Ciência prova a existência da prática ritual contínua mais antiga do mundo em caverna australiana
Descoberta na Austrália revela rituais indígenas praticados desde a Era do Gelo. Saiba mais aqui!

Estudos arqueobotânicos realizados na Caverna de Cloggs, localizada no território ancestral dos GunaiKurnai em Gippsland (sudeste da Austrália), revelaram evidências científicas de práticas rituais contínuas ao longo de aproximadamente 25 000 anos. O estudo foi conduzido por investigadores em colaboração com a GunaiKurnai Land and Waters Aboriginal Corporation, combinando arqueologia microbotânica avançada e o conhecimento tradicional dos Guardiões e Anciãos GunaiKurnai.
Metodologia e descobertas botânicas
A investigação centrou-se na análise de fitólitos, microscópicas estruturas de sílica formadas no interior dos tecidos vegetais que se preservam no solo durante milénios. Para isolar as atividades humanas das contribuições da fauna local, os cientistas analisaram tanto as camadas sedimentares da caverna como excrementos preservados de possums-comuns (Trichosurus vulpecula).
- Predomínio de gramíneas: A coleção de fitólitos é maioritariamente dominada por gramíneas (família Poaceae), com uma presença insignificante ou nula de plantas lenhosas (árvores e arbustos).

- Transporte de plantas inteiras: a presença conjunta de morfotipos de inflorescências (flores), folhas e caules provou que os antigos ancestrais recolhiam e transportavam plantas de gramíneas inteiras para o interior da caverna.
- Evidência de fogo humano: a descoberta de fitólitos carbonizados (queimados ou parcialmente fundidos) em múltiplas camadas sedimentares serviu como indicador inequívoco da queima intencional destas plantas trazidas pelos humanos.
Uso ritual da caverna e práticas culturais
A Caverna de Cloggs localiza-se numa zona escura onde não existe crescimento natural de plantas.
De acordo com o conhecimento tradicional e registos etnográficos do século XIX, a caverna era frequentada por mulla-mullung, homens e mulheres de grande sabedoria e poderes espirituais.

As plantas eram intencionalmente queimadas em fogueiras de baixa temperatura, gerando finas camadas expansivas de cinza e fumo. Na cultura GunaiKurnai, a cinza, o carvão e as gramíneas desempenhavam papéis centrais em rituais de cura, feitiçaria, proteção e cerimónias de iniciação.
Conexão com outras instalações rituais no local
A descoberta dos fitólitos queimados complementa outros achados arqueológicos excecionais na Caverna de Cloggs:

- Fogueiras rituais em miniatura (11 000 a 12 000 anos BP): pequenas fogueiras que continham varas de Casuarina aparadas e untadas com gordura animal ou humana, correspondendo exatamente às descrições etnográficas de rituais de maldição.
- Pedra erguida (Standing Stone, ~2 000 a 1 600 anos BP): uma estrutura de pedra com cerca de 28 cm de altura, rodeada por 73 camadas finas de cinza decorrentes da queima repetida de vegetação macia ao seu redor ao longo de séculos.
A análise microbotânica confirma que os GunaiKurnai recolhiam e queimavam gramíneas na Caverna de Cloggs há cerca de mil gerações. A integração entre a ciência dos fitólitos e a tradição oral demonstra uma impressionante continuidade cultural e espiritual no sudeste australiano, ligando as práticas do Pleistoceno ao Holoceno.
Referência da notícia
Grono E, David B, Mullett R, Stevenson J, Petchey F, Delannoy J-J, McDowell MC, Miller DJ, Morley MW, Fresløv J, Jenkin D, GunaiKurnai Land e Waters Aboriginal Corporation. (2026). Phytoliths from Cloggs Cave, GunaiKurnai country (southeastern Australia) reveal the gathering of whole grasses for burning practices inside the cave..