Esta Semana Santa será preciso estar atento ao que virá de leste: uma gota fria poderá condicionar o tempo em Portugal
A poucos dias do início da Semana Santa, os mapas já fornecem aos especialistas da Meteored os elementos necessários para fazer uma previsão mais fiável. Vislumbra-se um período tendencialmente seco e de contrastes térmicos, embora com potencial instabilidade nalgumas regiões de Portugal.

Ontem - segunda-feira, 23 de março - Alfredo Graça, especialista da Meteored Portugal, participou num webinar para os meios de comunicação social portugueses no qual apresentou uma previsão meteorológica para a Semana Santa em Portugal. A sua análise para este período aponta para um tempo geralmente seco e de contrastes térmicos, embora com potencial instabilidade nalgumas regiões de Portugal.
Além disto, também foram abordados os principais fatores atmosféricos que explicam este cenário, tais como o enfraquecimento do vórtice polar, o aquecimento súbito estratosférico, as gotas frias e a influência de um inverno muito chuvoso.
Causas do ciclo húmido e possibilidades que se mantenha para a Semana Santa
Portugal registou um dos invernos mais rigorosos e húmidos dos últimos anos, tendo sido afetado por um implacável “comboio de tempestades” que atingiu praticamente todo o território, provocando chuvas fortes, solos saturados e ventos intensos. Fatores como um jato polar mais forte e mais desviado para sul do que o habitual, rios atmosféricos provenientes de zonas tropicais e elementos locais como a orografia potenciaram estes fenómenos.

A incerteza na previsão aumenta bastante com a variabilidade típica da primavera, muito marcada pela alternância entre períodos estáveis anticiclónicos e períodos instáveis, com depressões ou gotas frias. Deste modo, para a Semana Santa 2026 ainda está “tudo em aberto” para Portugal, com um jato polar que continuará muito ondulante e a possível formação de padrões como o de bloqueio ou o de crista atlântica.
O aquecimento súbito estratosférico no contexto desta Semana Santa
A Semana Santa 2026 chega após um vórtice polar enfraquecido provocado por um aquecimento súbito estratosférico que ocorreu no final de fevereiro. Este fenómeno de grande escala costuma demorar entre 20 a 30 dias a produzir efeitos à superfície - coincidirão com reta final de março e inícios de abril - desestabilizando a corrente de jato polar e sendo favorável a descidas de ar frio das latitudes polares para as latitudes médias e ao estabelecimento de padrões, como por exemplo, o de bloqueio escandinavo.

Em Portugal os impactos são variáveis e depende da forma como o vórtice se fragmenta, pelo que o tempo pode ser seco e frio ou ameno e chuvoso. Tendo em conta isto, esta Semana Santa decorrerá num cenário atmosférico potencialmente mais dinâmico, marcado pela variabilidade e uma grande incerteza nas previsões meteorológicas.
As gotas frias como fenómeno a monitorizar na primavera
A primavera é uma estação de transição caracterizada por uma elevada variabilidade de estados de tempo e por um aumento gradual da energia disponível na atmosfera. O contraste entre o ar frio em altitude e o aquecimento da superfície favorece situações de instabilidade.
O sol começa a incidir de uma forma mais direta no pólo norte, aquecendo-o e reduzindo o contraste térmico com as latitudes médias. Deste modo, o jato polar perde intensidade e torna-se mais ondulante, aumentando a probabilidade de alguma bolsa de ar frio se desprender dele e originar as chamadas gotas frias.

Ao soltarem-se da circulação geral da atmosfera, as bolsas de ar frio ficam isoladas em altitude e, ao evoluírem, podem originar um centro de baixas pressões cuja trajetória tende a ser errática (gota fria), o que dificulta prever com precisão quer a distribuição geográfica (tendencialmente irregular), quer a intensidade da precipitação convectiva que lhe está associada, como aguaceiros, trovoada e granizo.
Por isso, torna-se complexo determinar antecipadamente onde ocorrerá a chuva e quão intensa poderá ser, sendo essencial manter uma monitorização contínua e olhar para as últimas atualizações dos mapas e modelos. Nos últimos anos (inícios de abril 2019, 2020, 2021 e 2025) foram registadas gotas frias no nosso país.
Previsão para a Semana Santa 2026 em Portugal
Este ano de 2026 a Semana Santa será celebrada entre 29 de março e 5 de abril, mais cedo do que no ano anterior e coincidindo com um período de primavera caracterizado por uma elevada variabilidade atmosférica em Portugal. Esta instabilidade é marcada pelas ondulações do jato polar, que favorecem a alternância entre períodos de estabilidade e entradas de ar frio, dando origem a um tempo variável e incerto.
De acordo com o modelo europeu, a atmosfera manter-se-á dinâmica durante estas datas, sem um padrão estável dominante (bloqueio intercalado com crista atlântica). A Semana Santa poderá começar com um anticiclone em crista posicionado a noroeste da Península Ibérica (Domingo de Ramos), embora, com o decorrer dos dias, possam prevalecer situações de bloqueio e ar frio, o que aumenta a probabilidade de instabilidade.
A precipitação será uma das variáveis mais incertas: poderá ser produzida tanto por frentes atlânticas como por aguaceiros convectivos, por vezes com trovoadas ou sob a forma de granizo, sendo mais provável uma sucessão de dias de chuva do que episódios de grandes acumulados.

No entanto, a última atualização do mapa de anomalia de precipitação aponta para um tempo mais seco do que o normal em Portugal continental e Açores, sem se vislumbrar uma tendência definida na Madeira. Deste modo, observam-se anomalias de precipitação negativas (precipitação inferior à média para esta época do ano), sendo especialmente expressivas nas Regiões Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alto Alentejo e Açores.
No que diz respeito às temperaturas, os últimos mapas revelam anomalias térmicas positivas em boa parte de Portugal continental, com especial destaque para o litoral Norte e Centro (temperaturas entre 1 e 3 ºC acima do normal), mas um tempo ligeiramente mais frio do que o normal no arquipélago da Madeira e nas ilhas mais orientais do arquipélago dos Açores: valores até 1 ºC inferiores à média de referência. Para a restante geografia de Portugal continental não se observam tendências térmicas estatisticamente significativas.
Em suma, é expectável uma Semana Santa marcada pela estabilidade, mas altamente exposta à variabilidade o que aumenta a probabilidade de ocorrência de alguns episódios de instabilidade, situação habitual nesta altura do ano, pelo que se recomenda o acompanhamento da evolução das previsões nos próximos dias.