Arte chocalheira é única no Alentejo, mas está a desaparecer
A tradição do chocalho enfrenta escassez de mestres, desinteresse das gerações mais jovens e declínio da pastorícia, colocando em risco a continuidade deste saber-fazer único da região alentejana.

Nada será mais tranquilo do que um final de tarde nas vastas planícies do Alentejo. Se tiver, por isso, a oportunidade, aproveite para desfrutar da calmaria e escutar o vento. Pode ser que, entretanto, consiga ouvir ao longe os badalos a chocalhar no pescoço do gado.
O chocalho no Alentejo foi especialmente importante até meados da década de 1970. Não estando as propriedades vedadas, era muito fácil perder um ou mais animais nas pradarias alentejanas.
O badalo, durante incontáveis gerações, ajudou a conter o gado, impedindo-o de invadir as propriedades vizinhas. Cada produtor tinha badalos com sons característicos, uma espécie de identidade sonora que lhe permitia reivindicar a posse dos seus animais.

O som do chocalho é, portanto, resultado de um trabalho apurado ao longo de mais de dois mil anos. O seu fabrico é uma arte tipicamente alentejana, sobretudo nos concelhos de Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, com especial destaque para a vila de Alcáçovas, onde se encontra a única fábrica de chocalhos do país.
O som de cada badalada
O processo de fabrico não se limita a martelar e moldar a chapa de ferro, que, por si só, já exige engenho e perícia. O que verdadeiramente distingue este ofício é a capacidade do mestre de extrair de cada chocalho um som característico. Tem de ser a sonoridade certa, que não incomode o animal e seja, simultaneamente, um GPS do mundo rural para saber, em tempo real, onde está o gado.
Antigamente, o gado usava um chocalho de tamanho diferente em cada estação do ano e os pastores presenteavam a vaca mais gulosa com o chocalho macho (maior e de som mais grave) para conseguir saber quando o animal andava a prevaricar em pastagens alheias.
Património em perigo
Há pouco mais de dez anos, a arte chocalheira portuguesa foi reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade com Necessidade de Salvaguarda Urgente.
O fabrico de chocalhos foi o primeiro elemento português a ser integrado nesta lista, em 2015, visando proteger manifestações culturais em risco de desaparecer, especialmente devido à escassez de artesãos que conservam um conhecimento transmitido oralmente de geração em geração.

A distinção permitiu ao Turismo do Alentejo promover a tradição com feiras, ações de formações, experiências e workshops para visitantes, entre outras iniciativas. Ainda assim, a arte chocalheira continua dessincronizada com o compasso acelerado da modernidade.
Proteger a identidade rural
Hoje, em Alcáçovas, na única fábrica de chocalhos, já só restam dois mestres chocalheiros no ativo. Sem medidas urgentes para preservar o conhecimento, o ofício corre o risco de se extinguir, levando consigo uma parte importante da identidade rural de Portugal.
Os académicos estão, por isso, convencidos de que as entidades regionais e nacionais precisam de delinear uma estratégia conjunta para preservar a arte chocalheira.
A formação de novos artesãos é fundamental, mas também é essencial investir na sensibilização das comunidades locais. Os criadores de gado desempenham um papel importante na preservação da tradição nas suas propriedades. Nada, porém, se poderá alcançar sem dinamizar a atividade pastorícia, ela própria em declínio.

Estes são, portanto, os pilares de uma visão abrangente e consensualmente reconhecida como uma estratégia a ser rapidamente implementada para não se perder um património único em menos de uma geração.
Referência da notícia
Município de Viana do Alentejo. Museu do Chocalho.
Município de Viana do Alentejo. Fabrico de chocalhos.