Portugueses lideram estudo para descobrir como a poluição atmosférica castiga os mais pobres

Uma revisão científica pioneira mapeia o impacto desproporcional dos poluentes sobre as populações desfavorecidas, alertando para a necessidade de desenvolver políticas de saúde pública mais inclusivas e equitativas.

Viver junto a vias congestionadas, como o IC19 entre Sintra e Lisboa, aumenta significativamente a exposição à poluição do ar. Foto: Infraestruturas de Portugal
Viver junto a vias congestionadas, como o IC19 entre Sintra e Lisboa, aumenta significativamente a exposição à poluição do ar. Foto: Infraestruturas de Portugal

Viver numa rua onde o ar carrega o peso de milhares de escapes diários ou o fumo constante de uma fábrica não é, para muitas famílias, uma escolha. É a única opção compatível com o seu orçamento.

A comunidade científica internacional já classifica a poluição atmosférica como o maior perigo ambiental para a sobrevivência humana, mas o risco não é igual para todos. As populações mais vulneráveis enfrentam níveis de exposição muito superiores.

Foi esta desigualdade que motivou uma equipa liderada pela Universidade de Aveiro a analisar exaustivamente a literatura científica global. Em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes da Universidade do Minho e a University of the West of England, os investigadores examinaram 99 artigos internacionais para perceber até que ponto as avaliações de impacto sanitário incorporam justiça ambiental e desigualdades sociais.

Mapa geográfico das falhas

Os resultados, publicados na revista Heliyon, revelam um desequilíbrio geográfico na produção de conhecimento. Dos 21 países onde se realizaram os estudos analisados, os Estados Unidos representam 53 por cento da amostra. O Canadá surge muito atrás, com seis por cento, seguido pela China com cinco por cento.

A investigação sobre injustiça ambiental cresce, no entanto, a ritmo acelerado: mais de metade dos artigos selecionados foram publicados nos últimos cinco anos.

Segundo os autores portugueses, esta tendência mostra uma maior atenção às dimensões sociodemográficas da crise ambiental. Ainda assim, a maioria dos trabalhos concentra-se nos efeitos prolongados da exposição, deixando de fora análises mais imediatas ou de curta duração.

O peso das partículas finas

A quase totalidade dos estudos centra-se nas partículas finas em suspensão, conhecidas como PM2.5. Estas partículas microscópicas conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório e estão associadas a doenças graves.

A grande maioria dos estudos sobre os impactos da poluição atmosférica na saúde está concentrada na América do Norte, evidenciando lacunas na Europa e em outras regiões pouco representadas. Foto: Raimond Sprekking, CC BY 3.0, Wikimedia Commons
A grande maioria dos estudos sobre os impactos da poluição atmosférica na saúde está concentrada na América do Norte, evidenciando lacunas na Europa e em outras regiões pouco representadas. Foto: Raimond Sprekking, CC BY 3.0, Wikimedia Commons

Apesar disso, apenas metade dos artigos cruza os dados de monitorização ambiental com os registos médicos ou com os níveis reais de exposição das populações. A análise estatística clássica domina as metodologias, estando presente em cerca de 71 por cento dos casos. Os restantes trabalhos dividem-se entre modelação de cenários futuros e inquéritos diretos às comunidades afetadas, revelando abordagens ainda pouco integradas.

Ar puro não é para todos

A justiça climática parte da premissa de que quem menos contribui para a poluição é, muitas vezes, quem mais sofre com os seus efeitos. Todos os artigos revistos adotam esta perspetiva, avaliando fatores como rendimento, raça e etnia. Os dados financeiros são o indicador mais utilizado, presente em 99 por cento das investigações.

A Organização Mundial da Saúde e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas confirmam esta realidade. Famílias com baixos rendimentos e minorias étnicas vivem frequentemente perto de vias rodoviárias saturadas ou complexos industriais. A consequência traduz-se numa maior incidência de asma, doenças cardíacas crónicas e complicações durante a gravidez.

Lacunas na Europa

Perante este diagnóstico, os investigadores portugueses defendem que é urgente alargar estes estudos ao continente europeu e a outras regiões pouco representadas. A equipa sublinha a necessidade de modelos de análise mais robustos e métodos mistos capazes de captar a complexidade das variáveis sociais.

Para além dos dados numéricos, os autores destacam a importância de ouvir as comunidades através de inquéritos de proximidade.

O estudo conclui que compreender as perceções sociais e envolver os cidadãos na monitorização do ar é essencial para que as futuras políticas ambientais e de saúde pública deixem de ignorar as desigualdades que afetam a vida de milhões de pessoas.

Referência da notícia

A. Monteiro, E. Figueiredo, V. Rodrigues, C. Cardoso, M. Lopes a, P. Roebeling, H. Relvas, P. Seixas, S. Gouveia, A. Gomes, A. Martins, C. Gama, A. Aragão, A.I. Miranda & E. Hayes. Air pollution and environmental justice: a systematic literature review on methodological approaches. Helyon.
Universidade de Aveiro. Trabalho da UA analisa relação entre poluição do ar e desigualdades ambientais.