Vacas maronesas combatem fogos ao limpar vegetação sob linhas de alta tensão do Alvão

Projeto-piloto de pastoreio extensivo recorre aos instintos de bovinos autóctones para criar barreiras naturais de proteção em redor de infraestruturas energéticas críticas situadas em terrenos montanhosos.

Vacas maronesas pastam junto à subestação da REN, limpando o terreno montanhoso para proteger as linhas elétricas contra incêndios. Foto: REN
Vacas maronesas pastam junto à subestação da REN, limpando o terreno montanhoso para proteger as linhas elétricas contra incêndios. Foto: REN

Nas encostas escarpadas onde o xisto e o granito moldam as paisagens das serras do Alvão e do Marão, o som dos chocalhos marca o início de uma estratégia inovadora de segurança ambiental. Uma manada de 40 vacas da raça maronesa percorre diariamente um perímetro de cerca de sete hectares, em Vila Pouca de Aguiar, mesmo no coração da montanha.

O cenário não é somente um retrato da pastorícia tradicional, os animais encontram-se em missão oficial, atuando como uma brigada ecológica que remove o excesso de mato rasteiro mesmo abaixo das grandes torres de transporte de eletricidade da Redes Energéticas Nacionais.

Soluções naturais previnem incêndios florestais

A iniciativa une os esforços da concessionária energética, da associação florestal Aguiarfloresta e dos cientistas do Instituto Politécnico de Bragança. O piloto estende-se por quatro anos e pretende demonstrar que a melhor tecnologia para prevenir grandes incêndios rurais em zonas com acessos pedestres ou mecanizados muito complexos pode ser totalmente biológica.

Uma vaca maronesa caminha por entre as rochas do Parque Natural do Alvão, exibindo a rusticidade única desta raça. Foto: Psilvestre - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
Uma vaca maronesa caminha por entre as rochas do Parque Natural do Alvão, exibindo a rusticidade única desta raça. Foto: Psilvestre - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

Ao pastarem de forma contínua em redor da subestação local, estes grandes herbívoros mantêm o combustível vegetal em níveis mínimos durante todas as estações do ano, impedindo que eventuais ignições se transformem em fogos descontrolados.

A força ancestral da resiliência rústica

A escolha desta espécie bovina está longe de ser um acaso. A maronesa é uma raça de montanha, primitiva e extremamente rústica, cujas origens oficiais remontam a meados do século XIX e resultam historicamente de cruzamentos entre as estirpes barrosã e mirandesa.

Criada há centenas de anos nas condições climatéricas severas de Trás-os-Montes e do Douro Vinhateiro, onde desempenhou tarefas agrícolas pesadas como animal de tração, a espécie destaca-se pela sua capacidade única de digerir vegetação arbustiva dura que outros herbívoros rejeitam.

Os números do projeto ajudam a ilustrar o impacto prático desta dieta rigorosa nas montanhas. Cada bovino consegue ingerir cerca de quatro toneladas de matéria seca anualmente.

No total do território delimitado para este teste, a manada deverá consumir 33 toneladas de biomassa florestal por ano.

Para otimizar esta iniciativa, os técnicos introduziram variedades herbáceas locais, mais nutritivas, que melhoram a qualidade do solo e fixam o gado nas áreas prioritárias de segurança. Foram ainda instalados, em pontos estratégicos, manjedouras e bebedouros, com vista a assegurar o bem-estar animal.

O regresso aos instintos do boi selvagem

A importância desta intervenção ultrapassa a dimensão de segurança das linhas elétricas de alta tensão. Atualmente, a Associação de Criadores do Maronês regista pouco mais de quatro mil animais em linha pura, distribuídos por quase mil pequenos produtores concentrados em concelhos como Ribeira de Pena, Vila Real e Mondim de Basto.

Valorizar estes espécimes através de programas ecológicos ajuda a fixar economias rurais e protege uma carne certificada com Denominação de Origem Protegida que sustenta comunidades inteiras no Norte do país.

As características genéticas destes bovinos são tão próximas do extinto auroque, o boi selvagem primitivo que habitava a Península Ibérica, que a raça foi também escolhida para integrar o programa europeu Tauros do European Wildlife Bank.

A produção de Carne Maronesa DOP dinamiza a economia local, valoriza as tradições rurais e sustenta centenas de criadores transmontanos. Foto: Psilvestre - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons
A produção de Carne Maronesa DOP dinamiza a economia local, valoriza as tradições rurais e sustenta centenas de criadores transmontanos. Foto: Psilvestre - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons

Esta iniciativa internacional reintroduz herbívoros de grande porte em regimes de semiliberdade para recuperar ecossistemas abandonados. Na ausência de intervenção humana, estes animais organizam-se em estruturas sociais complexas, criam clareiras naturais que quebram a continuidade das florestas densas e reativam comportamentos ancestrais de defesa que evitam ataques de predadores.

Um modelo com potencial para se expandir

Os dados científicos recolhidos pelos investigadores de Bragança vão permitir avaliar a eficácia exata deste modelo de gestão de combustível biológico.

A monitorização pretende criar um guião de boas práticas que possa ser exportado para outras propriedades nacionais, transformando o gado de montanha num aliado indispensável da engenharia moderna para mitigar os prejuízos associados às alterações climáticas.

Referência da notícia

Redes Energéticas Nacionais. Vacas maronesas ajudam a prevenir incêndios rurais em Vila Pouca de Aguiar.