Jato polar “desenfreado”: na próxima semana circulará a 300 km/h, impulsionando mais tempestades para Portugal

Um jato polar forte e mais a sul do que o habitual sobre o Atlântico Norte permitirá a rápida formação de tempestades e uma deslocação vertiginosa das mesmas, afetando Portugal no resto do mês de janeiro.

Este fim de semana a tempestade Ingrid está no centro das atenções em Portugal continental, estando associada a um fluxo de Oeste invulgar procedente do Atlântico e já depois de ter sofrido um processo de ciclogénese explosiva. Não será ameno como habitualmente, mas sim associado ao transporte de uma massa de ar polar marítima, fria e húmida.

Desde a tarde de quinta-feira (22), e durante esta sexta-feira (23) e sábado (24), que esta configuração sinóptica se traduzirá num forte temporal de chuva, neve, vento e agitação marítima. São vários os registos em vídeo e fotografia que se têm multiplicado pelas redes sociais e que ilustram, ao final da manhã desta sexta-feira (23), os fenómenos meteorológicos provocados por Ingrid na nossa geografia.

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Nas próximas horas os aguaceiros e linhas de instabilidade pós-frontais, por vezes de granizo e acompanhados de trovoada, em combinação com uma injeção de ar polar ainda mais intensa, gerarão neve, coincidindo com a fase mais crítica do episódio: entre o final da tarde de hoje e o final da manhã de sábado (24). Além disso, é expectável um agravamento da agitação marítima, que poderá gerar galgamentos costeiros, inundações em zonas ribeirinhas e prejuízos avultados em áreas da linha costeira mais expostas.

Mas, o mais importante é que Ingrid não será, de modo algum, a última depressão deste ‘comboio’ de intempéries. Então, o que podemos esperar do tempo para a próxima semana no nosso país? Analisamos abaixo.

O jato polar estará muito forte e encaminhar-se-á diretamente para Portugal

A presença de um anticiclone nas latitudes altas continuará a fazer circular o ar polar para sul, sobre o oceano Atlântico. Isto provocará uma intensificação ainda maior do gradiente térmico nas latitudes médias sobre a zona do oceano mais próxima ao nosso país, dando origem a tempestades violentas que se desenvolverão rapidamente sobre a Europa Ocidental e Meridional.

O jato polar encaminhar-se-á diretamente para Portugal no curto e médio prazo, o que manterá a circulação atlântica muito ativa, com a rápida formação e deslocação de depressões e frentes associadas.
O jato polar encaminhar-se-á diretamente para Portugal no curto e médio prazo, o que manterá a circulação atlântica muito ativa, com a rápida formação e deslocação de depressões e frentes associadas.

As consequências desta distribuição em grande escala das massas de ar resultarão num jato polar consideravelmente mais veloz e que se estabelecerá em latitudes próximas à Península Ibérica. A velocidade prevista é impressionante: de acordo com os mapas de referência da Meteored, poderá rondar os 300 km/h próximo a Portugal continental na camada dos 300 hPa (corresponde aproximadamente a 9000 metros de altitude) e atingir valores superiores sobre o Atlântico Norte.

Vendavais em perspetiva para a próxima semana

Mais ainda do que a queda de neve ou a ocorrência de chuva, um dos elementos climáticos que mais se sobressai neste tipo de configuração sinóptica é o vento. E, para a próxima semana, de 26 de janeiro a 1 de fevereiro, vislumbram-se vários temporais significativos. O cenário mais provável aposta que os centros das tempestades que nos irão afetar circulem a norte de Portugal continental, entre a Terra Nova e as Ilhas Britânicas. Isto sugere que o vento predominante seja de Oeste.

O vento forte será um dos elementos climáticos que mais se irá destacar, entre os vários temporais que afetarão o nosso país (Continente e Ilhas) na próxima semana.
O vento forte será um dos elementos climáticos que mais se irá destacar, entre os vários temporais que afetarão o nosso país (Continente e Ilhas) na próxima semana.

De acordo com os atuais mapas do modelo europeu, nos instantes mais críticos, o vento poderá facilmente atingir rajadas de 70 a 90 km/h na faixa costeira ocidental, atingindo ou ultrapassando os 90 ou 100 km/h nas terras altas. No entanto, caso alguma destas tempestades se desloque mais para sul do que o previsto, o vento poderá exceder a intensidade descrita e produzir rajadas ainda mais fortes.

Chuva generalizada e abundante e novos episódios de neve em perspetiva, especialmente nas áreas montanhosas

Tendo em conta este panorama, é bastante expectável que o “comboio” de tempestades continue muito ativo. Isto resultará no desenvolvimento das tempestades (ou depressões) em latitudes relativamente próximas à de Portugal, com as suas frentes associadas - muito ativas, rápidas e intensas - a atingirem o nosso país. Prevê-se que a próxima tempestade nos afete já de segunda para terça-feira, dias 26 e 27 de janeiro.

Por causa desta circulação atlântica muito ativa, inserida no fluxo zonal de Oeste, a chuva será mais forte, frequente e abundante nas regiões situadas a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela e a oeste da Barreira de Condensação. Porém, nem mesmo o efeito orográfico impedirá que as frentes alcancem com frequência regiões habitualmente menos regadas - como o Alentejo e o Algarve - pelo que choverá de norte a sul da unidade territorial do Continente.

De acordo com as atuais previsões do modelo Europeu, Portugal continental será o país mais chuvoso da Europa na próxima semana por uma larga margem, com zonas montanhosas do Minho ou a Serra da Freita a poderem ultrapassar confortavelmente os 300 mm de chuva acumulada.
De acordo com as atuais previsões do modelo Europeu, Portugal continental será o país mais chuvoso da Europa na próxima semana por uma larga margem, com zonas montanhosas do Minho ou a Serra da Freita a poderem ultrapassar confortavelmente os 300 mm de chuva acumulada.

Quanto à neve estão em perspetiva novos episódios de ocorrência deste hidrometeoro. As cotas de neve sofrerão fortes oscilações com a passagem das frentes, o que se traduzirá em formação de gelo e em degelo nas cotas médias. Atualmente os mapas preveem a possibilidade de queda de neve acima dos 700-800 metros de altitude em serras, montanhas e localidades das Regiões Norte e Centro entre o final de terça (27) e na quarta-feira (28), para voltar a subir mais tarde.

E atenção aos fenómenos de risco: estes ciclos de neve, chuva e gelo/degelo poderão contribuir para um aumento considerável dos caudais dos rios, com potencial para cheias rápidas nas margens e zonas adjacentes, saturação dos solos e outros riscos daí advindos.

Por fim, os arquipélagos dos Açores e da Madeira também estarão expostos a esta circulação atlântica muito ativa, especialmente o primeiro território insular mencionado, que registará uma segunda-feira (26) e quarta-feira (28) muito instáveis, com ventos muito fortes e períodos de chuva intensa. No arquipélago madeirense o tempo será mais variável e menos agreste, embora por momentos o vento também seja forte, especialmente nas Regiões Montanhosas.