Pastores entre os Montes lutam para salvar uma profissão e um saber ancestral

Antes do sol nascer, há quem já esteja a trabalhar. No Nordeste Transmontano, os dias começam nos cortelhos e acabam no monte, entre rebanhos, cães e badalos a quebrar o silêncio.

A pastorícia no Nordeste Transmontano é uma das atividades mais ancestrais e identitárias da região, influenciando a paisagem, a cultura e a gastronomia locais. Foto: Adobe Stock
A pastorícia no Nordeste Transmontano é uma das atividades mais ancestrais e identitárias da região, influenciando a paisagem, a cultura e a gastronomia locais. Foto: Adobe Stock

É uma vida que não conhece fins de semana nem feriados. Começa cedo, entre a limpeza dos estábulos e a ordenha, antes dos animais seguirem para as pastagens. Ao longo do dia, o pastor percorre vários quilómetros com o rebanho e regressa apenas ao fim da tarde, para voltar a tratar dos animais.

No Nordeste Transmontano, há uma expressão que resume bem esta dureza: “nove meses de inverno e três de inferno”. O frio intenso e a neve dão lugar, poucos meses depois, a um calor que pode ser tórrido. E, faça chuva, frio ou calor, o rebanho precisa de ser acompanhado.

Durante muito tempo, esta foi uma das atividades centrais das comunidades rurais da região. Hoje, porém, a pastorícia vive entre a resiliência e o risco de desaparecer.

É neste cenário que cerca de 150 pastores decidiram juntar-se ao grupo Pastores entre os Montes. A nova organização pretende criar uma comunidade de entreajuda capaz de dar resposta a alguns dos problemas que pesam sobre uma profissão cada vez mais envelhecida.

O envelhecimento dos pastores é crítico. A dureza do trabalho afasta os jovens, colocando a profissão em risco de desaparecer. Foto: Adobe Stock
O envelhecimento dos pastores é crítico. A dureza do trabalho afasta os jovens, colocando a profissão em risco de desaparecer. Foto: Adobe Stock

A ideia é, em vez de cada produtor enfrentar sozinho as dificuldades do dia a dia, que os pastores passem a ter uma rede onde partilham experiências, procuram apoio técnico e agilizam negócios entre produtores.

Quebrar o isolamento

Através de plataformas digitais, o grupo quer aproximar quem trabalha nos montes e criar formas de comunicação numa atividade tradicionalmente marcada pelo isolamento.

Mas a ambição vai mais longe com os pastores a quererem também desenvolver iniciativas capazes de aproximar os mais jovens da profissão, promover concursos pecuários e valorizar raças autóctones como a Cabra Preta de Montesinho e a Churra Galega Bragançana.

E há ainda preocupações ambientais que o grupo pretende abordar com as populações e entidades municipais e agrícolas: o uso desregrado de herbicidas nas bermas e terrenos próximos das áreas de pastoreio é apontado como uma ameaça à saúde dos animais e à qualidade das pastagens.

Um trabalho que não acaba

A dureza da profissão é apenas uma parte do problema. O envelhecimento dos produtores coloca em causa a continuidade de uma atividade que exige presença permanente e que, muitas vezes, oferece rendimentos reduzidos face ao trabalho envolvido. O preço pago pelo leite, pela carne ou pela lã dificilmente traduz os quilómetros percorridos, as horas de trabalho e os riscos enfrentados.

A burocracia e a complexidade das regras associadas aos apoios agrícolas acrescentam outra dificuldade, sobretudo numa população envelhecida e frequentemente afastada das ferramentas digitais.

Depois há o lobo-ibérico. Os ataques aos rebanhos podem representar perdas económicas significativas, mas também deixam um desgaste que não se mede apenas em euros.

O Cão de Gado Transmontano fixou-se nas regiões altas de Portugal com funções específicas de guardar o rebanho contra o ataque do lobo. Foto: CPCGT
O Cão de Gado Transmontano fixou-se nas regiões altas de Portugal com funções específicas de guardar o rebanho contra o ataque do lobo. Foto: CPCGT

E, apesar de tudo isto, há quem continue porque a pastorícia não é apenas uma profissão. No Nordeste Transmontano, condicionou, durante séculos, a paisagem, a economia, a alimentação e a própria identidade das comunidades. Quando um pastor desaparece, não desaparece apenas um produtor. Pode desaparecer uma forma muito particular de conhecer o território.

O saber que não está nos manuais

Um pastor conhece as plantas que alimentam os animais e aquelas que podem ser tóxicas ou medicinais. Lê as nuvens e o vento para antecipar mudanças do tempo e reconhecer, pelo comportamento do rebanho, sinais que podem passar despercebidos a quem olha de fora.

Ao longo de gerações, foram acumulando técnicas para acompanhar partos, tratar pequenas maleitas e avaliar a saúde dos animais. E têm ainda conhecimento sobre a paisagem. Ao escolher onde e quando levar o gado, o pastor gere a vegetação, controla o mato e contribui para a prevenção dos incêndios.

Este saber-fazer raramente aparece nos manuais, mas é parte de um património imaterial construído através de uma relação quotidiana com o território.

É também por isso que os pastores do Nordeste Transmontano procuram aproximar-se da ciência. A parceria com o Instituto Politécnico de Bragança e com o Centro de Competências do Pastoreio Extensivo procura levar conhecimento e soluções diretamente aos rebanhos, estudando, entre outros aspetos, a adaptação da pastorícia às alterações climáticas.

As Nações Unidas declararam 2026 como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, destacando o valor da pastorícia e a resiliência das comunidades rurais. Foto: Adobe Stock
As Nações Unidas declararam 2026 como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, destacando o valor da pastorícia e a resiliência das comunidades rurais. Foto: Adobe Stock

A ideia é afastar a imagem do pastor isolado, sem acesso à investigação e à inovação. De um lado, está um conhecimento acumulado; do outro, investigadores que estudam custos de produção, alterações climáticas, combustíveis e novos incentivos à atividade. Não se trata de escolher entre tradição e ciência, mas de perceber como podem trabalhar juntas.

Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores

A criação dos Pastores entre os Montes ocorre num momento em que a pastorícia ganhou atenção internacional. As Nações Unidas declararam 2026 Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, numa iniciativa liderada pela FAO que procura chamar a atenção para a importância ecológica das pastagens e para o papel dos pastores na resiliência das comunidades rurais.

As pastagens ocupam cerca de metade da superfície terrestre e a iniciativa pretende promover uma gestão sustentável do território, o restauro dos ecossistemas e a fertilidade dos solos, valorizando também o conhecimento tradicional, a mobilidade dos animais e o acesso dos produtores aos mercados.

Em Trás-os-Montes, esse caminho faz-se com um rebanho que sai para o monte ao nascer do dia, com um pastor que conhece a paisagem e as mudanças de tempo. E numa comunidade que percebeu que, para esta profissão sobreviver, já não basta resistir sozinho.

Referência da notícia

Mensageiro de Bragança. Pastores unem-se para valorizar e dignificar a profissão com o grupo “Pastores entre os Montes”.