Lisboa fechou refúgios do calor em plena onda de calor. Como se explica este paradoxo?
Entre 3 e 6 de julho, a onda de calor levou milhares de lisboetas a procurar abrigo nos espaços verdes, mas vários parques estavam encerrados. Saiba o que aconteceu.

À primeira vista, parece um contrassenso: Lisboa a ‘ferver’, os termómetros a rondar os 40 ºC, a Câmara a recomendar Refúgios Climáticos, e, ao mesmo tempo, a fechar alguns dos espaços verdes onde seria mais natural procurar sombra.
“Neste sábado de manhã, uma criança pedia incessantemente à mãe para entrar na Quinta das Conchas, como se a mãe tivesse a chave do portão”, começa por escrever o ‘LPP’. “Os portões deste parque no coração do Lumiar, em Lisboa, foram encerrados na sexta-feira pela Câmara de Lisboa. E assim vão permanecer até ao final do dia 6.”
“Além da Quinta das Conchas, outros 12 parques urbanos de Lisboa foram fechados, como Monsanto, o Parque Silva Porto, a Tapada das Necessidades e o Vale do Silêncio. Apesar de constarem na lista de Refúgios Climáticos de Lisboa e de a cidade estar numa onda de calor, a permanência e circulação nestes locais não é permitida.”
Nos últimos dias, a discussão foi grande e, entre os portugueses, a pergunta que se impôs foi uma: afinal, porque é que a Câmara Municipal de Lisboa encerrou vários parques da cidade precisamente nos dias em que eles faziam mais falta?
A resposta curta é simples. Porque uma parte desses parques, apesar de funcionarem como locais de frescura e descanso, está legalmente classificada como espaço florestal. E, quando o Governo decreta situação de alerta devido ao calor extremo e ao agravamento do risco de incêndio rural, entram em vigor medidas excecionais que limitam o acesso, a circulação e a permanência nesses locais.

Foi precisamente o que aconteceu em Lisboa entre 3 e 6 de julho. Durante esses dias, a Câmara fechou 13 parques e espaços verdes com regime florestal, entre os quais alguns que também integram a rede municipal de Refúgios Climáticos.
A medida surgiu na sequência da situação de alerta decretada pelo Governo para o território continental, no contexto da onda de calor e do aumento do perigo de incêndio.
O que levou ao encerramento dos parques?
A lógica da decisão não foi “fechar parques porque está calor”, mas sim aplicar as restrições previstas para zonas florestais em dias de risco elevado de incêndio. Na prática, estes espaços ficaram abrangidos por regras semelhantes às que se aplicam a áreas florestais fora da cidade, precisamente por terem mata, arvoredo denso, vegetação combustível ou uma combinação desses elementos. Em alguns casos, isso é fácil de compreender, como acontece em Monsanto. Noutros, a discussão é menos linear.
É aqui que a questão deixa de ser apenas técnica e passa a ser também urbana. Muitos dos parques afetados não correspondem, no imaginário de quem os frequenta, à ideia de “mata” no sentido clássico. São espaços de uso quotidiano, com percursos pedonais, zonas relvadas, bancos de jardim, lagos, sombra abundante e famílias à procura de algum alívio em dias difíceis.
A Quinta das Conchas tornou-se o exemplo mais evidente desta contradição. Embora tenha uma área de mata, grande parte do parque funciona como jardim urbano e como eixo de passagem para quem vive no Lumiar. Nos dias de maior calor, é também um dos espaços mais procurados da zona norte da cidade.
O paradoxo dos Refúgios Climáticos
Por isso mesmo, este encerramento voltou a lançar um debate que já não é novo: fará sentido tratar a totalidade de certos parques como uma única mancha florestal, sem distinguir as zonas de maior risco das áreas mais urbanas e seguras?

A Junta de Freguesia do Lumiar voltou a defender, nos últimos dias, uma reavaliação da classificação da Quinta das Conchas, argumentando que a nave central do parque, isto é, uma zona ampla, sombreada e muito usada pela população, não deveria ficar sujeita ao mesmo regime da área de mata.
“Esta não é a primeira vez que a Junta de Freguesia do Lumiar levanta esta questão junto da Câmara de Lisboa”, nota o site ‘LPP’. “Já em agosto de 2025, o Lumiar tinha alertado para o facto de a classificação como zona florestal, aplicada à totalidade da Quinta das Conchas, não refletir a diferenciação interna do espaço, propondo uma segmentação técnica que excluísse a nave central da Quinta das Conchas do regime aplicável às zonas florestais.”
“A Junta de Freguesia do Lumiar diz compreender e apoiar a necessidade de medidas rigorosas de prevenção do risco de incêndio, reconhecendo que o encerramento foi feito em conformidade com a classificação em vigor. Mas defende ser essa classificação – 'desatualizada e desajustada à realidade físico-ecológica do espaço' – que precisa de ser corrigida.”
No fundo, o problema está no choque entre duas necessidades legítimas. Por um lado, existe a obrigação de reduzir o risco de incêndio em dias particularmente críticos. Por outro, existe a necessidade de proteger a população do calor, sobretudo idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas e quem vive em casas pouco frescas. Quando um mesmo espaço é simultaneamente uma potencial zona de risco florestal e um refúgio climático, as políticas públicas entram em tensão.
Essa tensão ficou especialmente visível em Lisboa porque a cidade tem vindo a reforçar a comunicação em torno dos Refúgios Climáticos, uma rede que inclui não só parques e jardins, mas também bibliotecas, museus, equipamentos culturais e outros espaços onde é possível encontrar temperaturas mais amenas. O problema é que alguns dos espaços verdes mais apelativos dessa rede coincidem com áreas sujeitas às restrições aplicadas em contexto de alerta.
O resultado foi simples e, para muitos lisboetas, frustrante: em plena vaga de calor, encontraram portões fechados em locais que, no papel, serviriam precisamente para escapar ao calor.
E, agora, o que muda?
A boa notícia é que a situação foi temporária. Com o fim da situação de alerta em Lisboa, a Câmara Municipal reabriu os parques florestais da cidade no dia 7 de julho. Isso significa que, à data de publicação deste artigo, os espaços já se encontram novamente abertos ao público.
Ainda assim, o episódio deixa uma pergunta importante no ar: estará Lisboa preparada para conciliar o combate ao risco de incêndio com a necessidade crescente de oferecer abrigo à população durante ondas de calor? Tudo indica que este tipo de situação pode repetir-se.
Não basta ter uma lista de Refúgios Climáticos; é preciso garantir que esses refúgios continuam disponíveis precisamente quando são mais necessários.
Referência da notícia
LPP. (2026). Porque é que a CML encerrou alguns Refúgios Climáticos em plena onda de calor?.
Time Out, Barbedo, R. (2026). Câmara ordena fecho de 13 espaços verdes em Lisboa, de Monsanto à Quinta das Conchas.
Diário de Notícias, Henriques, S. (2026). Lisboa reabre parques florestais com o fim de situação de alerta.