Porque é que não haverá mulheres na missão Artemis III, que regressará à Lua: a NASA tenta esclarecer a polémica

A ausência de mulheres na missão Artemis III suscitou um intenso debate internacional. A NASA pronunciou-se sobre a controvérsia para explicar como foi selecionada a tripulação e defender que os critérios foram exclusivamente profissionais.

A tripulação da Artemis III (da esquerda para a direita): Andre Douglas, Luca Parmitano, Randy Bresnik e Frank Rubio. NASA/Bill Stafford
A tripulação da Artemis III (da esquerda para a direita): Andre Douglas, Luca Parmitano, Randy Bresnik e Frank Rubio. NASA/Bill Stafford

Quando a NASA apresentou oficialmente a tripulação da Artemis III, a missão que pretende levar novamente seres humanos à superfície da Lua pela primeira vez desde 1972, a surpresa foi enorme: todos os astronautas encarregados de alunizar são homens.

Uma circunstância que suscitou críticas porque, durante anos, o programa Artemis foi apresentado, precisamente, como o projeto que tornaria possível que uma mulher caminhasse na Lua.

Perante esta controvérsia, a agência espacial norte-americana quis esclarecer publicamente os motivos desta decisão e pediu respeito para com uma tripulação que, segundo insiste, foi escolhida pelas suas capacidades técnicas e experiência, sem ter em conta critérios de género.

Uma promessa que alimentou as expectativas de justiça

Desde o lançamento do programa Artemis, a NASA tornou a diversidade uma das suas mensagens mais reconhecíveis.

Durante a apresentação dos seus objetivos, a agência falou em levar «a primeira mulher e a primeira pessoa de cor» à superfície lunar, uma declaração que simbolizava uma nova etapa na exploração espacial, muito diferente daquela protagonizada pelas históricas missões Apollo.

Essa promessa gerou enormes expectativas, tanto dentro como fora do setor aeroespacial. Por isso, a composição final da Artemis III revelou-se decepcionante para aqueles que acreditavam que os anúncios da NASA representavam uma forma de corrigir uma dívida histórica: as doze pessoas que pisaram na Lua entre 1969 e 1972 eram homens norte-americanos.

A explicação da NASA

A agência espacial respondeu às críticas, garantindo que a seleção da tripulação foi feita com base em critérios exclusivamente profissionais. Segundo explicou, os astronautas selecionados possuem as competências necessárias para enfrentar uma missão considerada uma das mais complexas da história recente da exploração espacial.

A NASA também solicitou que o debate não ponha em causa a preparação dos membros da equipa, sublinhando que todos eles possuem uma longa experiência em operações espaciais, formação técnica e gestão de situações de grande exigência.

A instituição insiste que a ausência de mulheres nesta missão específica não implica qualquer alteração no seu compromisso com a igualdade de oportunidades nem com a integração de perfis diversificados nas suas futuras expedições.

O debate sobre a representatividade

Apesar das explicações oficiais, a controvérsia continua em aberto. Vários especialistas recordam que a representatividade também deve desempenhar um papel relevante em programas científicos financiados com recursos públicos e com enorme projeção internacional.

O facto é que, dos 37 astronautas ativos da NASA, 15 são mulheres, o que representa 40 por cento. Então, como é possível que na seleção da tripulação da Artemis III, um programa de grande impacto público, não se verifique um mínimo de equilíbrio de género?

A engenheira Belinda Esparza Estrada posa ao lado da astronauta Jessica Watkins. NASA.
A engenheira Belinda Esparza Estrada posa ao lado da astronauta Jessica Watkins. NASA.

Por isso, não é de admirar que, para algumas vozes, como as das cientistas divulgadoras Emily Calandrelli e Camille Bergin, ou a da astronauta comercial Sian Proctor, o facto de, afinal, não haver nenhuma mulher na missão à Lua represente um retrocesso em relação à mensagem de inclusão que acompanhou o nascimento do programa Artemis.

A importância de deixar de trabalhar nas sombras

Na NASA, a mulher já não desempenha um papel excecional ou simbólico, mas sim estrutural. Participa em todas as fases da exploração espacial, desde a conceção de uma missão até à sua execução no espaço, e é uma peça fundamental nos projetos que marcarão o futuro da exploração humana do Sistema Solar.

Por isso, incorporá-las na parte mais visível das missões é importante pelo que isso representa em termos de igualdade, justiça, representação e também progresso científico.

E, além disso, porque a sua presença é uma fonte de inspiração. Ver mulheres a participar em algumas das missões científicas mais complexas do mundo contribui para que mais raparigas e jovens se interessem por carreiras STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) quando, em muitos países, ainda existe uma disparidade de género nas universidades que está a fazer com que se perca o seu talento.

O facto de uma mulher participar numa missão lunar não irá alterar a ciência que será realizada no satélite, mas corrigiria a sua ausência histórica, que nunca foi uma questão de capacidade, mas sim de oportunidades.