Repensar as cidades para proteger a biodiversidade urbana
O futuro das cidades pode passar por ter mais natureza entre os edifícios, mais biodiversidade nas ruas e espaços urbanos pensados para todas as formas de vida. Venha saber mais aqui!

Durante décadas, as cidades foram desenhadas quase exclusivamente para responder às necessidades humanas.
Mas, à medida que a biodiversidade diminui e o clima se torna mais extremo, surge uma questão essencial: e se os espaços urbanos fossem planeados também para os animais e as plantas que partilham connosco o mesmo território?
Esta ideia está no centro de uma reflexão publicada no The Conversation, que defende uma mudança de paradigma, deixar de encarar a natureza como um elemento decorativo da cidade e passar a integrá-la na própria estrutura urbana.
Para muitas espécies, a cidade já não é apenas um território hostil. Parques, jardins, rios, terrenos abandonados, árvores, telhados e até pequenas áreas verdes entre edifícios podem funcionar como refúgios, locais de alimentação e corredores de deslocação.
Espaços verdes frequentemente isolados
Uma área verde pode existir, mas ser demasiado pequena ou estar separada de outras zonas naturais por estradas, edifícios e superfícies impermeáveis. Para uma ave, um inseto, um anfíbio ou um pequeno mamífero, essa fragmentação pode significar a perda de acesso a alimento, abrigo ou parceiros.
Desta forma, o verdadeiro desafio não consiste simplesmente em plantar mais árvores. É necessário criar uma rede ecológica urbana, em que diferentes habitats estejam interligados entre si.
De acordo com uma investigação da autoria Saman Sobhani publicada na revista Journal of Environmental Policy & Planning, sobre desenho urbano favorável à vida selvagem, destaca precisamente a importância de considerar as necessidades das espécies desde as primeiras fases do planeamento.
Quando o betão dá lugar à natureza
Existem já exemplos que demonstram como esta transformação pode acontecer. Em Seul, na Coreia do Sul, um curso de água que durante décadas esteve escondido sob uma autoestrada foi novamente exposto.
O chamado daylighting permitiu recuperar um ecossistema aquático onde hoje existem plantas, peixes e insetos. Ao mesmo tempo, a intervenção ajudou a refrescar a cidade e tornou-se num espaço frequentado diariamente por milhares de pessoas.
Este tipo de projeto mostra que beneficiar a biodiversidade não significa necessariamente afastar as pessoas. Pelo contrário, rios recuperados, parques naturais, zonas húmidas e corredores verdes podem transformar-se em lugares de encontro, lazer e contacto com a natureza.
Telhados, paredes e jardins também contam
Nas cidades mais densas, onde o espaço ao nível do solo é limitado, a natureza pode ocupar outras dimensões.

Telhados ou fachadas verdes, jardins urbanos, varandas com plantas autóctones, árvores de rua e pequenas áreas de vegetação podem criar habitats adicionais. A infraestrutura verde urbana pode ainda contribuir para melhorar o microclima, reduzir o escoamento da água da chuva e oferecer alimento e abrigo a insetos e outros animais.
Até mesmo uma pequena área pode fazer diferença quando está integrada numa rede maior. É essa conectividade que permite transformar uma sucessão de espaços verdes isolados numa verdadeira paisagem urbana funcional para a biodiversidade.
Menos relvados perfeitos, mais diversidade
Repensar a cidade implica também questionar alguns hábitos de jardinagem. Grandes extensões de relvado cortado frequentemente, por exemplo, oferecem menos recursos para a fauna do que espaços com plantas autóctones, flores silvestres, arbustos e diferentes alturas de vegetação.
Uma cidade amiga da biodiversidade não precisa de parecer desordenada. Precisa sim, de permitir que determinados espaços tenham um funcionamento mais próximo do natural.
A escolha das plantas é particularmente importante. Espécies adaptadas ao clima local tendem a exigir menos água e manutenção e podem fornecer recursos essenciais aos polinizadores e a outras espécies.
Uma cidade melhor para os animais também pode ser melhor para nós
Árvores e vegetação ajudam a reduzir temperaturas, os espaços verdes contribuem para a gestão da água e áreas naturais podem melhorar a qualidade do ar e proporcionar oportunidades para exercício, descanso e interação social.
A Agência Europeia do Ambiente salienta ainda os benefícios dos espaços verdes urbanos para a saúde e o bem-estar. Assim, proteger a vida selvagem pode ser simultaneamente uma estratégia de adaptação às alterações climáticas e da melhoria da qualidade de vida.
O futuro passa por uma cidade partilhada
A União Europeia já incentiva as cidades a desenvolver planos de natureza urbana, incluindo florestas urbanas, parques e jardins biodiversos, quintas urbanas, telhados e paredes verdes, ruas arborizadas, prados e sebes.
Mas transformar esta visão em realidade exige mais do que projetos pontuais. A biodiversidade deve entrar nas decisões sobre habitação, transportes, drenagem, espaços públicos e expansão urbana.
Estudos recentes mostram que continua a existir uma distância entre as estratégias de biodiversidade e a sua aplicação concreta no planeamento.
Talvez a cidade do futuro não seja aquela onde a natureza foi cuidadosamente colocada em pequenos espaços entre edifícios. Será aquela em que as pessoas e a vida selvagem são consideradas habitantes do mesmo território.
Referência da notícia
Saman Sobhani. (2026). From market logics to multispecies justice: reconfiguring urban environmental governance.