Amazónia emite 1,17 mil milhões de toneladas de carbono a mais por ano, diz estudo na Nature

As medições atmosféricas realizadas ao longo de quinze anos comprovaram que a queima da biomassa florestal superou amplamente a retenção de gases poluentes efetuada pelas árvores vivas.

Seca e desflorestação reduziram em 20% as chuvas na Amazónia. Foto: Christian Braga/ Greenpeace
Seca e desflorestação reduziram em 20% as chuvas na Amazónia. Foto: Christian Braga/ Greenpeace

A Amazónia libertou para a atmosfera uma média anual de 1,17 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono a mais do que conseguiu absorver entre 2010 e 2024. Historicamente reconhecida como um regulador do clima global, a vegetação passou a operar em desequilíbrio contínuo decorrente da pressão antrópica sobre este ecossistema.

Os incêndios florestais figuram como o fator central desta mudança expressiva de dinâmica ambiental. Enquanto a taxa média de absorção da mata ficou em cerca de 300 milhões de toneladas por ano, as queimadas lançaram aproximadamente 1,47 mil milhões de toneladas anuais de gases poluentes no ar.

O impacto das queimadas e do clima extremo no bioma

As análises científicas demonstraram que o avanço da desflorestação e os períodos de seca prolongada intensificaram a perda funcional da cobertura vegetal. Em cenários marcados por forte stress climático associado ao El Niño, a taxa anual de libertação líquida alcançou o recorde de 1,8 mil milhões de toneladas.

Terra Indígena Paraná do Arauató, no Amazonas. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazónica
Terra Indígena Paraná do Arauató, no Amazonas. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazónica

Além da elevação nas emissões, os registos de focos de calor nos primeiros dez meses de 2026 superaram 41.300 ocorrências, aproximando-se do total de 43.130 apurado ao longo de 2025. Esta densa camada de fumo resultou no encerramento de escolas e na sobrecarga de unidades médicas na região de Manaus.

O levantamento realizado através de monitorizações aéreas em quatro regiões do bioma indicou que as queimadas anularam a neutralidade ecológica da floresta. Sem esta compensação natural, as emissões brutas decorrentes do fogo tornaram-se o elemento definitivo para consolidar o saldo desfavorável na atmosfera.

"A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazónia é a ação humana. Estamos a perder a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição. Precisamos de políticas públicas que valorizem a floresta em pé", apontam investigadores do INPE, responsáveis pelo estudo publicado na Nature.

Alterações térmicas e o risco do ponto de não retorno

O histórico dos últimos 46 anos revelou alterações profundas no regime de chuvas e nos registros térmicos da floresta. Durante o ápice da seca, entre agosto e outubro, a redução na precipitação atingiu 20%, à medida que a temperatura média no mesmo período subiu 1,81 °C.

Estas transformações alimentam um ciclo contínuo de vulnerabilidade, no qual o ar excessivamente seco favorece novos focos de fogo. Consequentemente, as áreas remanescentes sofrem degradação progressiva, reduzindo o ritmo da fotossíntese natural e ampliando o volume de biomassa vegetal decomposta.

Mesmo sob a ação atenuante de fenómenos húmidos como o La Niña, o balanço de carbono manteve-se deficitário devido à intensidade da destruição. Os cientistas apontam que a vegetação sobrevivente enfrenta um stress severo, perdendo a capacidade de regeneração face a eventos extremos recorrentes.

A conservação da integridade ecológica depende agora de metas imediatas voltadas à contenção do fogo, à deflorestação zero e à restauração florestal. Estas ações conjuntas são necessárias para evitar a conversão definitiva do bioma numa vegetação empobrecida e incapaz de sustentar a sua rica biodiversidade.

Referência da notícia

Luciana Constantino. (2026). Fogo e desmatamento transformam Amazônia em fonte de carbono para a atmosfera.