As arribas da Costa da Caparica estão mais instáveis com as últimas chuvas e é urgente uma intervenção de longo prazo
As encostas estão a ceder à pressão da água e já obrigaram a deslocar centenas de residentes. Almada quer avançar com uma estratégia duradoura para salvaguardar a população e a paisagem protegida.

Os terrenos nas povoações de Porto Brandão e Azinhaga de Formosinhos, nas freguesias de Caparica e Trafaria, em Almada, estão a deslizar. Não é mais seguro manter ali as habitações e a autarquia já retirou preventivamente cerca de 500 moradores da base da arriba.
Embora a situação esteja há muito sinalizada, o fenómeno foi agora acelerado com o mau tempo. E estas não são as únicas áreas do município afetadas pelas tempestades das últimas semanas.
Além dos deslizamentos ocorridos nestas duas povoações ribeirinhas, os investigadores do Departamento de Ciências de Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa estão também a monitorizar a arriba fóssil da Costa da Caparica.

As zonas mais a norte, como São João da Caparica, onde também houve derrocadas e cerca de 100 famílias deslocadas, estão igualmente muito instáveis. A persistência e intensidade da chuva ensoparam a terra da arriba. A água proveniente de arruamentos e edifícios no topo da encosta contribuiu para deixar os terrenos ainda mais saturados.
Almada pede estado de calamidade
Os especialistas avisam que o problema não vai desaparecer com a chegada da primavera. Quando o solo de areia e argila secar, os terrenos vão se contrair, formando grandes blocos que poderão cair e causar sérios danos. A gravidade da situação levou a Câmara Municipal de Almada a pedir ao Governo para decretar o estado de calamidade no concelho.
A decisão, segundo a autarquia, permitirá aplicar medidas estruturantes e que ultrapassem a vertente meramente preventiva. Almada é, neste momento, um território rodeado de encostas pressionadas pelo peso da água da chuva, como é o caso da arriba fóssil da Costa da Caparica, a situação considerada a mais preocupante.
Os especialistas da Universidade de Lisboa defendem, aliás, que um plano abrangente para ordenar o território não pode ser mais adiado.
As construções no topo estão a pressionar a arriba, acelerando a infiltração de água e criando as condições perfeitas para, a qualquer momento, as terras deslizarem.
A presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, anunciou, entretanto, que pretende articular com a Agência Portuguesa do Ambiente e com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas uma solução para a arriba fóssil, na Costa da Caparica.

Retirar as habitações mais antigas que se encontram junto ao sopé da arriba é uma das hipóteses mais prováveis. Até porque a erosão marítima na Costa da Caparica tem vindo a intensificar-se na última década, contribuindo para agravar a insegurança das populações. As tempestades mais recentes voltaram a retirar grandes volumes de areia nas estâncias balneares. Fonte da Telha, Cova do Vapor e Segundo Torrão, por serem zonas urbanizadas, estão entre as localidades mais vulneráveis.
A batalha contra o avanço do mar
A Costa da Caparica é um dos exemplos no país que melhor ilustra a nossa luta contra a erosão costeira. Almada está entre os municípios portugueses que mais investem na defesa do seu território contra o avanço do mar. Cerca de 11 milhões de euros já foram gastos desde 2014 para alimentar a areia das praias.
Em alternativa, defendem uma estratégia de longo prazo que inclua a relocação dos aglomerados urbanos mais desprotegidos e a renaturalização da zona, tal como prevê, aliás, o programa da orla costeira. Em causa está a segurança das populações, mas também a continuidade da Arriba Fóssil da Costa da Caparica.

As suas imponentes arribas são paisagens protegidas que se estendem por 13 km ao longo da Costa da Caparica. Através de camadas de sedimentos e fósseis acumulados ao longo de 14 milhões de anos, é contada uma história geológica de avanços e recuos do mar, que é também urgente conservar.