Tempestades deixam rasto de destruição no Alto Douro Vinhateiro
Em boa parte das propriedades vitivinícolas, os estragos são avultados, com vinhas destruídas, quedas de taludes e muros de xisto colapsados a desfigurar a paisagem classificada como Património Mundial.

O Alto Douro Vinhateiro está classificado como Património Mundial da Humanidade desde 2001, mas as tempestades mais recentes colocaram em risco as suas paisagens vitivinícolas, consideradas as mais antigas do mundo.
Na Região Demarcada do Douro, a chuva intensa e o vento forte provocaram prejuízos de grande dimensão, que ainda estão a ser avaliados.
Os danos afetam todo o território duriense. O peso da água acumulada nos solos fez colapsar os taludes, provocou derrocadas em patamares e deitou abaixo os muros de xisto, elementos estruturantes da paisagem classificada pela UNESCO.

Diante da intensa chuva caída nas últimas semanas, boa parte dos socalcos que sustenta a paisagem está agora demasiado frágil. Além dos estragos nas vinhas, há ainda estradas, linhas de água, habitações, garagens e caminhos agrícolas danificados devido às cheias no rio Douro.
Colheitas e vindimas em risco
Associações, autarquias e entidades do setor vitivinícola da região do Douro denunciam um cenário de catástrofe agrícola, que pode comprometer colheitas futuras e o sustento de inúmeras famílias.
Com as terras ainda ensopadas, é difícil fazer um levantamento exaustivo, mas as entidades regionais advertem que o restauro da paisagem e a reposição dos tradicionais muros de pedra irão implicar pesados investimentos financeiros que não vão poder suportar sozinhos.
Pequenos agricultores paralisados
As chuvas não afetaram somente as vinhas e os campos agrícolas. As estradas e os acessos cortados cancelaram eventos importantes como o Carnaval e o Dia dos Namorados, tornando também impraticáveis a comercialização do vinho e as atividades ligadas ao enoturismo.

Provas de vinhos, jantares, almoços ou visitas às quintas estão cancelados. A poda das videiras está também suspensa e os trabalhos nas adegas, como os engarrafamentos, não podem avançar porque, enquanto os acessos estiverem bloqueados, não há como transportar as mercadorias.
Em municípios como Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira ou Tabuaço, a atividade económica está essencialmente assente na vinha e na produção do vinho. O mau tempo afetou principalmente o potencial produtivo dos pequenos agricultores.
Relembrando que o setor já se encontrava em crise – marcada pela falta de escoamento, elevados encargos e preços baixos pagos à produção –, lançam agora o apelo ao Governo para apoiar os vinicultores a recuperar os prejuízos provocados pelos fenómenos meteorológicos extremos.
Calcorrear os socalcos para inventariar os prejuízos
As perdas, segundo as associações, comprometem não apenas a campanha vitícola em curso, mas, acima de tudo, a viabilidade futura de inúmeras pequenas explorações, que, sem ajudas imediatas do Estado, não vão conseguir recuperar o investimento perdido.

A Casa do Douro e outras organizações da região estão em articulação com o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e a Comunidade Intermunicipal do Douro, recolhendo informação detalhada sobre os prejuízos causados pelo mau tempo.
Reconhecido mundialmente pelos seus socalcos preenchidos por vinhas e oliveiras, o Alto Douro atravessa um momento decisivo. A simbiose entre a atividade humana e a paisagem natural foi a base para a UNESCO classificar a região como Património da Humanidade, mas o futuro é agora incerto. A natureza acaba sempre por encontrar um equilíbrio. Resta saber se iremos fazer a parte que nos compete.