Lobos alimentam-se de garranos e expõem um conflito crescente nas serras ibéricas

Investigação da Universidade do Porto revela que cavalos criados em liberdade desempenham um papel decisivo no equilíbrio ecológico das montanhas, mas são uma das principais presas do lobo ibérico.

A relação entre o garrano e o lobo ibérico está assente num equilíbrio instável entre preservar a dieta do maior predador ibérico e proteger habitats vulneráveis. Foto: Joana Freitas/Universidade do Porto
A relação entre o garrano e o lobo ibérico está assente num equilíbrio instável entre preservar a dieta do maior predador ibérico e proteger habitats vulneráveis. Foto: Joana Freitas/Universidade do Porto

Nas montanhas do norte de Portugal, os garranos percorrem livremente serras cobertas de mato, carvalhais e pastagens. Pequenos, resistentes e adaptados a terrenos difíceis, estes cavalos autóctones fazem parte da paisagem há séculos. Hoje, porém, enfrentam uma ameaça muito específica deste território.

Em várias regiões da Península Ibérica esta raça de equídeos é uma das principais presas do lobo ibérico.

A conclusão surge num estudo luso-espanhol coordenado pela investigadora Joana Freitas, da Universidade do Porto, e recentemente publicado na revista Mammal Review. Ao analisar os padrões de consumo de cavalos por lobos em Portugal e Espanha, o trabalho expôs uma relação complexa entre duas espécies emblemáticas da fauna ibérica, marcada por equilíbrio ecológico, perdas económicas e tensão social.

Duas espécies ibéricas que precisam de proteção

A equipa de biólogos procurou perceber por que motivo os lobos recorrem com tanta frequência aos cavalos criados em regime semisselevagem e quais as consequências para a conservação da natureza e para as comunidades locais.

A resposta não é linear, o que dificulta ainda mais a busca por uma gestão equilibrada do conflito. Os garranos são uma peça importante dos ecossistemas serranos. Por outro lado, constituem uma fonte alimentar relevante para o principal predador ibérico, fortemente ameaçado de extinção.

Cavalos ajudam a moldar a paisagem serrana

O estudo destaca o papel ecológico desempenhado pelos cavalos em liberdade, frequentemente subestimado fora da comunidade científica. O garrano alimenta-se de plantas altamente inflamáveis, como o tojo, a urze ou a giesta, contribuindo para reduzir o risco de incêndios.

Os cavalos criados em liberdade desempenham uma função determinante na limpeza das serras, na dispersão de semente e na fertilização dos solos. Foto: Heigeheige, trabalho do próprio, Creative Commons
Os cavalos criados em liberdade desempenham uma função determinante na limpeza das serras, na dispersão de semente e na fertilização dos solos. Foto: Heigeheige, trabalho do próprio, Creative Commons

Ao contrário das cabras, por exemplo, o cavalo está permanentemente na serra, não precisando de acompanhamento. A sua presença poderia poupar entre 8 mil e 10 mil euros anualmente, por animal, na limpeza de terrenos, como já concluíram estudos recentes de investigadores da Galiza. A pressão que exercem sobre o pastoreio contribui para travar o avanço de matos densos, favorece habitats abertos e ajuda a reduzir o risco de incêndio.

Os cavalos semisselevagens são autênticos engenheiros ecológicos, capazes de alterar a estrutura da paisagem e promover maior diversidade biológica.

Além disso, dispersam sementes, fertilizam os solos e criam condições favoráveis para outras espécies animais e vegetais. Nas últimas décadas, porém, muitas populações de garranos diminuíram devido ao abandono rural, à redução da pastorícia tradicional e à menor rentabilidade económica da criação extensiva. O seu desaparecimento progressivo pode, por isso, provocar alterações profundas nos ecossistemas de montanha.

Uma presa preferencial para o lobo ibérico

A investigação mostra que os lobos consomem cavalos com uma frequência invulgar quando comparada com outras regiões do mundo. Em certas áreas da Península Ibérica, os garranos representam uma parte significativa da dieta do predador.

Em territórios onde os cavalos pastam em liberdade, o perigo de se tornarem presas dominantes das alcateias é maior. Os ataques concentram-se sobretudo em poldros durante os primeiros meses de vida, embora os adultos também fiquem vulneráveis no inverno, quando apresentam pior condição física.

A escolha parece estar relacionada com vários fatores. O estudo identificou maior consumo de cavalos em zonas de baixa altitude, com elevada presença humana e menor abundância de presas selvagens alternativas. As alcateias maiores também tendem a caçar mais cavalos.

Conflitos entre humanos e vida selvagem

Esta realidade alimenta conflitos antigos entre criadores de gado e a conservação do lobo. Os ataques representam perdas económicas difíceis de suportar, sobretudo em explorações extensivas de pequena dimensão.

Os cavalos semisselvagens podem representar até 80% da dieta do lobo ibérico. Foto: Adobe Stock
Os cavalos semisselvagens podem representar até 80% da dieta do lobo ibérico. Foto: Adobe Stock

Os investigadores constataram, no entanto, que os cavalos também estão a ajudar a reduzir ataques a outros animais domésticos de maior valor económico, como bovinos. Quando há garranos disponíveis, os lobos parecem recorrer menos a outras espécies pecuárias.

Conservar duas espécies sem agravar o conflito

A relação entre lobo ibérico e garrano não pode, por isso, ser analisada apenas como um problema de predação. Os investigadores propõem uma abordagem mais ampla, capaz de integrar conservação da biodiversidade, gestão da paisagem e apoio às comunidades rurais.

Entre as medidas sugeridas estão o reforço dos sistemas de compensação financeira para os criadores afetados pelos ataques, maior investimento em vigilância, cães de proteção e práticas tradicionais de maneio adaptadas às serras ibéricas.

Outra das propostas passa pela recuperação de populações de ungulados selvagens, como veados, javalis e corsos, aumentando a disponibilidade de presas naturais para o lobo.

Os investigadores destacam ainda a necessidade de reconhecer o valor ecológico dos cavalos semisselvagens nas políticas de prevenção de incêndios e gestão do território.

Joana Freitas, da Universidade do Porto, tem dedicado a sua investigação à conservação do garrano nas serras ibéricas. Foto: Joana Freitas/@garranos_in_the_wild/Universidade do Porto
Joana Freitas, da Universidade do Porto, tem dedicado a sua investigação à conservação do garrano nas serras ibéricas. Foto: Joana Freitas/@garranos_in_the_wild/Universidade do Porto

A principal conclusão do trabalho aponta para uma relação marcada por um equilíbrio instável. O mesmo animal que sustenta parte da dieta do lobo ajuda também a preservar ecossistemas mais diversos e menos vulneráveis ao fogo.

Num território cada vez mais afetado pelo abandono rural e pelas alterações climáticas, essa ligação entre predador e presa pode tornar-se decisiva para o futuro das serras ibéricas.

Referências do artigo

Renata Silva. Garranos podem reduzir conflitos com o lobo-ibérico, mas enfrentam ameaça. Universidade do Porto

Joana Freitas, Laura Lagos, Ana Sofia Vaz, Luis Llaneza & Francisco Álvares. Horses on the Menu: Patterns and Drivers of Free-Ranging Horse Consumption by Iberian Wolves. Mammal Review (Wiley)

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