Incêndios em Portugal: número de incêndios e de área ardida aumentam
Portugal regista em 2022, até 31 de agosto, o 6.º valor mais elevado em número de incêndios. Há cinco anos consecutivos que estes valores têm vindo a aumentar. Quais as perspetivas de futuro?

Portugal conheceu até ao dia 31 de agosto do presente ano, 9 701 incêndios rurais que se traduzem numa área ardida de 106 639 hectares, segundos dados no 5º Relatório Provisório de Incêndios Rurais de 2022 do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).
Trata-se de uma diminuição de 15% em relação à média dos últimos 10 anos e o 4.º em área ardida, um aumento de 36% em relação ao mesmo período. A maioria dos incêndios ocorreu em julho, representando também este o mês de maior área ardida.
Estas cifras catapultam o ano de 2022 para o 6.º valor mais elevado em número de ignições e o 4.º lugar em área ardida, desde o ano de 2012. Estes números são apenas inferiores ao fatídico ano de 2017, onde no mesmo período se consolidou uma área total ardida de 74 340 ha.
Incêndios e área ardida aumentam pelo 5º ano consecutivo
Entre 1 de janeiro a 31 de agosto de 2022 foram consumidos pelas chamas mais 36% de povoamentos florestais, matos e espaços agrícolas do que a média dos últimos 10 anos, ainda que o número de ignições tenha diminuído em 15% face ao mesmo período. Cabe, no entanto, ressaltar que estes valores são os mais altos dos últimos 5 anos, em números absolutos.
A larga maioria das ocorrências de incêndio rural é dada como terminada ainda na fase de ataque inicial e que corresponde à primeira hora e meia de combate, o que evidencia que em 2022 os incêndios com área ardida inferior a 1 hectare são os mais frequentes (82% do total de incêndios rurais).
No entanto, e apesar da maior expressão numérica destes, são os grandes incêndios (aqueles que apresentam uma área ardida igual ou superior a 100 hectares) que assumem o protagonismo no total da área ardida em território nacional, sendo responsáveis por 91 046 hectares de área ardida, cerca de 85% do total.
As ondas de calor, como as que fizeram subir os termómetros até aos 47 ºC na estação meteorológica do Pinhão, onde se registou “um novo extremo para o mês de julho em Portugal continental”, de acordo com o boletim disponibilizado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) ajudam a justificar em parte a propagação de incêndios de grandes dimensões.
Mas a verdade é que, segundo o mesmo relatório, a área ardida no ano de 2022 é manifestamente inferior àquela que era esperada (154 341 ha) considerando a severidade meteorológica que se manifestou.
Além da meteorologia, que outros fatores condicionam o comportamento de um incêndio?
A verdade é que o comportamento de um incêndio não é explicado apenas pelas condições meteorológicas, ainda que seja a principal condicionante, já que estes fenómenos conhecem um comportamento ideal de propagação quando registados valores de humidade relativa abaixo dos 30%, temperaturas superiores a 30 ºC e velocidade do vento superior a 30 km/h.
A estes fatores conjugam-se as características dos combustíveis (distribuição vertical e horizontal, dimensão, quantidade ou carga, humidade do combustível, combustibilidade e percentagem de combustíveis finos mortos) e as características do relevo (forma, declive e exposição das vertentes).

O período de desregulação climática que vivemos tem exercido uma pressão cada vez maior sobre o comportamento dos incêndios. O aumento das ondas de calor e das secas meteorológicas, eventos extremos cada vez mais comuns e intensos no espaço e no tempo, ajudam a explicar a cada vez maior frequência, intensidade e severidade dos incêndios de cada vez mais devastadora dimensão. Porém não explicam tudo.
A imprudência, a negligência e o crime jogam um importante papel na causa destes eventos. Dos incêndios investigados (75% do total), concluiu-se que a grande maioria, 45% resultam do uso do fogo (queimas, queimadas e fogueiras). O restante distribui-se entre 25% por culpa de incendiarismo, 8% resultado de responsabilidade acidental, 6% por reacendimentos e 13% por outras causas apuradas. Apenas 2% são consequência de causas naturais (quedas de raios).
Que perspetivas para o futuro?
Muitas foram as iniciativas desde 2017 para cá no plano político, de organização das estruturas de operação e socorro, robustecimento dos instrumentos de gestão territorial. Mas ter-se-á caminho à velocidade que se exige? Ter-se-á colocado o "dedo na ferida" e combatido os causas estruturais do problema dos grandes incêndios, tal como o abandono do Portugal rural?
Ter-se-ão adotado medidas de mitigação e adaptação às alterações climáticas, apostado num planeamento inclusivo e que respeite os interesses dos atores do território, no fortalecimento de uma cultura de território e de uma cultura de segurança nacionais?
Ou ficaremos à mercê das alterações climáticas ou da irresponsabilidade de alguns como justificativas maiores da dura realidade? Não estaremos paulatinamente a caminhar para um novo (ou pior) 2017, com os resultados trágicos que ainda perduram na nossa memória coletiva? Podemos esperar mais tempo pela necessária transformação?
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