Pastores entre os Montes lutam para salvar uma profissão e um saber ancestral
Antes do sol nascer, há quem já esteja a trabalhar. No Nordeste Transmontano, os dias começam nos cortelhos e acabam no monte, entre rebanhos, cães e badalos a quebrar o silêncio.

É uma vida que não conhece fins de semana nem feriados. Começa cedo, entre a limpeza dos estábulos e a ordenha, antes dos animais seguirem para as pastagens. Ao longo do dia, o pastor percorre vários quilómetros com o rebanho e regressa apenas ao fim da tarde, para voltar a tratar dos animais.
No Nordeste Transmontano, há uma expressão que resume bem esta dureza: “nove meses de inverno e três de inferno”. O frio intenso e a neve dão lugar, poucos meses depois, a um calor que pode ser tórrido. E, faça chuva, frio ou calor, o rebanho precisa de ser acompanhado.
É neste cenário que cerca de 150 pastores decidiram juntar-se ao grupo Pastores entre os Montes. A nova organização pretende criar uma comunidade de entreajuda capaz de dar resposta a alguns dos problemas que pesam sobre uma profissão cada vez mais envelhecida.

A ideia é, em vez de cada produtor enfrentar sozinho as dificuldades do dia a dia, que os pastores passem a ter uma rede onde partilham experiências, procuram apoio técnico e agilizam negócios entre produtores.
Quebrar o isolamento
Através de plataformas digitais, o grupo quer aproximar quem trabalha nos montes e criar formas de comunicação numa atividade tradicionalmente marcada pelo isolamento.
Mas a ambição vai mais longe com os pastores a quererem também desenvolver iniciativas capazes de aproximar os mais jovens da profissão, promover concursos pecuários e valorizar raças autóctones como a Cabra Preta de Montesinho e a Churra Galega Bragançana.
E há ainda preocupações ambientais que o grupo pretende abordar com as populações e entidades municipais e agrícolas: o uso desregrado de herbicidas nas bermas e terrenos próximos das áreas de pastoreio é apontado como uma ameaça à saúde dos animais e à qualidade das pastagens.
Um trabalho que não acaba
A dureza da profissão é apenas uma parte do problema. O envelhecimento dos produtores coloca em causa a continuidade de uma atividade que exige presença permanente e que, muitas vezes, oferece rendimentos reduzidos face ao trabalho envolvido. O preço pago pelo leite, pela carne ou pela lã dificilmente traduz os quilómetros percorridos, as horas de trabalho e os riscos enfrentados.
Depois há o lobo-ibérico. Os ataques aos rebanhos podem representar perdas económicas significativas, mas também deixam um desgaste que não se mede apenas em euros.

E, apesar de tudo isto, há quem continue porque a pastorícia não é apenas uma profissão. No Nordeste Transmontano, condicionou, durante séculos, a paisagem, a economia, a alimentação e a própria identidade das comunidades. Quando um pastor desaparece, não desaparece apenas um produtor. Pode desaparecer uma forma muito particular de conhecer o território.
O saber que não está nos manuais
Um pastor conhece as plantas que alimentam os animais e aquelas que podem ser tóxicas ou medicinais. Lê as nuvens e o vento para antecipar mudanças do tempo e reconhecer, pelo comportamento do rebanho, sinais que podem passar despercebidos a quem olha de fora.
Este saber-fazer raramente aparece nos manuais, mas é parte de um património imaterial construído através de uma relação quotidiana com o território.
É também por isso que os pastores do Nordeste Transmontano procuram aproximar-se da ciência. A parceria com o Instituto Politécnico de Bragança e com o Centro de Competências do Pastoreio Extensivo procura levar conhecimento e soluções diretamente aos rebanhos, estudando, entre outros aspetos, a adaptação da pastorícia às alterações climáticas.

A ideia é afastar a imagem do pastor isolado, sem acesso à investigação e à inovação. De um lado, está um conhecimento acumulado; do outro, investigadores que estudam custos de produção, alterações climáticas, combustíveis e novos incentivos à atividade. Não se trata de escolher entre tradição e ciência, mas de perceber como podem trabalhar juntas.
Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores
A criação dos Pastores entre os Montes ocorre num momento em que a pastorícia ganhou atenção internacional. As Nações Unidas declararam 2026 Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, numa iniciativa liderada pela FAO que procura chamar a atenção para a importância ecológica das pastagens e para o papel dos pastores na resiliência das comunidades rurais.
Em Trás-os-Montes, esse caminho faz-se com um rebanho que sai para o monte ao nascer do dia, com um pastor que conhece a paisagem e as mudanças de tempo. E numa comunidade que percebeu que, para esta profissão sobreviver, já não basta resistir sozinho.
Referência da notícia
Mensageiro de Bragança. Pastores unem-se para valorizar e dignificar a profissão com o grupo “Pastores entre os Montes”.