Lisboa vai plantar 2400 árvores. Mas antes pode perder centenas

A nova linha de elétrico e a requalificação da Avenida Almirante Reis ameaçam o arvoredo da capital. Em contrapartida, a autarquia prepara um investimento de quase meio milhão de euros para ganhar árvores.

Poderá isto ser um contrassenso? Foto ilustrativa: Unsplash
Poderá isto ser um contrassenso? Foto ilustrativa: Unsplash

Mais de 400 árvores poderão ser afetadas por duas grandes obras na capital. Em paralelo, a Câmara Municipal prepara um investimento de quase meio milhão de euros para reforçar o arvoredo nas 24 freguesias. Será um contrassenso?

É verdade. Lisboa quer ganhar árvores, mas há projetos que podem obrigar a retirar ou transplantar centenas de exemplares já existentes.

Enquanto duas grandes intervenções urbanas levantam preocupações sobre o futuro de parte do arvoredo da capital, a Câmara Municipal prepara-se para investir 491 mil euros na plantação e rega de 2400 novas árvores, distribuídas por todas as freguesias da cidade.

A notícia chega numa altura em que as árvores urbanas são cada vez mais importantes. Além de tornarem as ruas mais agradáveis, ajudam a criar sombra nos dias quentes, contribuem para reduzir o efeito das chamadas ilhas de calor e podem melhorar a qualidade do ar. Por isso, quando se fala em retirar árvores de uma avenida, a questão vai muito além da paisagem.

Duas obras que podem mudar a paisagem de Lisboa

Um dos projetos que está a dar que falar é o futuro elétrico 16E, que deverá ligar o Terreiro do Paço ao Parque das Nações. A nova linha da Carris terá cerca de 11 quilómetros e atravessará zonas da cidade onde existe atualmente um arvoredo significativo.

De acordo com o Estudo de Impacte Ambiental, citado pelo jornal 'Público' a 5 de outubro, o destino das árvores dependerá do traçado escolhido entre cinco possibilidades. No cenário considerado menos prejudicial, será necessário transplantar 116 exemplares e avaliar outros 668, para determinar se podem ser mantidos, podados ou transferidos. Na alternativa com maior impacto, o número de árvores a transplantar poderá chegar às 520, além de mais de 360 que terão de ser avaliadas.

A zona de intervenção inclui 4223 árvores identificadas ao longo do percurso analisado. Isto não significa que todas estejam ameaçadas, mas mostra a dimensão do trabalho necessário para compatibilizar a construção da linha com a preservação do arvoredo existente.

A Carris comprometeu-se a procurar soluções que minimizem os impactos ambientais do projeto. O início das obras está previsto para 2027.

Independentemente do número, o transplante “deverá ser efetuado para locais disponíveis”, na área geográfica de qualquer uma das seis freguesias por onde passará o novo elétrico, prevê o programa base do projeto. Apenas depois de elaborado o relatório técnico de avaliação visual do arvoredo, se conhecerão as novas localizações dos exemplares potencialmente alvos de transferência ou de poda.

“A informação é conhecida desde setembro e estava explícita nos documentos disponibilizados para consulta pública pela autarquia, com a Carris a garantir que alteraria o projeto com o fim de minimizar impactos de cariz ecológico ou relacionados com o ruído, por exemplo”, nota a revista ‘Time Out’. “Mas a perda de mancha arbórea ao longo do traçado – onde vivem hoje mais de 4000 árvores – é inevitável, em especial em vias como a Avenida Infante Dom Henrique, a Avenida Dom João II e a Alameda dos Oceanos.”

Esta, contudo, não é a única intervenção a levantar dúvidas entre quem defende mais espaços verdes na capital.

Uma discussão que não é de agora. Foto: Unsplash
Uma discussão que não é de agora. Foto: Unsplash

A requalificação da Avenida Almirante Reis, cujo projeto foi apresentado pela autarquia em novembro de 2024, prevê alterações à circulação automóvel, à mobilidade pedonal e à rede ciclável. Uma das mudanças mais controversas é a eliminação do separador central, onde se encontram 295 tílias.

Um grupo de moradores contestou esta opção e lançou uma petição para pedir à Câmara que reconsidere o projeto. Entre as preocupações apontadas estão a perda das árvores existentes, o aumento do espaço destinado aos automóveis em parte da avenida e as condições previstas para a circulação de bicicletas e peões.

"A CML apresentou um projeto para a Almirante Reis com várias melhorias, mas discordamos da opção de fundo: o aumento do espaço rodoviário, de duas para três vias entre o Martim Moniz e a Alameda. Esta opção implica a remoção de 295 árvores do separador central, a manutenção de passeios estreitos e a implementação de atravessamentos pedonais mais largos e perigosos. Implica ainda ciclovias com larguras muito abaixo dos mínimos e integradas nos passeios, o que exponenciará os conflitos com peões, mas também com os automóveis que viram à direita para aceder às transversais – acabando, em última instância, por comprometer a fluidez do tráfego", pode ler-se no documento.

A autarquia, por seu lado, apresentou a intervenção como uma oportunidade para criar uma estrutura verde contínua, melhorar a segurança dos percursos pedonais e cicláveis e aumentar a presença de árvores e espaços verdes.

Em 2024, a Câmara indicou que a avenida passaria das atuais 295 árvores para 370, embora a concretização dessa meta dependa dos detalhes do projeto.

"’Temos agora 295 árvores ao longo de todo o eixo e vamos ter 370’, assegurou na altura a vereadora do Urbanismo, Joana Almeida, sem precisar como e sem adiantar detalhes sobre as novas plantações e eventuais transplantações”, lê-se na ‘Time Out’. “Somando aos canteiros e arbustos previstos, a autarca avançou uma redução em 46% da área betuminosa e um ganho de 50% de sombra nos passeios.”

Meio milhão de euros para plantar 2400 árvores

Em paralelo com estas intervenções, Lisboa prepara um investimento de 491 040 euros para plantar e regar 2400 árvores nas 24 freguesias da cidade, ao longo de três anos.

“Objetivo é fomentar a proteção da biodiversidade, redução da poluição e utilização sustentável dos recursos hídricos”, avança o ‘Jornal PT Green’.

Entre as espécies previstas encontram-se jacarandás e tipuanas. Foto ilustrativas: Unsplash
Entre as espécies previstas encontram-se jacarandás e tipuanas. Foto ilustrativas: Unsplash

O valor consta de um concurso público lançado pelo município, dividido em dois lotes. O primeiro, no valor de cerca de 248 mil euros, abrange 12 freguesias e prevê 1212 árvores. O segundo, de aproximadamente 243 mil euros, inclui as restantes 12 freguesias e contempla 1188 exemplares.

A iniciativa pretende reforçar a estrutura verde da cidade e contribuir para a proteção da biodiversidade, a redução da poluição e a utilização sustentável dos recursos hídricos. Entre as espécies previstas encontram-se jacarandás e tipuanas, árvores conhecidas pela sombra que proporcionam e, no caso dos jacarandás, pela floração roxa que colore várias ruas portuguesas na primavera.

O calendário do concurso prevê que a maior parte das plantações decorra até março de 2027. Seguir-se-ão novas fases entre novembro de 2027 e maio de 2028 e entre novembro de 2028 e maio de 2029. A plantação deverá ser acompanhada por trabalhos de rega, essenciais para ajudar as árvores a estabelecerem-se, sobretudo durante os primeiros verões.

O procedimento prevê ainda a contratação de empresas para executar os trabalhos nas diferentes freguesias, estando a apresentação de propostas aberta até 13 de novembro de 2026. Por isso, o valor anunciado corresponde ao preço-base do concurso, não devendo ser confundido com um contrato já adjudicado.

Referências da notícia

Público, Alemão, S. (2026). Eléctrico do Terreiro do Paço à Expo poderá obrigar a transferir centenas de árvores.
Time Out, Barbedo, R. (2026). Mais de 400 árvores poderão estar em risco por causa de duas grandes obras em Lisboa.
Jornal PT Green. (2026). Lisboa vai investir meio milhão de euros para plantar 2400 árvores em todas as freguesias.