Cabras algarvias ajudam a proteger o Parque da Pena contra incêndios

Três novos habitantes de quatro patas chegaram ao icónico monte sintrense. Conheça este projeto piloto sustentável que utiliza métodos biológicos tradicionais para limpar mato e defender a valiosa mancha vegetal.

Duas cabras e um bode do Algarve são os mais recentes residentes do Parque da Pena. Foto: José Marques Silva/Parques Sintra
Duas cabras e um bode do Algarve são os mais recentes residentes do Parque da Pena. Foto: José Marques Silva/Parques Sintra

Desfrutar da brisa fresca e húmida da Serra de Sintra é uma das melhores formas de escapar ao dias de maior calor. Se estiver pela região de Lisboa, aproveite estes dias para visitar o Parque Nacional da Pena e descobrir a floresta nativa portuguesa, lado a lado com coleções exóticas de sequoias americanas, cedros do Buçaco e as famosas camélias asiáticas introduzidas pelo rei D. Fernando II na década de 1840.

Ao longo de 85 hectares repletos de natureza, pode caminhar diretamente até ao Palácio da Pena, optar pelo circuito clássico dos jardins ou seguir o percurso romântico em direção à Cruz Alta — o ponto mais elevado da serra.

Se, durante a caminhada, se deparar com visitantes invulgares, não estranhe o inusitado encontro. Duas cabras e um bode da raça algarvia são os mais recentes residentes do parque. Desde meados de maio, este trio explora com curiosidade o território que passou a ser a sua nova casa.

O regresso da sabedoria ancestral na proteção da floresta

Longe de ser apenas mais uma atração no parque, o trabalho destes animais é muito sério. Integrada num projeto-piloto promovido pela Parques de Sintra, esta equipa ecológica ajuda os gestores florestais a preservar a paisagem e a biodiversidade locais.

Ao alimentarem-se de arbustos, rebentos e vegetação espontânea — incluindo espécies invasoras —, os caprinos controlam o mato, reduzem a carga combustível e travam o avanço de plantas lenhosas que ameaçam o equilíbrio da mata ornamental do Parque da Pena.

A sua função ecológica é valiosa porque impulsiona a regeneração natural e reduz o risco de incêndio. O método, conhecido como herbivoria dirigida, tem ganhado força em toda a Europa.

Trata-se de uma prática com raízes ancestrais adaptada agora à gestão moderna do território. Ao contrário das alternativas mecânicas ou químicas, este processo evita o uso de herbicidas, reduz a mobilização do solo e dispensa a maquinaria pesada na limpeza florestal.

Além de raposas, ginetas, ouriços-caixeiros e outra fauna típica, o Parque da Pena conta agora com um trio de caprinos do Algarve para proteger a floresta. Foto: GualdimG, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Além de raposas, ginetas, ouriços-caixeiros e outra fauna típica, o Parque da Pena conta agora com um trio de caprinos do Algarve para proteger a floresta. Foto: GualdimG, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Além do impacto ambiental, a presença destes animais enriquece a experiência dos visitantes, que podem observá-los em plena atividade, testemunhando ao vivo a importância da biodiversidade.

Evolução genética adaptada à aridez das serras

Para compreender o sucesso desta missão, vale a pena conhecer as origens da raça, moldada para a sobrevivência em paisagens exigentes. A cabra algarvia surgiu entre os séculos XIX e XX, fruto de cruzamentos sucessivos em isolamento geográfico.

O seu pilar original baseia-se na antiga cabra charnequeira, um animal rústico e adaptado ao relevo pedregoso do Barrocal e do Nordeste Algarvio.

O seu património genético inclui ainda influências de caprinos do Norte de África e de raças espanholas (Alpina e Serrana Andaluza). Esta evolução dotou-a de uma morfologia única em Portugal, ideal para percorrer longas distâncias em terrenos áridos.

Por ser uma raça autóctone protegida e em risco de extinção, cada exemplar conta. Estima-se que existam cerca de 12 mil animais adultos, estando a grande maioria (10 mil) concentrada na região algarvia, segundo dados da Sociedade Portuguesa de Ovinotecnia e Caprinotecnia.

Um modelo a replicar pela Serra de Sintra

Agora, o trio residente adapta-se ao novo habitat na Serra de Sintra. O bem-estar dos animais é assegurado diariamente por tratadores especializados, que garantem a sua alimentação complementar, vigilância sanitária e monitorização permanente, assegurando uma operação segura e controlada.

Ao reduzir o combustível e eliminar plantas exóticas, os caprinos algarvios vão desempenhar uma função vital na proteção da área florestal de Sintra. Foto: José Marques Silva/Parques Sintra
Ao reduzir o combustível e eliminar plantas exóticas, os caprinos algarvios vão desempenhar uma função vital na proteção da área florestal de Sintra. Foto: José Marques Silva/Parques Sintra

Caso este piloto atinja os resultados esperados, a Parques de Sintra planeia replicar progressivamente o modelo de herbivoria dirigida a outras áreas florestais sob a sua gestão, consolidando uma estratégia mais eficaz e sustentável na conservação da natureza.

Referência do artigo

Cabras algarvias ajudam a preservar o Parque da Pena através da gestão sustentável da vegetação. Parques Sintra

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