Pedra a pedra, assim se constrói a paisagem agreste de Sicó

Na região do Maciço Calcário de Sicó, entre Leiria e Coimbra, os muros de pedra seca transformaram obstáculos agrícolas em património cultural, preservando um modo de vida singular.

Um mestre pedreiro constrói um muro em pedra seca, uma arte transmitida de geração em geração que continua viva no Maciço Calcário de Sicó. Foto: CCDR-Centro
Um mestre pedreiro constrói um muro em pedra seca, uma arte transmitida de geração em geração que continua viva no Maciço Calcário de Sicó. Foto: CCDR-Centro

Há paisagens selvagens e outras que imediatamente revelam a marca dos homens. No Maciço Calcário de Sicó, que se estende entre os concelhos de Condeixa-a-Nova, Penela, Ansião, Alvaiázere, Pombal e Soure, é quase impossível distinguir onde termina a natureza e começa o trabalho humano.

A pedra, nesta região, nunca foi apenas pedra. Foi obstáculo, ferramenta, abrigo e fronteira. Durante gerações, as comunidades rurais aprenderam a retirar dos campos os blocos calcários que impediam o cultivo da terra. Com eles ergueram muros, socalcos, currais, abrigos e pequenas construções que acabariam por condicionar a identidade daquela região.

Sem argamassa nem cimento, mas apenas com pedra, gravidade e um conhecimento transmitido de geração em geração.

É essa arte – enraizada na paisagem e na vida das comunidades locais – que entrou agora no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, um passo essencial para uma futura candidatura à lista representativa da UNESCO.

Mais do que distinguir uma técnica de construção, o reconhecimento identifica um saber que continua vivo e que transformou um território hostil numa das paisagens culturais mais singulares do país.

A geografia ensina a construir

Não são muitos os lugares que explicam tão bem a influência da geografia sobre uma comunidade como a região do Maciço Calcário de Sicó. O relevo acidentado, os solos pouco profundos e a abundância de afloramentos calcários sempre dificultaram a agricultura.

Antes de semear, era preciso libertar a terra das pedras. O que parecia um problema tornou-se, pouco a pouco, uma oportunidade.

Em vez de serem descartadas, essas pedras passaram a constituir a principal matéria-prima disponível. À medida que os campos eram limpos, surgiam muros que delimitavam propriedades, protegiam culturas do vento, estabilizavam encostas e criavam pequenas parcelas agrícolas adaptadas ao relevo.

Cada vedação respondia a uma necessidade concreta. Mas, somadas ao longo dos séculos, acabaram por compor a paisagem da região.

Ao longo dos caminhos de Sicó, os muros de pedra seca contam séculos de convivência entre as comunidades e a paisagem. Foto: Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local
Ao longo dos caminhos de Sicó, os muros de pedra seca contam séculos de convivência entre as comunidades e a paisagem. Foto: Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local

O resultado é uma arquitetura vernacular que parece nascer naturalmente do terreno. As pedras utilizadas pertencem ao próprio lugar, partilham a mesma cor da encosta e acompanham-lhe as curvas. É essa fusão entre património natural e património construído que distingue a paisagem de Sicó.

Para além dos simples muros

Um muro de pedra seca pode parecer apenas uma divisória, mas desempenha funções muito mais complexas. A sua estrutura, construída sem qualquer material de ligação, permite à água da chuva atravessar as juntas entre as pedras, reduzindo a erosão dos solos e evitando a pressão exercida pela água acumulada.

Ao mesmo tempo, ajuda a estabilizar terrenos inclinados, protege as culturas agrícolas e cria microclimas favoráveis ao desenvolvimento da vegetação.

Mas há outro papel, menos percetível, que a investigação científica tem vindo a revelar. As cavidades entre as pedras são refúgio para inúmeras espécies de plantas, insetos, répteis e pequenos mamíferos, convertendo os muros em corredores ecológicos. Num território fortemente marcado pela atividade agrícola, tornam-se importantes reservatórios de biodiversidade e contribuem para manter o equilíbrio dos ecossistemas.

Muito antes de se falar em infraestruturas verdes, soluções baseadas na natureza ou adaptação às alterações climáticas, as comunidades de Sicó já aplicavam, de forma intuitiva, princípios que hoje são exemplos de gestão sustentável da paisagem.

Sem recorrer a cálculos de engenharia ou modelos ambientais, construíram estruturas capazes de conservar solos, gerir água e integrar-se harmoniosamente no território. E fizeram-no apenas observando a terra.

O saber de mão em mão

Os muros de pedra seca impressionam pela sua solidez. Alguns atravessaram séculos quase inalterados, resistindo à chuva, ao calor, ao vento e ao abandono. O verdadeiro património, no entanto, sempre esteve nas pessoas que aprenderam a escolhê-las, encaixá-las e equilibrá-las, transmitindo um conhecimento oral que passou entre gerações pela observação, pela repetição e pela prática.

As pedreiras, como esta, localizada em Pombal, transformaram-se numa das principais atividades económicas da região de Sicó. Foto: PNAB
As pedreiras, como esta, localizada em Pombal, transformaram-se numa das principais atividades económicas da região de Sicó. Foto: PNAB

É essa dimensão humana que o dossiê preparado para a inscrição da arte da construção dos muros em pedra seca no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial procurou demonstrar. Além de descrever técnicas e caracterizar a paisagem, o documento identifica alguns dos mestres pedreiros que continuam a dominar o ofício, homens cuja vida se confunde com os campos, os rebanhos e a pedra calcária de Sicó.

As suas biografias revelam percursos diferentes, mas quase todos aprenderam ainda crianças, acompanhando pais, avôs ou outros familiares durante os trabalhos agrícolas.

O conhecimento era adquirido lentamente, observando os mais velhos, levantando as primeiras pedras, errando, corrigindo e voltando a tentar até o muro se confundir com a paisagem. Ao longo de décadas, estes mestres ajudaram a erguer quilómetros de muros, currais, socalcos e pequenas construções rurais.

Fizeram-no porque era necessário cultivar a terra, guardar os animais ou delimitar propriedades. Só muito mais tarde perceberam que aquilo que aprenderam por necessidade viria a ser reconhecido como património cultural.

A inscrição no Inventário Nacional procura precisamente evitar que esse conhecimento desapareça com quem ainda o detém. Inventariar um património imaterial não significa apenas descrever uma técnica construtiva. Significa também reconhecer as pessoas que a mantêm viva e documentar os processos através dos quais esse saber continua a ser transmitido.

Preservar as pedras do conhecimento

Num tempo em que a mecanização substituiu muitos dos trabalhos tradicionais e em que poucos jovens aprendem este ofício, a preservação da construção em pedra seca coloca desafios que vão muito além da conservação dos muros existentes.

Os rebanhos de diferentes proprietários pastam nos terrenos comunitários e baldios das terras de Sicó, onde o tomilho-silvestre e a erva-de-santa-maria dão ao leite o sabor aromático único. Foto: PNAB
Os rebanhos de diferentes proprietários pastam nos terrenos comunitários e baldios das terras de Sicó, onde o tomilho-silvestre e a erva-de-santa-maria dão ao leite o sabor aromático único. Foto: PNAB

Um muro pode ser restaurado, mas um saber perdido dificilmente poderá ser reconstruído. É por isso que a candidatura ao Património Cultural Imaterial da UNESCO representa muito mais do que um reconhecimento simbólico. O objetivo não é transformar estes muros em peças de museu, mas garantir que continuam a ser construídos e reparados pelas gerações seguintes.

Essa preocupação ganha particular importância numa época em que soluções tradicionais voltam a despertar o interesse de investigadores, arquitetos e especialistas em ambiente. Cada muro de Sicó, afinal, representa milhares de decisões aparentemente simples, aperfeiçoadas durante gerações.

Referência da notícia

Património Cultural, Instituto Público. Arte da construção dos muros em pedra seca no Maciço Calcário de Sicó” inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
Associação de Desenvolvimento Terras de Sicó. Anexo I da candidatura ao Registo no Inventário Nacional do Património.
Associação de Desenvolvimento Terras de Sicó. Anexo II da candidatura ao Registo no Inventário Nacional do Património.