"Parecia a planta de uma cidade": a surpreendente descoberta da NASA a 30 metros sob o gelo da Gronelândia
Um voo científico sobre a Gronelândia detetou, sob dezenas de metros de gelo, uma surpreendente rede de estruturas que não constava dos objetivos da missão.

Um avião da NASA sobrevoava uma das regiões mais inóspitas da Gronelândia quando o radar começou a captar sinais inesperados. Sob uma superfície aparentemente uniforme, surgiram linhas retas, corredores paralelos e formas geométricas que, vistas no seu conjunto, pareciam a planta de uma pequena cidade.
Mas, a aproximadamente 30 metros abaixo da superfície, surgiu um padrão demasiado regular para ser uma formação natural. A descoberta surpreendeu inicialmente a equipa e obrigou-a a comparar essas imagens com dados históricos.
A explicação estava enterrada há quase 60 anos
Por fim, os investigadores confirmaram que estavam a observar Camp Century, uma instalação norte-americana construída sob o gelo durante a Guerra Fria. A base era conhecida, mas nunca tinha sido possível visualizá-la com tal nível de pormenor a partir do ar.
"Estávamos à procura do leito de gelo e surgiu o Camp Century", explicou Alex Gardner, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. O episódio ocorreu em abril de 2024, durante um voo num Gulfstream III equipado com o sistema de radar UAVSAR.
A diferença residia na tecnologia: os radares anteriores apontavam essencialmente para baixo e geravam perfis bidimensionais, enquanto este instrumento também observa lateralmente. Assim, foi possível distinguir estruturas individuais e compará-las com as antigas plantas da base.
Theres a camp under the ice!
— NASA Earth (@NASAEarth) November 26, 2024
A new radar image captured by @NASAJPL scientists during UAVSAR instrument tests reveals structural elements of Camp Century, an abandoned U.S. military base that is now buried within the Greenland Ice Sheet. https://t.co/mksKUpXA59 pic.twitter.com/NZszT5PFlI
A construção de Camp Century teve início em 1959 e chegou a contar com 21 túneis escavados no gelo, além de dormitórios, laboratórios, oficinas e outras instalações. Dispunha também de um reator nuclear portátil destinado a fornecer energia a uma instalação com capacidade para acolher cerca de 200 pessoas.
O projeto secreto por trás dos túneis
Embora publicamente tivesse fins científicos, o local esteve relacionado com o Project Iceworm, um ambicioso plano norte-americano para estudar a possibilidade de implantar uma rede de mísseis nucleares sob a Gronelândia. O objetivo era utilizar túneis pelos quais as armas pudessem deslocar-se, dificultando assim a sua localização por um eventual inimigo.
A neve continuou a acumular-se sobre a instalação até a ocultar completamente. Segundo a NASA, as estruturas sólidas permanecem atualmente, pelo menos, 30 metros abaixo da superfície.
Não é a primeira surpresa encontrada sob a Gronelândia
Este episódio faz parte de uma série de descobertas que mostram o quanto permanece escondido sob a gigantesca camada de gelo. Em 2013, dados obtidos através de radares aéreos permitiram identificar um enorme desfiladeiro subglacial com aproximadamente 750 quilómetros de comprimento, que se estende desde o interior da Gronelândia em direção ao norte.
In 1959, the US Army built Camp Century under Greenland's ice, complete with tunnels, labs, and even a nuclear reactor.
— Electroverse (@Electroversenet) March 10, 2026
It was abandoned in 1967.
Since then, the official story has been that Greenland is melting away. But in reality, Camp Century hasn't emerged, it's been pic.twitter.com/NbjYuSRyeb
Cinco anos depois, surgiu outra descoberta extraordinária: os cientistas detetaram, sob o glaciar Hiawatha, uma enorme depressão circular, posteriormente identificada como um cratera de impacto com cerca de 31 quilómetros de largura. A NASA explicou que a estrutura estava enterrada sob cerca de um quilómetro de gelo e que se tinha mantido preservada, apesar da intensa capacidade erosiva dos glaciares.
Surgiu também algo ainda mais antigo. Investigações realizadas sobre sedimentos extraídos sob o gelo revelaram vestígios de uma antiga paisagem de tundra, prova de que partes da Gronelândia estiveram outrora livres de gelo e cobertas por vegetação.
Uma cápsula do tempo sob o gelo
Camp Century tem ainda uma dimensão ambiental, pois, quando foi abandonado, ficaram resíduos no interior do complexo. Estudos posteriores alertaram que ali permanecem materiais físicos, químicos, biológicos e radiológicos que, durante décadas, se acreditou que ficariam enterrados para sempre.
A descoberta acidental não revela uma cidade desconhecida, mas oferece uma imagem inédita de uma infraestrutura que esteve desaparecida sob o gelo durante quase seis décadas. E, tal como aconteceu com os desfiladeiros, crateras e paisagens antigas encontradas na Gronelândia, volta a lembrar-nos de que, sob essa imensa superfície branca, ainda existe um território praticamente invisível por descobrir.