UE atribui Selo de Património Europeu ao Abrigo do Lagar Velho em Leiria

A Comissão Europeia reconheceu este sítio arqueológico como um legado fundamental da História da Europa. Descubra aqui como este lugar mudou radicalmente o nosso conhecimento sobre a evolução da espécie humana.

O Abrigo do Lagar Velho, em Leiria, foi um dos 13 sítios classificados como Património Europeu 2025. Foto: Centro de Interpretação Ambiental do Abrigo do Lagar Velho
O Abrigo do Lagar Velho, em Leiria, foi um dos 13 sítios classificados como Património Europeu 2025. Foto: Centro de Interpretação Ambiental do Abrigo do Lagar Velho

A Comissão Europeia distinguiu o Abrigo do Lagar Velho, em Leiria, com o Selo do Património Europeu 2025. O estatuto foi oficialmente atribuído esta semana e reconhece o seu papel fundamental na história e na cultura da Europa.

Situado no Vale do Lapedo, o Abrigo do Lagar Velho corresponde a um sítio arqueológico, descoberto em 1998. O lugar destacou-se por abrigar a sepultura de uma criança do Paleolítico Superior em Portugal.

Conhecido como Menino do Lapedo, este foi o primeiro esqueleto preservado da Idade da Pedra Lascada e está classificado como um Tesouro Nacional desde 2021.

A descoberta científica marcou a paleoantropologia internacional, pelas características relativas a Neandertal e Homo sapiens do achado, que se crê ter sido sepultado há 29 mil anos.

A história da humanidade contada por uma criança

O que torna este lugar tão especial é o facto de ser a única sepultura humana deste período conhecida em toda a Península Ibérica. O seu estudo trouxe novos conhecimentos sobre modos de vida e rituais fúnebres celebrados por homens e mulheres que viveram na Europa há dezenas de milhares de anos.

O que torna a criança de Lapedo extraordinária é ser fruto da união de duas espécies humanas diferentes. Foto: Nuno Farinha, Museu de Leiria
O que torna a criança de Lapedo extraordinária é ser fruto da união de duas espécies humanas diferentes. Foto: Nuno Farinha, Museu de Leiria

Aproveitando uma reentrância natural na parede de fundo deste abrigo, na margem esquerda do Vale do Lapedo, um grupo de caçadores-recolectores do Período Gravetense depositou aí o corpo de uma criança que terá morrido no seu quinto ano de vida.

As cerimónias envolveram um ritual cuidadoso e complexo, incluindo a colocação de um gorro ornamentado com quatro caninos de veado (Cervus elaphus) e um colar com conchas de caracol do mar (Littorina obtusata).

Estas práticas, carregadas de simbolismo, não eram comuns entre os Homo sapiens do Sul da Europa nessa época, mas eram habituais entre os Neandertais. A descoberta pode, portanto, significar que os costumes e as crenças atuais sobre a vida e a morte são uma herança desse passado remoto.

Um achado de relevância mundial

Os estudos conduzidos por equipas internacionais e multidisciplinares demonstram a importância deste esqueleto a nível mundial. Embora corresponda claramente a um indivíduo juvenil moderno (Homo sapiens sapiens), o esqueleto apresenta igualmente algumas características morfológicas arcaicas que se aproximam das observadas nos neandertais.

As ossadas da criança motivaram, como tal, um intenso debate na comunidade científica internacional sobre as causas da extinção dos Neandertais.

Ao ser visto como resultado do cruzamento entre um Homo neanderthalensis e um Homo sapiens, o achado arqueológico mostrou que diferentes espécies de humanos poderiam se ter cruzado e gerado descendentes.

O Menino do Lapedo trouxe, portanto, uma nova perspetiva sobre a evolução humana, sugerindo que os Neandertais desapareceram não por extinção, mas sim por miscigenação com os cro-magnons.

As ossadas descobertas são a prova de que os humanos não são produtos de uma evolução linear, mas antes resultado de uma complexa mistura de espécies que partilharam territórios, sangue e cultura.

As implicações para a comunidade científica são enormes, pois, se os neandertais afinal estão integrados na linha evolutiva dos humanos, então uma parte do seu legado permanece vivo no nosso ADN.

O rosto reconstituído do Menino do Lapedo

O debate e as investigações arqueológicas e antropológicas prosseguem ainda hoje, sem respostas claras sobre a origem dos Homo sapiens e a extinção dos Homo neanderthalensis.

O Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho guarda uma réplica do esqueleto do Menino do Lapedo. Foto: Município de Leiria
O Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho guarda uma réplica do esqueleto do Menino do Lapedo. Foto: Município de Leiria

No Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho é possível ver uma réplica do esqueleto, bem como uma reconstrução do rosto da criança, feita pelo antropólogo americano Brian Pierson. As ossadas do Menino do Lapedo e os artefactos fúnebres depositados na sepultura estão guardados no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa.

Mau tempo provocou danos no abrigo

A distinção da Comissão Europeia surge numa altura em que o Município de Leiria anunciou também que o Abrigo do Lagar Velho sofreu danos moderados na sequência do recente comboio de tempestades, que atingiu o país entre janeiro e fevereiro.

O sítio já estava sinalizado para obras de conservação e o projeto, em fase de assinatura de contrato, encontra-se enquadrado no Plano de Recuperação e Resiliência.

Mas os estragos causados pelas intempéries levaram a Direção do Património Cultural a reavaliar a empreitada. O passo seguinte é, agora, rever os pressupostos técnicos da intervenção e adaptar o caderno de encargos.

O Abrigo do Lagar Velho foi um dos 13 sítios classificados como Património Europeu 2025, juntando-se aos 67 que já fazem parte da rede, que reconhece os locais com impactos profundos na história, cultura e desenvolvimento da União Europeia.

Referência da notícia

Portugueses entre os vencedores da Marca do Património Europeu 2025. Representação da Comissão Europeia em Portugal.