Nem português, nem espanhol. Nesta aldeia fala-se mañegu
A poucos quilómetros da fronteira, San Martín de Trevejo guarda uma língua rara e tradições únicas que continuam a marcar o dia a dia da aldeia.

Expressões como “bóus días” ou “farina” podem parecer inventadas por aqueles portugueses que chegam a Espanha e que, confiantemente, começam a disparar palavras num ‘portunhol’, que confunde tanto os portugueses como espanhóis. Mas, na verdade, fazem parte de um dialeto bem real.
Mas, afinal, onde é que um “bom dia” ou “buenos días”, se transformam em “bóus días”? Em San Martín de Trevejo, em Cáceres, Espanha.
Aqui, no meio de casas de pedra e natureza envolvente, os cerca de 700 habitantes raramente utilizam português ou até mesmo o espanhol para se comunicarem.
Fala-se “outra língua” (literalmente)
Apesar de se estar em Espanha, mais precisamente numa pequena localidade no sopé da Serra de Gata, o que se ouve nas ruas nem sempre é castelhano. Aliás, segunda a revista 'National Geographic', estima-se que 80 por cento da população use no dia a dia o mañegu, uma variante de A Fala, com raízes no antigo galego-português.
Para quem vem de Portugal, há palavras que soam familiares, mas nunca totalmente iguais. É um daqueles casos em que se percebe, mas não completamente.
Parece, contudo, que este dialeto está prestes a ser extinto. À semelhança de muitas zonas rurais portuguesas, a população de San Martín de Trevejo é maioritariamente envelhecida. A saída dos mais jovens e as mudanças no estilo de vida têm colocado pressão sobre a continuidade do mañegu, que enfrenta um risco real de desaparecer nas próximas gerações.
Ainda assim, têm surgido esforços para contrariar essa tendência. Associações locais e iniciativas culturais têm apostado na sua valorização, incluindo a edição de livros e outras ações de divulgação. Ao mesmo tempo, o interesse turístico pela região tem vindo a aumentar, impulsionado pela paisagem envolvente e pela proximidade de localidades como Valverde del Fresno e Eljas.
Uma aldeia onde a água corre pelas ruas
Sim, porque esta pequena localidade espanhola mantém um cenário pouco comum: ruas estreitas, casas antigas e um canal de água que atravessa o centro histórico. E, não, este não é decorativo. Na verdade, vem diretamente da montanha e continua a ser usado para limpar as ruas e ajudar na rega.

Este conjunto urbano continua, ainda hoje, bem preservado e não é por acaso que tem estatuto de património. As casas seguem mesmo um padrão muito próprio: rés do chão para arrumos ou animais, e os pisos superiores para habitação.
Tradições que continuam no calendário
Além disso, a vida em San Martín de Trevejo continua muito ligada às tradições. A produção de vinho é uma delas, com destaque para a época das vindimas, que ainda seguem métodos tradicionais.
Vale também a pena passar pela Igreja de San Martín de Tours e pela praça principal, pontos centrais de uma aldeia que se mantém fiel à sua história sem cair no formato de “atração turística encenada”.
A cerca de 15 quilómetros em linha reta de Portugal, esta é uma escapadinha fácil. O melhor é que não parece uma continuação do outro lado da fronteira. E isso, hoje em dia, já não é assim tão comum.