Como um simples descuido arruinou missão da NASA a Marte (e custou mais de 100 milhões de dólares)

Um pequeno descuido, como o uso de unidades incorretas, pôs fim à missão Mars Climate Orbiter e custou mais de 100 milhões de dólares. Saiba como a NASA perdeu a sua nave espacial em Marte devido a um erro que ninguém previu.

Mars Climate Orbiter
A sonda Mars Climate Orbiter da NASA carregava instrumentos projetados para estudar a estrutura vertical da atmosfera marciana e servir como repetidor de comunicações para futuras missões de superfície, uma função essencial que nunca chegou a desempenhar.

Acompanhamos muitas missões da NASA por décadas e, quase sem perceber, presumimos que todas transcorrem sem problemas. Foguetes são lançados, sondas pousam, robôs enviam imagens de milhões de quilómetros de distância.

No entanto, mesmo no ambiente mais sofisticado da Terra, um erro aparentemente insignificante pode arruinar tudo. E foi exatamente isso que aconteceu numa das missões mais promissoras a Marte no final do século XX.

Uma jornada ambiciosa ao planeta vermelho

Foi em 1999 que a NASA lançou a Mars Climate Orbiter, uma sonda projetada para estudar a atmosfera do planeta Marte, o seu clima e a distribuição do vapor de água.

O objetivo desta missão era claro: compreender melhor o comportamento climático do planeta vermelho e servir de apoio para futuras missões de pouso.

A nave espacial, construída pela empresa aeroespacial Lockheed Martin, fazia parte do programa "Faster, Better, Cheaper", uma filosofia da NASA que visava reduzir custos e acelerar os cronogramas sem sacrificar os resultados científicos.

Com um orçamento de aproximadamente US$ 125 milhões (mais US$ 80 milhões para lançamento e operações), a missão representou um investimento estratégico na exploração de Marte.

NASA e Lockheed Martin: uma colaboração fracassada

Como acontece na maioria das missões espaciais, a NASA não trabalhou sozinha. A Lockheed Martin foi responsável pelo projeto e desenvolvimento de grande parte do sistema de navegação da sonda, enquanto o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA ficou responsável pelo controlo da missão no espaço.

Durante quase dez meses, tudo pareceu correr conforme o planeado. A sonda Mars Climate Orbiter percorreu mais de 670 milhões de quilómetros sem nenhum incidente aparente. Mas o problema não estava nos motores ou nos painéis solares. Era algo muito mais prosaico: unidades de medida.

Um erro de cálculo silencioso que vinha a formar-se há meses

A falha resultou de uma falta básica de coordenação. A Lockheed Martin usou unidades imperiais (libras-força por segundo) para calcular a propulsão dos pequenos propulsores da nave espacial. A equipa do JPL, por outro lado, assumiu que esses dados estavam expressos em unidades métricas (newtons por segundo), o padrão usado pela NASA.

A diferença pode parecer mínima no papel, mas no espaço ela revela-se fatal. Como resultado, a sonda ajustou a sua trajetória com dados incorretos durante meses. O problema é que ninguém detetou a discrepância a tempo.

Uma entrada orbital que terminou em desastre

O momento crítico chegou a 23 de setembro de 1999, com a inserção orbital em torno de Marte. A sonda Mars Climate Orbiter deveria ser posicionada a cerca de 140 quilómetros acima da superfície do planeta. No entanto, devido a erros acumulados, ela desceu para cerca de 57 quilómetros, muito perto.

Nessa altitude, o atrito com a atmosfera marciana foi fatal. Os engenheiros perderam contacto com a nave espacial, e nunca mais se teve notícias dela. Provavelmente desintegrou-se ou foi ejetada para o espaço profundo.

Um golpe para a NASA que mudou para sempre a sua forma de trabalhar

O prejuízo financeiro ultrapassou os 100 milhões de dólares, mas o impacto foi muito maior. A missão gémea, a Mars Polar Lander, falhou alguns meses depois, levando a uma reformulação completa do programa de Marte da NASA.

O relatório subsequente foi devastador: falhas de comunicação, falta de verificações cruzadas e uma confiança excessiva de que “tudo estava bem”. Desde então, a NASA reforçou os seus protocolos, padronizou os processos e transformou esse erro num estudo de caso obrigatório para engenheiros aeroespaciais do mundo inteiro.