Investigador português ajuda a contar ursos polares na Gronelândia

Por ser uma das regiões mais remotas e inacessíveis do planeta, os cientistas sabem muito pouco sobre a espécie. Um novo estudo internacional irá ajudar a planear medidas de conservação mais adequadas.

O urso polar da Gronelândia está a deslocar-se mais para sul para sobreviver ao degelo progressivo do Ártico. Foto: Universidade de Lisboa
O urso polar da Gronelândia está a deslocar-se mais para sul para sobreviver ao degelo progressivo do Ártico. Foto: Universidade de Lisboa

No extremo oriental da Gronelândia, onde o mar se fragmenta em placas brancas e os fiordes são corredores de sobrevivência, um grupo internacional de cientistas tentou responder a uma pergunta que há décadas escapava ao conhecimento científico. Quantos ursos polares vivem nesta região remota e de acesso difícil?

Entre os investigadores esteve Tiago André Marques, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e membro da Universidade de St. Andrews, na Escócia. O cientista português integrou uma equipa liderada pela Universidade de Washington, com contributos da Dinamarca, Noruega, Canadá e Gronelândia.

O trabalho incidiu sobre uma subpopulação de Ursus maritimus que vive isolada no sudeste do território, adaptada a fiordes onde o gelo marinho se forma e desaparece de forma sazonal.

Esta espécie distingue-se por habitar uma das zonas mais inóspitas do Ártico, onde o gelo não é apenas habitat, mas também estrada, plataforma de caça e base de permanência.

O degelo progressivo, no entanto, está a alterar este equilíbrio, obrigando os animais a percorrer longas distâncias, mais para o norte. Embora a mudança de comportamento sugira pressão ambiental crescente, a dimensão real da população permanecia até agora desconhecida.

Uma contagem no limite do gelo

O estudo publicado na revista Endangered Species Research procurou preencher essa lacuna através de uma metodologia desenhada para lidar com ambientes extremos. Entre março e maio de 2023, a equipa realizou voos sistemáticos sobre cerca de 1,5 milhões de quilómetros quadrados de gelo marinho. Ao longo de 106 horas de observação aérea, foram registados 108 indivíduos.

Tiago André Marques é professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade de St. Andrews, na Escócia. Foto: Universidade de Lisboa
Tiago André Marques é professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade de St. Andrews, na Escócia. Foto: Universidade de Lisboa

A estratégia combinou estas observações com uma técnica de ecologia quantitativa, conhecida como amostragem por distâncias. O princípio é simples na teoria, mas bastante exigente na sua execução.

Os aviões seguem rotas previamente definidas enquanto os investigadores registam a presença dos animais e a distância a que são avistados. Esses dados permitem calcular a probabilidade de deteção e extrapolar a abundância total na área estudada.

Os ursos polares habitam uma das zonas mais inóspitas do Ártico, onde o gelo desempenha uma função vital para a sua sobrevivência. Foto: Universidade de Lisboa
Os ursos polares habitam uma das zonas mais inóspitas do Ártico, onde o gelo desempenha uma função vital para a sua sobrevivência. Foto: Universidade de Lisboa

“Este era o último segmento populacional da espécie para o qual não existia uma estimativa fiável”, explica Tiago André Marques, citado no comunicado da Universidade de Lisboa. O objetivo consistia precisamente em transformar observações pontuais num retrato estatístico consistente, capaz de sustentar decisões e planeamento de políticas de conservação.

Um número que expõe fragilidades

A análise aponta para cerca de 2 275 indivíduos na região estudada. O valor, embora significativo, ganha outra leitura quando enquadrado no panorama de extrema fragilidade da espécie, classificada como vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. A sobrevivência destes animais depende diretamente da presença de gelo marinho, o elemento que está a derreter com o aquecimento global.

O isolamento do leste da Groenlândia dificultava até agora campanhas regulares de monitorização, o que tornou este estudo especialmente relevante. Para os autores, trata-se de uma referência inicial que permitirá acompanhar mudanças futuras numa das populações mais inacessíveis do planeta.

O manto de gelo da Gronelândia está a atingir um ponto crítico, derretendo a uma velocidade sete vezes mais rápida do que nos anos 1990. Foto: Universidade de Lisboa
O manto de gelo da Gronelândia está a atingir um ponto crítico, derretendo a uma velocidade sete vezes mais rápida do que nos anos 1990. Foto: Universidade de Lisboa

Mais do que um número, o trabalho oferece um ponto de partida para compreender como esta subpopulação poderá reagir a um ambiente em transformação acelerada.

A questão que permanece em aberto é até que ponto os Ursus maritimus conseguirão se adaptar a um mundo com menos gelo, em que as rotas tradicionais de caça e deslocação podem deixar de existir.

A ausência de gelo coloca perguntas fundamentais sobre o futuro da espécie, adverte o investigador português. Sem esse suporte físico, desaparece toda a paisagem que estrutura a sua ecologia. O trabalho agora divulgado não encerra essa dúvida, mas delimita com maior precisão o território da incerteza científica.

Referência do artigo

Kristin L. Laidr, Tiago A. Marques, Benjamin Cohen, Rikke G. Hansen, Eric V. Regehr, Marie J. Zahn, Jon Aars, Jasmine Ware, Harry L. Stern, Fernando Ugarte. First abundance estimates for the East Greenland polar bear subpopulation. Endangered Species Research

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