, quando estudadas e modificadas em laboratório, adquirir propriedades úteis para a medicina. O veneno das serpentes, por exemplo, já forneceu moléculas que estiveram na origem de medicamentos utilizados no tratamento da hipertensão. Também os caracóis marinhos e as sanguessugas contribuíram para a investigação de substâncias com aplicações terapêuticas.

A investigação farmacêutica baseada na natureza está longe de ser uma curiosidade histórica.

Assim de acordo com uma publicação na revista Natural Product Reports, da Royal Society of Chemistry, foram identificados 579 novos medicamentos aprovados globalmente entre 2014 e 2024, dos quais 56 foram classificados como produtos naturais ou derivados de produtos naturais.

E se a próxima grande descoberta ainda estiver na natureza?

É precisamente aqui que a história do monstro-de-Gila ganha uma dimensão maior. Milhares de espécies continuam a ser pouco estudadas e muitas desaparecem antes de os cientistas conseguirem conhecer as suas características biológicas.

Cada espécie perdida representa, potencialmente, a perda de moléculas, mecanismos e informação genética que poderiam vir a ter interesse para a medicina.

“A natureza continua a ser uma fonte rica de novas moléculas com potencial terapêutico.” De acordo com Butler, M. S. et al. (2026)

A própria biodiversidade é, por isso, mais do que uma coleção de animais e plantas. É também um gigantesco arquivo biológico construído ao longo de milhões de anos de evolução.

Os monstros-de-Gila passam a maior parte das suas vidas escondidos, e os cientistas acreditam que o seu veneno está relacionado tanto com a defesa como com o ataque.
Os monstros-de-Gila passam a maior parte das suas vidas escondidos, e os cientistas acreditam que o seu veneno está relacionado tanto com a defesa como com o ataque.

Natalie Kyriacou, ambientalista e fundadora da organização My Green World, tem chamado a atenção precisamente para esta relação entre conservação da natureza e inovação médica. Na sua reflexão sobre o monstro-de-Gila, defende que, se a indústria farmacêutica beneficia de descobertas relacionadas com a natureza, também deve existir uma maior preocupação com a proteção dos ecossistemas que tornam essas descobertas possíveis.

O verdadeiro valor de uma espécie pode ser invisível

Existe, contudo, uma nuance importante nesta história. Dizer que o monstro-de-Gila “criou o Ozempic” simplifica demasiado uma cadeia científica muito mais complexa. A semaglutida não é simplesmente uma versão da molécula retirada do veneno do lagarto.

O desenvolvimento dos medicamentos modernos baseados no GLP-1 envolveu diferentes linhas de investigação e alterações químicas realizadas em laboratório.

Ainda assim, a descoberta da exendina-4 foi fundamental para demonstrar o potencial terapêutico de moléculas que atuam sobre o mesmo recetor. A verdadeira lição está, portanto, menos num medicamento específico e mais naquilo que a natureza pode ensinar à ciência. A medicina moderna já encontrou antibióticos em microrganismos, analgésicos em organismos marinhos e moléculas terapêuticas em venenos.

E continuam a existir espécies cujo potencial ainda desconhecemos.
Proteger a biodiversidade pode significar, assim, preservar muito mais do que paisagens ou animais ameaçados, pode significar manter aberto um enorme laboratório natural onde algumas das próximas descobertas científicas ainda aguardam para ser encontradas.