Depressão Kristin arrasa cultura dos pequenos frutos em Odemira. Perdeu-se "entre 50% a 70% da capacidade produtiva"

A destruição de infraestruturas agrícolas, sistemas de rega e outros equipamentos essenciais à produção levou, para já, à perda entre 50% a 70% da capacidade produtiva dos produtores Lusomorango. “Está em causa a capacidade produtiva imediata e futura de um setor estratégico para o país”.

O CEO da Lusomorango diz que “a destruição de infraestruturas agrícolas, sistemas de rega e outros equipamentos” originou, para já, “a perda entre 50% a 70% da capacidade produtiva dos produtores”.
O CEO da Lusomorango diz que “a destruição de infraestruturas agrícolas, sistemas de rega e outros equipamentos” originou, para já, “a perda entre 50% a 70% da capacidade produtiva dos produtores”.

A Lusomorango, uma organização de produtores (OP) de pequenos frutos fundada em 2005 e que se dedica à produção e comércio de pequenos frutos - morango, framboesa, amora e mirtilo - alertou na última semana para o “impacto severo” que a depressão Kristin trouxe para as explorações agrícolas do concelho de Odemira.

Esta OP agrega cerca de quatro dezenas de produtores associados e, entre esses agricultores, já foi possível contabilizar “prejuízos diretos provisórios já superiores a 10 milhões de euros”.

Joel Vasconcelos, CEO da Lusomorango, explica que “a destruição de infraestruturas agrícolas, sistemas de rega e outros equipamentos essenciais à produção” originou, para já, “a perda entre 50% a 70% da capacidade produtiva dos produtores” desta OP.

Isto, embora os números sejam ainda “preliminares”, já que este é ainda o tempo de percorrer as áreas atingidas e fazer contas às culturas e infraestruturas destruídas.

“Está em causa a capacidade produtiva imediata e futura de um setor estratégico para o país. A destruição de infraestruturas compromete colheitas, contratos de exportação e postos de trabalho”, afirma o CEO da Lusomorango.
“Está em causa a capacidade produtiva imediata e futura de um setor estratégico para o país. A destruição de infraestruturas compromete colheitas, contratos de exportação e postos de trabalho”, afirma o CEO da Lusomorango.

E a previsão é que os prejuízos se agravem, pois as previsões meteorológicas apontam para o agravamento do estado do tempo nos próximos dias, o que “poderá aumentar significativamente os prejuízos e comprometer não apenas a campanha atual, mas também a produção futura”.

Perante este cenário, que consideram “devastador" para a Lusomorango e para a fileira dos pequenos frutos - morango, framboesa, amora e mirtilo - e para o futuro agrícola de Odemira, o CEO da OP apela para que também esta região possa aceder ao conjunto de medidas anunciadas pelo Governo, para apoio às explorações agrícolas localizadas em territórios onde foi decretado o estado de calamidade. É que, “sem esse enquadramento, muitas dezenas de explorações agrícolas e milhares de empregos poderão estar em causa, por estarem impedidos de aceder aos apoios extraordinários previstos para fazer face aos estragos provocados pela tempestade”, alerta o CEO da OP.

“Está em causa a capacidade produtiva imediata e futura de um setor estratégico para o país. A destruição de infraestruturas compromete colheitas, contratos de exportação e postos de trabalho”, afirma Joel Vasconcelos.

“Manifestamos naturalmente total solidariedade com todas regiões afetadas, mas é fundamental que o Governo considere também a gravidade da situação em Odemira e em outros territórios do país e os inclua no perímetro de ajudas destinadas a responder aos efeitos da depressão Kristin”, diz o gestor.

“O que está hoje em risco não é apenas uma campanha agrícola, mas a continuidade de uma atividade que assegura emprego, fixa população, produz alimentos e gera valor económico para o país”, diz o CEO da Lusomorango.
“O que está hoje em risco não é apenas uma campanha agrícola, mas a continuidade de uma atividade que assegura emprego, fixa população, produz alimentos e gera valor económico para o país”, diz o CEO da Lusomorango.

O perímetro de rega do Mira gerou, em 2023, 502 milhões de euros de valor acrescentado bruto, mais de 16 mil postos de trabalho e 134 milhões de euros em receita fiscal, de acordo com um estudo elaborado pela EY-Parthenon, citado pela Lusomorango.

E esta OP representa “uma parcela determinante deste contributo, sendo responsável por 17% da produção nacional de pequenos frutos, com forte peso nas exportações e na coesão social e económica do território”.

Note-se que, em 2024, esta fileira exportou 348 milhões de euros, com a “Lusomorango a responder por praticamente um terço deste valor”.

“O que está hoje em risco não é apenas uma campanha agrícola, mas a continuidade de uma atividade que assegura emprego, fixa população, produz alimentos e gera valor económico para o país”, sublinha ainda Joel Vasconcelos.
O CEO desta OP faz, pois, “um forte apelo para que o Governo reforce e alargue as medidas de apoio aos agricultores” desta região, em face das “perdas já muito significativas” e das “perspetivas meteorológicas adversas”.

A Lusomorango apela a “uma resposta rápida, eficaz e justa”, que inclua todos os produtores afetados pela depressão Kristin nos mecanismos de apoio extraordinário.

A OP pede ainda “simplicidade administrativa e rapidez na execução”, de forma a “evitar danos irreversíveis na capacidade produtiva, no emprego e no contributo económico e social” que este setor tem para Portugal.

Kristin lesou "centenas de agricultores"

Na mesma linha, a Portugal Fresh - Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal também já veio a terreiro enumerar os “prejuízos de milhões de euros no setor agroalimentar português” que a tempestade Kristin provocou por via das inundações, alagamento de campos, destruição de culturas e infraestruturas. Esta destruição “condenou a produção e o trabalho de centenas de agricultores” em Portugal, lamenta a associação.

Apoiar o setor das frutas, legumes e flores, bem como o setor agroalimentar e florestal em geral, não é apenas uma questão de solidariedade para com os agricultores: é uma decisão estratégica para o país”, afirma Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh.

É preciso olhar para a economia rural e assegurar que os produtos produzidos no nosso país continuarão a chegar à nossa mesa e aos mercados de exportação”, diz ainda Gonçalo Andrade, avisando que “o nosso poder político tem de agir com visão e coragem”. “É preciso trocar as soluções fáceis pelas soluções eficazes”, porque “a nossa agricultura depende disso”, sublinha o gestor.

O presidente da Portugal Fresh lamenta o “parco apoio [do Governo] de até 10 mil euros para a agricultura e floresta (quando não existe cobertura de seguro, sem necessidade de apresentação de documentação, com vistorias a cargo das CCDR e autarquias)”. As medidas anunciadas são "positivas", mas "insuficientes face à gravidade da situação”, nota Gonçalo Andrade.

Mas, perante o conjunto de medidas anunciadas pelo Executivo para responder às consequências da depressão Kristin, Gonçalo Andrade não tem dúvidas: “é importante garantir duas situações”. Uma delas, é que seja “um apoio direto, a fundo perdido”; outra é que “chegue ao terreno em tempo útil”.